
Será bom não acreditarmos em desvarios ou qualquer tipo de errância em Washington. Os Estados Unidos têm uma estratégia bem delineada, um interesse nacional bem definido, e Israel ainda mais, sendo que a Israel não se lhe podem apontar errâncias ou desvarios, havendo apenas diferenças no tom do discurso oficial dos dois países. Em Telavive, de há muito que não se esconde a arrogância com âncora numa alegada supremacia e direito divino, o discurso é cerebral, a semântica é cirúrgica; em Washington navega-se ao sabor da inspiração do momento na hora de falar à porta do avião ou do helicóptero que há-de levar Donald Trump a mais uma tarde de golf, reina a boçalidade renovada a cada momento, ao sabor do instinto. Apesar das diferenças, estes aliados, sabem muito bem o que querem. Não pretendem o mesmo, mas têm objectivos que se complementam e inimigos que é preciso combater e derrotar para atingir esses objectivos.
Em Washington, a mentalidade imperial e a recusa em ceder terreno na hegemonia global exercida pelos Estados Unidos, obriga a tudo fazer para travar a China. Primeiro decapitaram-se os proxys do Irão; agora decapita-se o Irão, “proxy” da China. Pequim é o maior parceiro comercial de Teerão do qual importa grande parte do petróleo que consome e refina para exportação para vários países da Ásia. Cortar-lhe o acesso a petróleo barato (apesar de ainda restar a Rússia com a mesma capacidade de oferta) é fulcral. Para além disso, os Estados Unidos querem concentrar o foco noutras zonas do globo e querem ter controlada a situação no Médio Oriente, para estabilidade dos países árabes “amigos” e de Israel. Depois de conseguirem que a Arábia Saudita e os países do Golfo se aproximassem de Israel, os Estados Unidos querem aniquilar o que consideram ser o único foco de resistência na região, o Irão (por arrasto, o Iémen ficará isolado e sem recursos)
Quanto a Israel, alimenta o discurso da vitimização e da guerra existencial, aproveitando para expandir fronteiras, desenvolvendo a limpeza étnica na Cisjordânia e avançando para a ocupação do sul do Líbano. Os ataques israelitas já destruíram várias pontes no Rio Litani, recuperando a estratégia de 2006, quando os primeiros ataques dessa guerra visaram precisamente as pontes no sul do Líbano e o aeroporto de Beirute.

Na Cisjordânia, é verdadeiramente escandaloso que os colonos israelitas possam continuar impunes face à violência que exercem sobre os palestinianos, sem haver uma acção, uma sanção, uma única ruptura, com o Estado que permite e fomenta a limpeza étnica em curso. É disso que se trata: tornar a vida dos palestinianos impossível de modo a que se sintam forçados a fugir. Todos os dias os colonos israelitas atacam as comunidades palestinianas na Cisjordânia, agredindo, matando, incendiando bens e espalhando o pânico, muitas vezes com apoio ou conivência do exército israelita. O próprio chefe do estado maior das forças israelitas, Eyal Zamir, já considerou que a situação é inadmissível, mas nada foi feito.
A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não se tem cansado de denunciar a situação e, ainda há poucas horas, na apresentação de um relatório, denunciou a “tortura sistemática”, politicamente defendida e normalizada por responsáveis políticos israelitas, a que os palestinianos estão sujeitos, recomendando que seja feita uma investigação a Itamar Ben-Gvir (Ministro da Segurança Nacional), Bezalel Smotrich (Ministro das Finanças) e Israel Katz (Ministro da Defesa) para serem levados à justiça se a investigação encontrar indícios de crimes. Albanese disse: “Os testemunhos que eu mesma e muitos outros recolheram, não são apenas relatos trágicos de sofrimento: constituem a prova de crimes atrozes contra todo o povo palestiniano, em todo o território ocupado”. Desde 7 de Outubro de 2023, segundo a Agência France Press, 1 050 palestinianos morreram, vítimas dos colonos e do exército israelita; segundo dados oficias israelitas, morreram 45 israelitas (soldados e civis), no mesmo período.
Na Faixa de Gaza, Israel controla 53% do pequeno território, dividido por uma chamada “linha do armistício”, em que o restante está sob controlo palestiniano. O ministro israelita, Bezalel Smotrich, já apelou à anexação dos 53% de território controlados por Israel. O mesmo ministro que pretende expandir a fronteira norte de Israel até ao Rio Litani, cerca de 30 quilómetros no interior do Líbano, conforme disse a uma rádio israelita: “Digo-o aqui, definitivamente, em qualquer lugar ou debate, a nova fronteira de Israel deve ser o Litani”. E não é o único. O Ministro da Defesa admitiu recentemente que o Líbano pode enfrentar “perda de território” se não desarmar o Hezbollah. O gabinete do primeiro-ministro não se pronuncia.
No que à Europa diz respeito, a única preocupação parece ser o preço do petróleo devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz. Aliás, alguns países já se disponibilizam para “ajudar” a libertar o Estreito, Portugal incluído, esquecendo que os únicos responsáveis por esta guerra são os Estados Unidos e Israel.
Entretanto, o sobe-e-desce do preço do petróleo certamente está a fazer enriquecer (ainda mais) a corte que rodeia Trump e que tem óbvias ligações a Israel. A indústria de armamento norte-americana esfrega as mãos com os lucros proporcionados pelas bombas que matam no Médio Oriente e com as que a Europa paga para alimentar a defesa da Ucrânia, sendo conveniente para este séquito que Putin e Zelensky atrasem o mais possível um encontro à mesa das negociações.
Benjamin Netanyahu mata líderes do Hamas, do Hezbollah e do Irão e prepara-se para, mais uma vez, invadir e ocupar o Líbano.
Donald Trump – não percebe o ridículo – dá-se ao luxo de dizer que quer(ia) ter uma palavra a dizer sobre o sucessor de Ali Khamenei, dizendo também que não aceita Al Maliki para (voltar a ser) primeiro-ministro do Iraque. Acham-se os donos do mundo.
Em cima da mesa, diz-se, está um plano de 15 pontos transmitido ao Irão para que a guerra termine. Ninguém sabe muito bem do que se trata. Até porque Trump já disse que ganhou a guerra e que todo o potencial militar do Irão foi destruído, tal como os principais líderes. À hora a que escrevo, o preço do petróleo acaba de cair 6%. São uns malandros, dos maus!
Pinhal Novo, 25 de Março de 2026
02h00
jmr
