Parece que alguém está a precisar de uma guerra

Retratos da guerra, próximo de Debaltsev, região de Donetsk, Donbass, zona dominada por separatistas. Foto: arquivo jmr/Fevereiro 2015

Um porta-voz das Forças Armadas polacas assinalou ao final da tarde de sábado (05.02) a chegada à Polónia de militares norte-americanos da 82ª brigada aero-transportada, informação confirmada em comunicado do comandante da referida brigada. Este é apenas o último dado conhecido da escalada entre a Ucrânia e a Rússia, traduzida em movimentações militares que, segundo algumas opiniões, são prenúncio de uma guerra no leste da Europa.

Enquanto a Rússia concentra forças militares junto à fronteira com a Ucrânia e na Bielorrússia, a NATO reforça a presença nos países bálticos, Polónia e Roménia. Do lado da NATO e dos Estados Unidos já se disse abertamente que a Rússia prepara a invasão da Ucrânia; a Rússia diz que não tem qualquer intenção de invadir e foi até o Presidente ucraniano que tentou acalmar a excitação dos que quase já ouviam os primeiros tiros, dizendo que a situação não é melhor nem pior do que nos anos mais recentes.

Os “tambores de guerra” ecoam ao mesmo tempo que o “ballet diplomático” – gosto da expressão – desenvolve cenografias cujos resultados são difíceis de entender. Evidentemente que mesmo sem nos deixarem sentar à mesa dessas conversas e sem nada nos contarem, é muito melhor estarem dedicados a esse ballet do que a apertar um qualquer gatilho que devolva a Europa à desgraça que pensávamos já não poder regressar.

No entanto, é fastidioso tomar nota do que sai desses encontros, telefonemas e vídeo-conferências. De alguma coisa falarão, certamente, mas nós não sabemos. Expressam no final manifestações de boa-vontade, compromisso com o diálogo e com documentos anteriormente assinados, defendem um cessar-fogo que, diga-se, quase nunca existiu desde 2014 – tal como os acordos de Minsk só pontualmente terão sido cumpridos – e pouco mais. A única coisa que se sabe, após cada um dos “encontros”, é que todos querem continuar a dialogar e todos estão empenhados em manter a paz. Ainda bem, mas falta mandar os militares de regresso aos quartéis.

O problema é que até o diálogo não é fácil. Rússia, Estados Unidos e NATO, estão de costas voltadas depois de uma troca de correspondência, tendo ficado evidente a quase impossibilidade de conciliar as exigências de uns e de outros. Rússia e Ucrânia apenas se sentam à mesa no chamado formato Normandia que junta estes dois países, Alemanha e França. A Ucrânia recusa-se a negociar com os separatistas do Donbass (que controlam Lugansk e Donetsk). A União Europeia está completamente fora de jogo – Lavrov, MNE russo, disse que é tarde para envolver a União Europeia – e, num momento em que reivindica unidade e coordenação face à Rússia, sofreu o revés de ver Viktor Orbán, Primeiro-ministro da Hungria, ir a Moscovo ser recebido por Putin de quem obteve a garantia de que não terá problemas com o fornecimento de gás à Hungria, o que poderá não acontecer com outros países europeus – disse Putin. Sendo certo que a França tem actualmente a presidência do Conselho da União Europeia, em termos práticos, neste conflito Ucrânia/Rússia, a UE “entregou” a representação dos 27 ao Presidente francês (que vai a Moscovo e Kiev nos próximos dias) e ao Chanceler alemão (que fará as mesmas viagens uma semana depois). E é assim que estamos. No meio desta confusão vale o facto de haver eleições presidenciais em França, já em Abril, e no caso de Macron conseguir desbloquear esta situação, muito provavelmente terá reconhecimento expresso em votos.

A juntar a todas estas dificuldades, os dois países europeus que lideram o diálogo têm interesses paralelos a discutir com a Rússia: a Alemanha precisa, e muito, do gás que lhe chega da Rússia; a França tem o problema do Mali (e do Sahel) onde a empresa russa de segurança privada Wagner está a conquistar terreno e simpatias nas lideranças locais e onde a França está com muitas dificuldades para manter a presença militar. Dificilmente estes assuntos deixarão de ser falados quando Emmanuel Macron e Olaf Scholz forem recebidos no Kremlin.

Não se tratando de aprovar ou não as políticas da Rússia, não deixa de ser fantástico observar como Vladimir Putin fechou a tenaz: influencia os países vizinhos do Cáspio, mantém boas relações com o Irão, tem influência no Médio Oriente e expande a presença em África. Como se não bastasse, Putin e Xi Jinping encontraram-se na sexta-feira, demonstrando que Rússia e a China estão num momento de excelentes relações.

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