
Farah Pahlavi, viúva do Xá do Irão, quase a fazer 88 anos (20 de Março), parece ser a única pessoa ajuizada entre a corte de entusiastas da mudança de regime no Irão. Talvez a idade e a distância do exílio, em Paris, sejam fontes de distanciamento e lucidez. A antiga Imperatriz tem, pelo menos, um assomo de lucidez em relação ao presente, algo mais difícil de esperar em relação ao passado e à ditadura (1961-1979) quando foi “Imperatriz da Pérsia” (ou Xabanu – esposa do Xá). Nesse tempo, os iranianos opositores do Xá Mohammad Reza Pahlavi foram violentamente perseguidos, torturados e executados, pela Savak, a tenebrosa polícia secreta iraniana, criada com a ajuda da CIA, a mesma CIA que criou as condições para o Xá chegar ao poder e que deu agora a informação que permitiu os bombardeamentos que assassinaram o Ayatola Ali Khamenei.
Disso, desse tempo, Farah Pahlavi terá certamente memória mas neste momento prefere dizer que o filho, Reza Pahlavi (a viver nos Estados Unidos), está a preparar uma transição para um Estado de Direito, feita de forma pacífica e ordeira. A antiga Imperatriz também deve saber que os iranianos têm memória e sabem muito bem o que foi a ditadura do Xá Mohammad Reza Pahlevi, não sendo evidente que queiram de volta alguém de uma família real que reinou em tempos tão sombrios, apesar da imagem de aparente ocidentalização da sociedade e de uma obscena ostentação de riqueza.
Mas, para além de tudo isso, o tal momento de lucidez não é despiciente: “O futuro do Irão não deve ser decidido no exterior das suas fronteiras. As potências estrangeiras têm os seus interesses, o povo iraniano tem o seu destino”, disse Farah Pahlavi. No momento em que o Irão está confrontado com uma guerra, tendo como inimigos Estados Unidos e Israel, dizer algo assim não é de somenos e, convenhamos, é uma linda frase.
Farah Pahlavi sabe muito bem que a democracia e a liberdade do povo iraniano é a última das preocupações de líderes como Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Eles querem as riquezas do Irão e o ajoelhar do país a esse plano do “Novo Médio Oriente”, dirigido a partir de Telavive, sempre com o apoio militar dos Estados Unidos e de olhos postos nas Bolsas de Valores.
Não é possível saber se Farah Pahlavi, ao dizer que o destino dos iranianos não pode ser decidido por potências estrangeiras, não estará apenas a tentar criar um capital de simpatia que favoreça a chegada do filho ao poder. Mas esse é o ponto em que terão de ser os iranianos a decidir.
Outro momento de grande lucidez é o de admitir que o assassinato do Guia Supremo, Ali Khamenei, é um momento grave e de significado histórico, mas alerta que o desaparecimento de um homem central na arquitectura do poder, não significa o fim automático do sistema de poder iraniano. Farah Pahlavi pede aos governantes iranianos que tenham contenção e evitem o derramamento de sangue porque isso apenas agravará a fractura da sociedade e retardará a reconciliação nacional.
A antiga Imperatriz acredita que a vontade e a capacidade do povo iraniano serão decisivas para alterar o regime e por isso pede à comunidade internacional que apoie os iranianos para que possam escolher livremente os seus dirigentes e possam viver com dignidade. Um apoio que, diz Farah Pahlavi, deverá ser dado ao povo e sem cálculos geopolíticos.
Não é por acaso que em Teerão se grita “morte à América” e “morte a Israel”. Há um histórico que leva muitos iranianos a olharem para Estados Unidos e Israel como duas faces da mesma moeda. Há também um forte peso da religião, há muitos iranianos que querem uma vida livre das amarras religiosas, querem escolher quem os governa. E há ainda minorias étnicas que pretendem ter autonomia. Nada disto é estanque e tudo isto pode entrar em confronto se o regime se desmoronar.
Resta saber o que pensaria o Xá se ainda fosse vivo (morreu no Cairo, em 1980), depois de ter tratado os iranianos com mão de ferro, de forma muito diferente daquela que, agora, Farah Pahlavi pretende, ao defender que o povo deve ter liberdade e viver com dignidade.
Pinhal Novo, 3 de Março de 2026
20h30
jmr
