Israel cada vez mais isolado

Ed Miliband no parlamento britânico a criticar o governo israelita. Foto publicada no Quds News Network

Esta terça-feira, 8 de Setembro, foi o dia em que um “orgulhoso judeu britânico”, no parlamento britânico, criticou duramente algumas políticas do governo de Israel. Esse judeu britânico orgulhoso é o ministro dos negócios estrangeiros britânico, Ed Miliband, que confessou “um profundo sentimento de vergonha” pelo sofrimento palestiniano nos últimos 3 anos e descreveu a situação em Gaza como “uma mancha na consciência da comunidade internacional”.

Mais do que as sanções propostas (mais à frente no texto), o que doeu a Telavive foi ouvir estas palavras vindas de um judeu, que é simultaneamente um governante do país de origem da “Declaração Balfour” (1917), o documento que Londres criou ainda antes do Mandato Britânico na Palestina e que esteve na origem do Estado de Israel.

Se não houver aqui qualquer encenação, e se as sanções não passarem de algo apenas simbólico e sem efeito concreto, as coisas parece que estão a ficar malparadas (“em situação ruim, desfavorável ou perigosa” segundo o Dicionário Houasis) entre Israel e os sempre amigos ocidentais. Pelo menos com alguns deles. Há evidências demasiado fortes que impossibilitam o fechar de olhos ou as falinhas mansas que muitos governos têm praticado relativamente aos abusos e aos crimes cometidos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.

A espiral desenfreada do actual governo israelita, na tentativa de obter o maior ganho territorial, o mais rapidamente possível, conduziu o país à condição de Estado pária e a uma rejeição crescente por parte da comunidade internacional. Abusando do argumento do direito à defesa – que os países ocidentais não questionam – Israel tem espoliado os palestinianos de territórios, de todo um conjunto de direitos indispensáveis a uma vida digna e de qualquer perspectiva de futuro, nomeadamente a criação de um Estado da Palestina.

12 criticam Israel e avançam com sanções

A mais recente nota dessa rejeição – conhecida quase em simultâneo com as referidas palavras do governante britânico – da comunidade internacional, chegou esta terça-feira a Telavive com a assinatura de 12 países ocidentais, com destaque para as assinaturas francesa e britânica. Na declaração conjunta destes 12 países (França, Reino Unido, Canadá, Dinamarca, Espanha, Finlândia, Irlanda, Islândia, Noruega, Polónia, Portugal e Suécia), fica sublinhado que “a situação se degrada rapidamente devido à violência praticada pelos colonos e com a expansão dos colonatos a atingirem níveis sem precedentes, nomeadamente com a decisão inadmissível de publicar anúncios de concurso para o projecto de colonato E1 (o projecto que isola Jerusalém Oriental da Cisjordânia). Os doze consideram que as acções do governo israelita comprometem a solução dois Estados, que os 12 consideram que deve ser protegida. Mais ainda, os 12 opõem-se a toda a anexação de território palestiniano e ao deslocamento forçado da população palestiniana (uma possibilidade que é tema de campanha eleitoral em Israel).

Por tudo isto, os países que assinam a declaração exigem ao governo israelita que termine imediatamente com a expansão dos colonatos, com a transferência de poderes administrativos (que significa a anexação, embora não assumida), que os colonos violentos sejam responsabilizados na justiça e que seja investigada a actuação do exército. Como medida de pressão, os doze propõem a imposição de “restrições nacionais ao comércio de bens com os colonatos (israelitas) ilegais à luz do direito internacional e/ou apoiar restrições europeias” no mesmo sentido.

Sanções

Voltando a Ed Miliband, ele anunciou uma “interdição de importação de produtos com origem nos colonatos ilegais dos territórios ocupados” e prometeu sanções contra “as empresas e indivíduos que forneçam serviços, tais como a construção, infraestruturas, financiamento ou imobiliário para a expansão dos colonatos”. Miliband não teve palavras brandas: “Está em curso uma limpeza étnica na Cisjordânia, perpetrada por colonos terroristas. E muito frequentemente, o governo israelita tem fechado os olhos a esta situação”.

Estas palavras foram acompanhadas das memórias do governante britânico, enquanto judeu e familiar dos que sofreram directamente com o Holocausto. Miliband expressou gratidão por Israel ter providenciado uma casa para a avó depois dos nazis matarem o avô e 60 membros da sua família, lembrou o tempo que passou com a avó em Telavive, nos anos de 1970, e o tempo que passou com os primos. Disse também que o ataque do Hamas, em Outubro de 2023, demonstra as ameaças que Israel enfrenta e garantiu que o Reino Unido está comprometido com a segurança de Israel. Criticou o antissemitismo no Reino Unido e anunciou sanções contra o Hezbollah e o Irão. Nada disso o salvou de acusações de antissemitismo que o governo israelita dedicou aos países que assinaram a declaração e que visaram especialmente o governo (trabalhista) britânico.

Israel retalia e ameaça

Israel não gostou de ver os velhos aliados, que até agora tinham admitido todos os desmandos contra os palestinianos, levantarem a voz contra as políticas de Telavive. E retaliou rapidamente.

Depois da recorrente acusação de antissemitismo, o ministro dos negócios estrangeiros israelita, Gideon Sa’ar, determinou o fecho do consulado britânico em Jerusalém, o afastamento dos representantes britânicos no Centro de Apoio Internacional a Gaza (em Telavive), acabou com a actividade da “Equipa de Apoio Britânica” que dá formação a forças da Autoridade Palestiniana e proibiu a entrada em Israel a 12 deputados britânicos, entre eles Jeremy Corbyn, actual deputado do Your Party e antigo líder trabalhista.

A longa comunicação de Gideon Sa’ar termina com uma ameaça aos governos que tomem medidas semelhantes às que foram anunciadas por Londres: “Quem agir contra Israel, Israel agirá contra ele, e perderá a sua influência e relevância na região”.

O líder de extrema-direita, Bezalel Smotrich, apelou à expulsão do embaixador britânico.

Ainda antes de ser conhecida a declaração dos doze, o presidente israelita, Isaac Herzog, avisou que seria “um grave erro de cálculo” que iria “ficar do lado errado da história”.

Outras reacções

Os colonos israelitas, obviamente, também não gostaram. Israel Gantz, presidente do Conselho Yesha, a principal organização que representa os colonos na Cisjordânia ocupada considerou “a decisão de boicotar os produtos da Judeia e da Samaria (Cisjordânia) e de impor sanções aos judeus, simplesmente porque vivem e trabalham na sua terra ancestral, é uma medida antissemita e vergonhosa”.

Em Ramallah, reacção de sentido oposto: a Autoridade Palestiniana saudou as sanções anunciadas pelos 12 países ocidentais, mas apelou a uma tradução rápida destas posições em medidas vinculativas de forma a “garantir que o governo israelita é responsabilizado pelas suas violações”.

Falta saber que tipo de sanções vão ser aplicadas directamente por Portugal ou se o governo português ficará à espera que seja tomada uma decisão da União Europeia como a declaração dos 12 também sugere.

Pinhal Novo, 9 de Setembro de 2026

03h00

jmr

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