
Na noite de domingo, o presidente norte-americano anunciou que tinha enviado uma proposta ao Hamas para se chegar a um acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza e que Israel tinha aceitado os termos da proposta. É a última oportunidade, sublinhou Donald Trump.
O Hamas acusou a recepção da proposta, que designou por “algumas ideias norte-americanas”. Respondeu em comunicado dizendo estar pronto a sentar-se imediatamente à mesa das negociações e apontando as condições que pretende: uma declaração clara de que a guerra termina, retirada completa das forças israelitas da Faixa de Gaza e a formação de um governo palestiniano composto por independentes para governar Gaza.
Só algumas horas depois se ficou a conhecer o conteúdo da proposta de Trump, em cinco pontos: Todos os reféns, vivos e mortos, têm de ser libertados no prazo de 48 horas após a assinatura do acordo; em “números consistentes com as libertações anteriores”, os prisioneiros palestinianos condenados a prisão perpétua e os detidos de Gaza serão libertados no mesmo prazo; um cessar-fogo entrará em vigor após a implementação (do acordo), por um período de 60 dias ou até à conclusão das negociações. O presidente Trump assegurará que as partes negoceiam de boa-fé até que um acordo seja alcançado; as questões a negociar incluem a definição do Hamas, a definição do desarmamento, a formação de um novo governo, a retirada das forças israelitas após a formação do governo ou após a conclusão bem-sucedida das negociações, e a amnistia para os membros do Hamas; fluxo aberto de ajuda humanitária para Gaza após a implementação do acordo.
É isto que está em cima da mesa. Em termos mais simples, é uma proposta de troca de reféns/prisioneiros, sem qualquer garantia de que a guerra termina e de que o exército israelita retira do território palestiniano. Ou seja, Donald Trump propõe que o Hamas abdique da única “arma” que tem nas negociações: os reféns.
O Hamas diz que parece uma proposta escrita por Israel e que recebeu o documento através dos mediadores. Não se sabe quem redigiu o texto, por vezes confuso e pouco detalhado. Por exemplo, não se sabe o que significa “definição do Hamas”. É um papel que não tem selos, carimbos ou assinaturas e também não tem uma data.
Citado pelo dropsitenews.com, o analista israelita Amit Segal, próximo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, disse: “Esta não é uma proposta norte-americana, mas israelita, embrulhada em celofane elegante e rotulada como ‘Fabricado nos EUA’”, acrescentando que “os planos de Trump são um pouco como os produtos da Apple: os iPhones são fabricados na China e depois enviados para os EUA, onde são embalados e carimbados com ‘Fabricado nos EUA’”.
O Hamas já aceitou uma proposta anterior, mas Israel ignorou-a
Do que não se fala é da anterior proposta de acordo que o Hamas aceitou a 18 de Agosto, em relação à qual Israel nada disse e os Estados Unidos deixaram cair. Talvez por isso, o Hamas desconfia do que está agora em cima da mesa. O Movimento palestiniano acusa os Estados Unidos (Steve Witkoff, enviado especial de Trump e o próprio Trump) de faltarem a todas as promessas feitas anteriormente.
O dropsitenews.com lembra que durante meses, Trump e Netanyahu exigiram que o Hamas concordasse com a proposta de Witkoff, que resultaria na libertação de dez dos vinte reféns vivos. Em 18 de agosto, o Hamas concordou formalmente com a proposta, apesar de ter profundas reservas quanto à vontade dos Estados Unidos em aplicá-lo e da alta probabilidade de Israel retomar o genocídio após garantir a libertação dos prisioneiros israelenses. O Hamas, para aceitar este acordo fez várias cedências: aceitou reduzir o número de palestinianos que seriam libertados; abandonou a exigência de uma retirada clara e definida das forças israelitas do corredor Filadélfia (fronteira com o Egipto) e aceitou que em toda a fronteira da Faixa de Gaza com Israel, houvesse uma maior área ocupada pelo exército israelita. Os mediadores regionais disseram que o Hamas aceitou 98% do que Israel e os EUA haviam exigido. Depois disso Israel não respondeu e os Estados Unidos passaram a ignorar o assunto.
Negociação ou rendição?
A retórica israelita dá todos os indícios de que o governo de Israel não pretende acabar com a guerra, continuando a fazer ameaças e aumentando a intensidade dos ataques ao território palestiniano. Esta segunda-feira, Israel Katz, ministro da defesa de Israel, disse que os bombardeamentos a Gaza iriam aumentar de intensidade: “libertem os reféns e deponham as armas ou Gaza será destruída e vocês serão aniquilados”. Quanto a Benjamin Netanyahu recusa-se a acabar com a guerra sem conseguir os objetivos que anunciou desde o início: Hamas erradicado de Gaza, reféns libertados, controlo de segurança do território nas mãos do exército israelita e um governo da confiança de Israel.

Para além disto, é preciso ter em conta as declarações de ministros da extrema-direita que têm apelado abertamente à expulsão dos palestinianos e ao regresso dos colonos à Faixa de Gaza, consumando a anexação do território, o que também querem fazer na Cisjordânia.
Ainda esta segunda-feira (8 de Setembro) após um ataque, em Jerusalém, que matou 6 israelitas, Benjamin Netanyahu, foi muito claro: “Em dois dias, destruímos 50 torres terroristas, e este é apenas o início da intensificação das operações terrestres na Cidade de Gaza. Digo aos residentes: foram avisados, saiam já!”.
Perante tudo isto, há uma pergunta que resume toda a questão: como vai o Hamas abdicar da única vantagem que tem na mesa das negociações (os reféns) e acreditar que após a libertação vai mesmo haver negociações de “boa-fé” para chegar a acordo em matérias como o futuro do Hamas, a governação de Gaza, a retirada do exército israelita e a entrada de ajuda humanitária?
Negociações sempre implicaram cedências das partes envolvidas. Exigir que uma das partes ceda tudo e que a outra parte fique numa posição de vantagem absoluta, não é querer negociar, é exigir a rendição. Colocar no Hamas o ónus de não haver um acordo de cessar-fogo, perante o que está em cima da mesa, é mais do que perverso.
As coisas não funcionam como Donald Trump pretende, particularmente no Médio Oriente. O presidente norte-americano está farto de fazer avisos e ameaças mas, até agora, pouco ou nenhum efeito tiveram no Hamas. Sabemos que Trump e Netanyahu podem, se quiserem, arrasar Gaza em poucos minutos, mas se querem negociar também vão ter de ceder. Não é o Hamas que não quer um cessar-fogo!
Pinhal Novo, 9 de Setembro de 2025
00h30
jmr
