
Os desastres naturais desencadeiam ondas de solidariedade que ainda dizem alguma coisa de positivo sobre a condição humana. Nos últimos dias, multiplicam-se as equipas de socorro mobilizadas um pouco por todo o mundo para levar ajuda aos que ficam desamparados e sem recursos para valer às vítimas do terramoto na Venezuela. Esta mobilização de vontades e recursos é oxigénio para quem ainda acredita que a humanidade tem salvação. A mesma humanidade que, em outros momentos se dedica a provocar desastres que nada têm de naturais e que poderiam ser evitados, lançando guerras, promovendo genocídios e limpezas étnicas, muitas vezes até, regozijando-se com o sofrimento e as mortes provocadas. É uma esquizofrenia: ora se mobilizam meios de salvamento, ora se mobilizam meios de guerra. O “mesmo” ser humano que chora de alegria perante o resgate de alguém que esteve entalado nos escombros durante dias, é o “mesmo” ser humano que coloca dedicatórias cínicas em bombas que hão de ser lançadas contra pessoas indefesas.
Hatay sul da Turquia
As imagens do terramoto na Venezuela fizeram-me recuar cerca de três anos, até à Turquia. A 6 de Fevereiro de 2023, com epicentro a poucos quilómetros de Gazientep, a terra tremeu no sul da Turquia e no noroeste da Síria, com uma intensidade de 7,8 na Escala de Richter e com réplicas igualmente poderosas. Muitas casas desfizeram-se qual castelo de cartas e algumas zonas ficaram transformadas em verdadeiras “zonas de guerra”. Foi um enorme desastre: mais de 60 000 mortos. A destruição deixou trabalho e marcas para muito tempo.
O desastre mobilizou equipas de socorro de vários pontos do mundo. Tal como aconteceu agora com a Venezuela, Portugal também enviou para a Turquia uma equipa liderada pelo comandante José Guilherme. Uma equipa de 52 operacionais (GNR, INEM, Bombeiros) que salvou Baren, uma criança de 10 anos, depois de um alerta confirmado pela cadela Agra. Em Hatay, seis dias depois do terramoto, a criança foi retirada pela equipa portuguesa.
Também em Hatay, talvez a província turca mais afectada, sete dias depois do terramoto, presenciei a retirada de dois sobreviventes. As equipas de socorro trabalharam várias horas para conseguir extrair as pessoas soterradas. Era Fevereiro e estava frio. Caiu a noite e a luz do sol foi substituída pelos projectores alimentados a baterias. As equipas trabalharam sem parar depois de terem detectado sinais de vida nos escombros. O trabalho só era interrompido quando era necessário fazer silêncio para falar com quem estava debaixo dos escombros à espera da mão que o tiraria desse buraco. É impossível tentar perceber o desespero de quem fica trancado entre placas de betão que, por insondável destino, deixaram um espaço onde alguém consegue sobreviver. É impossível perceber os níveis de ansiedade de quem, entre os escombros, percebe que foi encontrado e espera pelo momento em que vai sair (se sair, porque é sempre essa a dúvida…) do túmulo onde permanece vivo. https://www.rtp.pt/noticias/mundo/hatay-equipa-da-rtp-testemunha-resgate-de-duas-pessoas_v1466684
Mas se há marcas indiscutíveis que ficam destes momentos de milagre, é a alegria de quem salva, o momento em que homens e mulheres, habituados aos piores cenários, desfazem-se em lágrimas de alegria quando se livram da tensão da incerteza, trocam abraços, batem palmas, por terem salvo uma vida. Muitos viajaram milhares de quilómetros, mas se salvarem uma vida, a viagem valeu a pena.
“Salvar uma vida é maravilhoso”, ouvi a um socorrista, por estes dias, numa reportagem televisiva. Uma frase simples para dizer tudo, mas por vezes também é preciso “deixar alguém para trás”, ou tomar decisões difíceis como, por exemplo, amputar um membro a um sobrevivente porque só assim será possível resgatá-lo dos destroços.
Temos de escolher
O que estes dias nos dizem é que o mundo pode ser melhor e é muito fácil fazer uma escolha: gastar recursos em armas, munições e equipamentos bélicos ou investir no que pode tornar a humanidade mais de acordo com a racionalidade e inteligência que caracterizam o ser humano, fazendo valer a empatia e a solidariedade, em contraponto à crueldade, egoísmo e indiferença, os sinais que os líderes políticos pretensos donos do mundo não se cansam de transmitir.
Pinhal Novo, 29 de Junho de 2026
01h00
jmr
