
À hora a que escrevo, decorre o ultimato feito por Donald Trump para o Irão desbloquear a passagem no Estreito de Ormuz. Refira-se que está bloqueado apenas para os navios de países que o Irão considera inimigos. O Irão já fez saber que a resposta é NÃO. Trump promete levar o inferno a terras persas se o governo iraniano ousar resistir e recusar ajoelhar. Pelo caminho, o presidente norte-americano insultou o Irão utilizando o vernáculo próprio dos rufias: “Abram o fucking (tradução à vontade do leitor) estreito, seus bastardos loucos, ou viverão um inferno. VOCÊS VÃO VER. Rezem a Alá”.
Entre as muitas ameaças feitas por Donald Trump, está a de destruir o Irão “inteiro” e garante que o pode fazer “em quatro horas”. Trump ameaça destruir pontes e centrais eléctricas, infraestruturas civis (o que já está a acontecer) e diz que não se preocupa se isso for considerado crime de guerra. O aliado Israel também continua os ataques e, num sinal do que pode estar para vir, bombardeou o maior complexo petroquímico iraniano.
As ofensas proferidas pelo presidente norte-americano não são esquecidas em culturas onde a honra e a dignidade ainda têm valor. Um valor que Donald Trump desconhece, demonstrando a cada momento que não percebe os motivos do desamor que muitos povos sentem pelos Estados Unidos. Não será surpresa que esse desamor cresça e perdure por várias gerações.
O ultimato dado por Trump termina hoje (07) às 20h00 de Washington, 01h00 de Lisboa (madrugada de terça para quarta-feira). Vamos aguardar.
Enquanto não sabemos o que vai acontecer em função deste ultimato, sabemos que há dois homens que estão a arrasar um país. Donald Trump e Benjamin Netanyahu, de dedo no gatilho, dançam, felizes, à volta da fogueira da guerra. Pensam que são civilizados e enviados por Deus, mas são apenas dois loucos que um dia, se houver justiça, terão de pagar, pelos crimes que estão a cometer. Nesse momento expelirão a acusação do costume: “terroristas”!
Não sou dos que pensam que Donald Trump é um louco sem rumo, desbocado e que anda à deriva. Não, não é! Parte dele será isso mesmo (desbocado, arruaceiro, mal-educado, sem estatura nem perfil para presidente seja do que for), mas segue um plano e um “interesse nacional” bem delineado e seguido à risca, embora por vias tortuosas e abdicando da diplomacia.
Aliado de Donald Trump, Benjamin Netanyahu é o oposto em termos de perfil: raramente se contradiz, manipulador requintado, igualmente supremacista e também com um plano e um “interesse nacional” definidos há décadas. Trump quer o petróleo iraniano; Netanyahu quer um Irão de rastos – quanto mais destruído, melhor – para moldar o Médio Oriente à sua imagem e semelhança.
Se é verdade que estes dois homens têm objectivos diferentes, a guerra serve o interesse de ambos, ficando por saber o que fará Israel se, eventualmente, Estados Unidos e Irão chegarem a um cessar-fogo.
Não há nenhuma surpresa no bom entendimento entre Israel e os Estados Unidos. Têm a mesma génese e lideranças com características muito semelhantes: autocráticas, supremacistas, xenófobas e islamofóbicas.
Se Trump diz que não se importa que o acusem de crimes por atacar infraestruturas civis do Irão, em Israel também não existe essa preocupação. Basta lembramo-nos do que está ainda a acontecer na Faixa de Gaza. Israel é o país em que a extrema-direita – mas não só – usa uma forca na lapela e faz aprovar uma lei em que, na prática, (só) os palestinianos podem ser condenados à morte por alegado “terrorismo”, ao mesmo tempo que os colonos massacram palestinianos na Cisjordânia.
Trump e Netanyahu dançam os dois à volta da mesma fogueira. A fogueira da ignomínia, do desprezo total pela humanidade, a fogueira do racismo e do supremacismo, com um desplante que nem os piores facínoras que a história nos deu a conhecer tiveram tal ousadia.
Se há diabo neste mundo, não tenhamos dúvidas, ele encarnou em Trump e Netanyahu. E tem acólitos, ou pelo menos beneficia de muita cobardia e falta de carácter de líderes que, também eles, nos envergonham.
Era hábito ouvirmos o argumento de que um Irão com armas nucleares, governado por fanáticos religiosos, seria um perigo para o mundo. O que dirão hoje os defensores desse argumento quando sabemos que fanáticos como Trump e Netanyahu lideram dois países com armas nucleares? Onde está, afinal, o perigo? Donald Trump diz que pode destruir o Irão “inteiro” em quatro horas. Vamos ver.
Estarão estes últimos (os acólitos de Trump e Netanyahu) a perguntar: então e sobre o Irão, nem uma palavra?
Sim, se querem saber, eu não quereria viver no Irão, sem a liberdade que tenho como azimute. Mas, o Irão tem todo o direito de se defender porque foi atacado sem ter atacado ninguém. E o povo iraniano sabe muito bem que a guerra desencadeada por Israel e Estados Unidos nunca teve preocupações associadas à liberdade ou à democracia no país.
Pinhal Novo, 7 de Abril de 2026
02h30
jmr
