À espera da Síria (II)

Praça Yusuf al-Azma Square (herói sírio da guerra contra a presença francesa em 1920), Damasco. Foto: jmr/arquivo 19 de Dezembro de 2024.

Não faltará quem queira, no círculo próximo do presidente interino da Síria, Ahmed Al Sharaa, construir um regime autoritário. Não seria um caminho inédito nas transições de poder no Médio Oriente, mas o autoritarismo e a subjugação das minorias será, provavelmente, o caminho para manter a Síria como palco de conflitos violentos, da lei do mais forte e de terra queimada para quem quer um futuro. Depois de uma longa ditadura e de uma terrível guerra civil, os sírios merecem melhor.

Ahmed Al Sharaa está perante uma tarefa hercúlea que se traduz em reconstruir um país a partir do zero, reconciliar os sírios e criar linhas de política externa. Precisa de recursos e para ter recursos precisa de aliados. A maior dificuldade está na escolha desses aliados e até agora tem sido perceptível a preocupação de não colocar todos os ovos no mesmo cesto: Al Sharaa foi a Riad (primeira visita oficial), Washington, Moscovo, Paris, Bruxelas, países do Golfo, Ancara e não foi a Pequim mas enviou o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Em Damasco sucederam-se as visitas de representantes estrangeiros logo que assentou a poeira levantada pela entrada dos rebeldes na capital e a fuga do então presidente Bashar Al Assad. Veio depois o levantamento de sanções e as promessas de investimento. As embaixadas reabriram. O problema vai surgir quando alguns aliados fizerem depender os seus apoios da exclusão de outros aliados. Al Sharaa vai ter de escolher e terá de tentar evitar a instrumentalização. Não será fácil.

Para já, à espera de melhores dias, está a relação com o Irão e com o Iraque. Ao contrário da Rússia, que também apoiava Bashar Al Assad, e com quem a relação já foi retomada, Al Sharaa ainda não deu nenhum passo de aproximação aos dois países de maioria xiita. O Irão projectava poder no Médio Oriente através da Síria de Bashar Al Assad e vai tentar reduzir ao máximo essa perda de influência sendo que Al Sharaa sabe que Estados Unidos e Israel não vão gostar de uma eventual reaproximação entre a Síria e o Irão; com o Iraque, ainda a tentar forma um governo após as eleições legislativas em Novembro de 2025, a relação está confinada a contactos sobre segurança e controlo de fronteiras para combater a organização Estado Islâmico (oEI).

“A questão curda”

Se os apoios externos à reconstrução da Síria são indispensáveis, não menos importante é conseguir uma arquitectura política interna que acomode todas as minorias e construa uma relação entre iguais, na qual a religião e a etnia não sejam factores diferenciadores. Para isso é preciso atender às exigências de cada um dos grupos que constituem a Síria e garantir que todos têm direitos iguais sem distinção de género, etnia ou religião. Negociar, com cedências de todos os envolvidos, é a chave.

A “questão curda” é a que se afigura mais complicada. Os curdos há muito que conquistaram autonomia. A janela de oportunidade surgiu com a revolta de 2011 que degenerou em guerra civil e com a presença da organização Estado Islâmico. Os curdos, na Síria e também no Iraque, foram a primeira força de combate contra a presença fundamentalista. Na Síria, as forças do regime fustigadas pelas diferentes milícias e oEI abandonaram grande parte do país, ficaram os curdos; no Iraque, enquanto o exército iraquiano fugia do avanço da oEI, foram os peshmerga que travaram as forças do califado de Abu Bakr Al Bagdad.

Funeral de um combatente curdo das Unidades de Protecção Popular (YPG), em Kobani. Foto: jmr/arquivo 29 de Outubro de 2015.

Na Síria, as YPG (Unidades de Protecção Popular) curdas pagaram um preço elevadíssimo nesse combate contra a oEI. Com esse lastro de luta e sacrifício construíram a Administração Autónoma do Norte e Leste da Síria, assente em democracia de base e espírito comunitário, algo muito diferente do sistema dos curdos iraquianos.

Federalismo?

Depois de décadas de opressão, ninguém pode ficar admirado se os curdos da Síria quiserem manter o que tanto custou a conquistar. E é isso que as lideranças curdas de Rojava dão a entender: querem continuar sírios, mas querem autonomia, e isso não é impossível. O Iraque é o exemplo de que é possível. Desde 2005 que a Constituição iraquiana reconhece a autonomia curda.

O problema na Síria é que o presidente interino Ahmed Al Sharaa não admite a possibilidade de federalismo. É certo que poderia enfrentar reivindicações semelhantes noutras regiões sírias, caso dos drusos ou dos alauitas, mas convenhamos que são questões substancialmente diferentes.

E a Europa?

A independência do Curdistão é uma questão há muito abandonada pelas lideranças políticas curdas. O líder do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), Abdullah Öcalan, determinou recentemente o desarmamento do partido e há muito que deixou cair o projecto de independência curda passando a defender a autonomia política e direitos culturais nos Estados onde vivem os mais de 30 milhões de curdos (não existem dados fiáveis).

A partir da prisão, Öcalan alerta para os perigos que a região enfrenta: o domínio israelita da região não será feito com a ajuda dos curdos https://www.middleeasteye.net/news/pkks-ocalan-no-israeli-dominance-through-kurds . Öcalan parece ter aprendido a lição e revela receio que Israel possa fomentar a divisão da Síria provocando aquilo que Öcalan define como a “gazi-ização” (uma alusão à catástrofe de Gaza), lembrando uma promessa com 30 anos: “Durante três décadas, Israel prometeu-nos, secretamente, um Estado”. O líder do PKK pensa ter descodificado a estratégia israelita e considera que será capaz de impedir que Israel se torne uma potência hegemónica no Médio Oriente: “Quem conseguir aliar-se aos curdos ganhará o domínio no Médio Oriente”, admitindo que “Eles – os israelitas – perceberam isso antes de mim”.

Se a Europa ainda quer ser esse farol de liberdade que tem os Direitos Humanos como azimute, a sua acção na Síria terá de ser em apoio dos curdos. A Administração Autónoma do Norte e Leste da Síria é o exemplo de uma experiência democrática diferente de tudo o que há na região, assente na defesa do ambiente, nos direitos das mulheres, no respeito pelas minorias, sem peso da religião no poder político e que assenta num sistema de “confederalismo democrático” em que a Nação pode existir sem coincidir, territorialmente, com o Estado. Talvez a Europa tenha dificuldade em entender a organização e os princípios curdos.

Ver igualmente https://meumundominhaaldeia.com/2026/01/14/a-espera-da-siria-i/

Pinhal Novo, 14 de Janeiro de 2026

24h00

jmr

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