
Façamos um teste simples: perguntemos a qualquer pessoa o que pensa quando ouve dizer RTP. Não tenhamos dúvidas, pensa em televisão. Quem tiver dúvidas, faça o favor de experimentar. E faz todo o sentido que as pessoas associem RTP à televisão. Desde sempre que RTP significa Radiotelevisão Portuguesa, mesmo que, agora, o algoritmo nos redirecione para Rádio e Televisão de Portugal. Aliás, o pecado original foi mesmo o de juntar duas empresas substancialmente diferentes (RTP e RDP) adoptando para a nova empresa a sigla (RTP) de uma delas (apesar de lhe ser dado um significado diferente), obliterando a outra. Matando-a!
Desde 2004, Rádio e Televisão, vivem sob o tecto da Rádio e Televisão de Portugal. Nas uniões de facto, não havendo papel assinado, há uma vontade comum que dispensa as formalidades, mas, neste caso, o casamento foi forçado e sem livre consentimento. Todos sabemos que foi assim e este é apenas mais um passo que transforma a Rádio num apêndice da Televisão, assumindo esta o estatuto de “cabeça-de-casal”.
Agora, somos confrontados com a mudança dos nomes das rádios. RTP, Antena 1, Antena 2, Antena 3, RDP África, RDP Internacional, são marcas com alma e história. Todas elas. Por isso mesmo, é no seu conjunto que têm um valor inestimável para as pessoas, para o país. Por isso mesmo, o que faria sentido seria o reforço da identidade de cada uma delas, construindo uma diversidade que seria uma mais-valia no conjunto dos serviços que a R.T.P. presta.
Dirão que é isso mesmo que se pretende. Muito bem, então para quê o raio da alteração dos nomes? Qual é a mais-valia concreta proporcionada com a passagem a “RTP Antena 1” ou a “RTP Antena 2”, ou ainda o desaparecimento da RDP Internacional transformada em “RTP Mundo”? Quais são as vantagens que estas alterações proporcionam a não ser gerar confusão e descaracterizar as Rádios?

Para além disso, não há argumento que possa valer à destruição de marcas consolidadas, credíveis e reconhecidas pelos ouvintes. Não há argumento que possa valer a uma mudança de nome e de imagem. As empresas e as marcas alteram a sua designação quando precisam de fazer esquecer um passado associado a uma imagem e/ou um posicionamento negativo, de modo a recuperarem empatia ou quota de mercado. Não é o caso das rádios do serviço público.
Recordo que nos anos 90 do século passado (não sei se 1993 ou 1994) houve uma tentativa (que se concretizou) para alterar o nome das várias rádios do serviço público. Por exemplo, a Antena 1 passou a RDP 1. O argumento era o de que em vários países europeus, utilizava-se uma sigla com apenas três letras – o caso da BBC. Rapidamente retrocederam. Lembro-me bem quando telefonava a alguém dizendo que era da RDP e do outro lado respondiam-me: da RTP? Agora, pelo menos, deixa de existir esse equívoco: é mesmo da RTP.
A rejeição da actual mudança não pode ser confundida com qualquer recusa de evolução ou crescimento, antes pelo contrário. Esta rejeição é de quem está preocupado com o futuro e não por estar preso ao passado.
A Rádio e a Televisão são instituições distintas. Utilizam meios diferentes, têm linguagem própria, têm um “horário nobre” diferente, organizam-se de forma diferente. Até os salários são diferentes.
Quem quer, de facto, fazer evoluir e mudar alguma coisa, devia questionar-se, por exemplo: porque é que a televisão tem um canal de notícias e a rádio não tem, sabendo-se que em situações de crise ou catástrofe (ou guerra…), a rádio chega mais facilmente às pessoas e está menos exposta a cortes de energia, sendo o meio de comunicação mais ágil e de resposta mais rápida e eficaz? Que melhor serviço público se poderia prestar do que falar com as pessoas quando elas mais precisam e quando os outros meios falham? Podem dizer que a Antena 1 já o faz. Sim, mas não é a mesma coisa. Ter um canal de notícias, rodado diariamente – em todas as suas vertentes – e focado na informação, é muito diferente de assumir esse registo esporadicamente e sem situações que, muitas vezes imprevistas, não se compadecem com demora na resposta.
Dizem-nos, nesta mudança, que o objectivo é: “RTP uma. Por todos.” É preciso dizer que sempre foi, desde que em 2004, Rádio e Televisão vivem juntas. Não descortino a necessidade desta afirmação, agora. Estou completamente imune às operações de marketing, fruto de ter passado a vida a lidar com gabinetes e agências de comunicação (sim, sei que marketing e comunicação não é necessariamente a mesma coisa). Conheço o linguajar, respeito os profissionais, mas não me deixo iludir.

Muitas vezes ouvi apelos a que “vestíssemos a camisola”; perdi a conta aos incentivos para que fizéssemos mais com menos; vezes sem conta levei palmadinhas nas costas pelo trabalho feito; não raras vezes ouvi enaltecer o papel da rádio e dos profissionais da rádio em diferentes momentos de crise.
A Rádio da RTP tem uma identidade que não pode ser desprezada nem descartada. Tem décadas acumuladas de trabalho e de construção dessa identidade. Os profissionais da Rádio merecem respeito. Temos orgulho quando seguramos o microfone da Rádio. Temos ALMA! Mesmo com todas as injustiças que lhes foram infligidas, nunca os profissionais da Rádio baixaram os braços e recusaram colaborar na construção da RTP. Mas por muito que nos digam o contrário, nunca deixámos de sentir que somos o parente pobre e o pilar mais frágil da empresa RTP. E é isso que voltamos a sentir, com redobrada intensidade, quando nos tiram o nome. Continuamos com a “camisola vestida”, mas sentimos que nos estão a arrancar a pele.
Dito isto, as empresas (Rádio e Televisão) vivem juntas e não se vislumbra um regresso às origens. Dito de outro modo, mesmo num casamento forçado, é preciso encontrar formas de entendimento. Aliás, as sinergias (das quais sou um acérrimo defensor) podem ser fantásticas, se forem feitas de forma correcta, e a R.T.P. tem todas as condições para o fazer. Não para que um jornalista faça o trabalho de dois ou três, mas para que a Rádio e a Televisão beneficiem do saber e do conhecimento que ambas dispõem. E isso pode ser feito!
Convém dizer que em nenhum momento, o mal-estar provocado pela mudança dos nomes das rádios, deve ser aproveitado para colocar trabalhadores contra trabalhadores. É nossa obrigação não embarcar em qualquer tipo de manobra que vise essa divisão. Trata-se apenas de exigir um tratamento digno para todos e para que o respeito não se fique pela metade.
Desconfio que o caminho, há muito traçado, ainda vai a meio. Os rumores sobre o rumo da Agência Lusa, não devem ser desvalorizados. Afinal, tudo começou quando Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite e Couto dos Santos assinaram o decreto-lei que acabou com a taxa de televisão. Era Janeiro de 1991. Depois acabou-se com a rede de emissores da RTP, que passou a pagar o aluguer da mesma rede à PT. E depois, e depois, e depois… aqui chegámos. Mas isso dava um texto ainda maior e quem aqui chegou já não deve ter paciência para mais.
Viva a Rádio!
NOTA: a utilização do plural não pode ser interpretada como uma apropriação indevida do pensamento de todos os trabalhadores da Rádio, mas tenho a certeza que representa muitos de nós.
Pinhal Novo, 4 de Abril de 2026
03h00
jmr
