Afeganistão, burcas e papoilas

Mulheres de burca, em Cabul, verão de 2009 (à esquerda); jovem toxicodependente num edifício abandonado, em Cabul, verão de 2009 (à direita). Fotos: arquivo jmr

Não tenho qualquer simpatia pelo sistema que os Taliban dizem querer construir no Afeganistão e tenho linhas vermelhas bem estabelecidas quanto a regimes políticos: os Direitos Humanos são inegociáveis e a pena de morte é inaceitável! O “statement” está feito!

Quanto ao momento do Afeganistão e ao poder Taliban, sabemos o que aconteceu em 1996-2001. Em rigor, não sabemos como vai ser desta vez, mas é avisado pensar que não será muito diferente. E se assim for, é uma forma de governação e de organização da sociedade que despreza os Direitos Humanos.

Mas – e este é um “mas” que não desculpa coisa nenhuma nem pretende suavizar seja o que for – não é com o regresso dos Taliban ao poder que tudo vai mudar no Afeganistão ou, por outras palavras, nem tudo estava bem e agora passa a estar mal.

Os Taliban regressam ao poder por variadíssimas razões: são a maior etnia, estão minimamente organizados, política e militarmente, conseguem apoios importantes por motivos religiosos e políticos, captam algum apoio popular de um povo farto de uma elite corrupta alimentada pelas forças invasoras e em particular pelos Estados Unidos, beneficiam da inépcia dos invasores e da revolta provocada pela acção de drones assassinos produtores insaciáveis de “danos colaterais”. Para além disso, tiveram 20 anos para construir uma organização eficaz que aprendeu a fazer diplomacia. Sim, para além das imagens de combatentes com Kalashnikov (e muitas outras se repararem bem nas imagens), de cabelos desgrenhados e “roupas estranhas”, que têm preenchido as notícias nos últimos dias, os Taliban têm feito muita diplomacia. Diplomacia directa em múltiplos encontros em capitais de potências internacionais e diplomacia nas redes sociais – propaganda, se preferirem, como afinal todos fazem. Os Taliban tiveram tempo para perceber que a comunicação não pode restringir-se à Mesquita e à Shura. E até já dão conferências de imprensa em que respondem a perguntas feitas por uma mulher.

Em quem confiar?

Em bom rigor, para já, sabemos pouco do que se está a passar no Afeganistão. Temos as imagens do desespero no aeroporto, vídeos colocados nas redes sociais e informação que faz temer o pior. Mas é preciso saber o que está a acontecer fora de Cabul, nas aldeias afastadas dos holofotes, nas universidades, nos locais onde – diga-se em abono da verdade – os afegãos tiveram alguma liberdade nos últimos anos e agora receiam um retrocesso. Precisamos de rigor e factos concretos. Esta cautela surge depois de termos sido enganados sucessivamente durante 20 anos com a propaganda de uma guerra contra o terrorismo – seja lá isso o que for – e estejamos ainda agora a assistir a má propaganda. Um exemplo: no discurso após os Taliban tomarem Cabul, o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, disse que o Afeganistão nunca foi uma questão ou um projecto de “nation-building” (construção de um Estado, instituições…), o que simplesmente não é verdade. No Verão de 2008, citada em https://www.cairn.info/revue-politique-americaine-2008-3-page-73.htm sobre o Iraque e o Afeganistão, a então Secretária de Estado Condoleezza Rice disse exactamente o contrário: “É absolutamente claro que os Estados Unidos vão estar envolvidos em “nation-building” nos próximos anos. A construção de um Estado democrático é agora um componente urgente de nosso interesse nacional”. Uma declaração aliás em consonância com o pensamento do Presidente George W. Bush, apesar de ainda não pensar assim aquando da campanha em que chegou à presidência.

E esta não é a única falsidade. A outra, nem se fala dela, porque se se falasse, então o que está a acontecer teria contornos ainda mais difíceis de explicar: é que a saída das tropas norte-americanas do Afeganistão foi inicialmente marcada (de papel assinado) para Maio de 2021, e foi depois adiada para Agosto. Isto é: houve mais três meses para prever e planear. E nem assim foi possível evitar o desastre.

As guerras que afinal não terminaram

Convém também recordar que os Estados Unidos são useiros em falhar a análise das guerras em que se envolvem. Lembramo-nos bem de ver George W. Bush, a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln, em 1 de Maio de 2003, a reivindicar uma vitória “na guerra contra o terrorismo” e a dar por terminadas “as principais operações de combate no Iraque”. Sabemos todos o que aconteceu.

No Afeganistão, foi mais ou menos o mesmo. Em Dezembro de 2014, uma cerimónia no quartel-general da NATO, em Cabul, marcou o “encerramento das operações militares” no Afeganistão. Barack Obama disse que era um marco para os Estados Unidos e que o país estava agora mais seguro e mais protegido. Sabemos todos o que aconteceu – está a acontecer – no Afeganistão.

Tudo isto para dizer que, apesar de ser compreensível – por tudo o que se passou entre 1996 e 2001 – a desconfiança em relação às promessas dos Taliban, a comunicação do outro lado também nos tem enganado. E não tem sido pouco.

Dois exemplos: burcas e papoilas.

Nos aspectos positivos que resultaram do afastamento dos Taliban em 2001, contam-se os direitos das mulheres. Quase todos. Do acesso à educação, à participação na vida política; a mortalidade infantil caiu; as mulheres passaram a poder trabalhar; a taxa de fecundidade adolescente caiu, tal como o casamento infantil apesar de continuarem os casamentos forçados. São exemplos e sinais de esperança que provocam a ilusão de que tudo estava bem, ou a ir bem, mas que acabam por esconder uma realidade bem mais pesada. Não, no Afeganistão para além de algumas ilhas de mudança em Cabul e mais meia-dúzia de zonas urbanas, o resto do país pouco mudou. E mesmo em Cabul, as burcas sempre marcaram a paisagem (foto).

O cultivo da papoila é outra ilusão. É frequente a acusação de que os Taliban são financiados pelo cultivo da papoila do ópio. Provavelmente daí virá algum financiamento, mas também é verdade que em 2001, quando os Taliban foram afastados do poder, a produção tinha caído brutalmente. São as Nações Unidas quem o afirma (https://www.unodc.org/pdf/publications/report_2001-10-16_1.pdf). Este relatório da “United Nations International Drug Programme” denominado “Annual Opium Poppy Survey 2001” diz uma coisa muito simples: “Em termos nacionais, a pesquisa estima que existam 7.606 hectares de papoila cultivados na temporada de 2001. Isto representa uma redução de 91% da área total de cultivo de papoila em comparação com o ano passado”. E este Programa da ONU conclui o seguinte: “o principal motivo desta redução foi a proibição imposta ao cultivo da papoila do ópio nas áreas controladas pelos Taliban”!

São apenas dois exemplos para melhor compreendermos o que se passa e passou, no Afeganistão, e para melhor descodificarmos alguma da informação que é posta a circular.

One thought on “Afeganistão, burcas e papoilas

  1. Excelente texto. Deixe-me acrescentar que, actualmente, após 20 anos de ocupação norte-americana, a produção de papoila voltou aos níveis de antigamente (antes dos Taliban) e o Afeganistão tornou-se a origem de 80% do mercado mundial de heroína e derivados. Não imagino de que modo é que a CIA e os nation builders privados largam este negócio. Suspeito que os acordos estabelecidos com os Taliban (ainda durante a presidência Trump) devem ter assegurado alguns privilégios pós-ocupação. Possivelmente pagar-se-à uma renda aos novos senhores.

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