Síria: se isto não é uma catástrofe…

Imaginemos, os que vivem em paz e segurança, o que fizemos durante os últimos 10 anos da nossa vida. Imaginemos agora que esses 10 anos tinham sido passados numa guerra violentíssima: morte, hospitais bombardeados, escolas destruídas, fome, famílias amputadas, pessoas em fuga, crianças que não brincam, jovens sem futuro. A vida suspensa e a Síria a decompor-se. E não há paz à vista. Mais 10 anos de guerra? Quem disser que não, deve pensar que há 10 anos ninguém arriscaria dizer que em 2021 a guerra ainda continuava.

No plano humanitário, o impacto da guerra na Síria é catastrófico: mais de 387.000 mortos, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) e entre estes 227.000 são civis, segundo a Rede Síria para os Direitos Humanos. Estima-se que mais de metade da população fugiu do país ou foi forçada a deixar o local onde vivia: a ONU dá conta de 6,7 milhões de deslocados internos e de 5,6 milhões de refugiados.

O OSDH dá também conta de 100.000 prisioneiros torturados e mortos nas prisões do regime sírio, onde estão outros 100.000. Há também 200.000 pessoas das quais se perdeu o rasto: desaparecidas!

A agência da ONU para as questões humanitárias adianta que, neste momento, vivem na Síria um pouco mais de 20 milhões de pessoas, das quais 13,4 milhões precisam de ajuda humanitária e 12,4 milhões vivem em insegurança alimentar (incerteza ou sem acesso a alimentos) e mais de 60% das crianças correm o risco de passar fome (segundo a ONG Save the Children). A ONU refere que o preço dos alimentos é 33 vezes mais elevado do que a média dos cinco anos anteriores à guerra e o preço (subsidiado) do pão é seis vezes mais caro do que em 2011. Em 10 anos de guerra, a lira síria desvalorizou 98%.

Escolas, hospitais e cultura

A ONU refere ainda que um terço das escolas foi destruído ou está a ser utilizado por combatentes, com a UNICEF a denunciar que mais de 2,4 milhões de crianças estão a perder a escolaridade.

Apenas 58% dos hospitais estão totalmente operacionais. Problema acrescido: 70% do pessoal médico fugiu do país.

A rede eléctrica está reduzida a cerca de um terço.

Em terra de civilizações milenares, regista-se também o que a Agência France Press designa por “apocalipse cultural”, devido ao bombardeamento de sítios arqueológicos e à pilhagem dos museus.

Os números desta guerra são tão horríveis que quase nos fazem esquecer que representam vidas: muitas vidas perdidas e muitas outras que se estão a perder.

Idlib

No terreno, ainda com presença de células do Estado Islâmico, com a presença da Turquia em terra síria e com os Curdos a reivindicarem auto-governo, o Presidente Bashar al Assad continua firme no poder. Com o apoio do Irão e da Rússia, Assad tem agora um grande problema para resolver: Idlib, o último grande bastião de grupos rebeldes e de outros de génese religiosa, representa actualmente cerca de 3.000 quilómetros quadrados. Quase 3 milhões de pessoas vivem nesta província. A maioria chegou a Idlib depois de viverem noutras zonas rebeldes entretanto reconquistadas por Assad. Um terço vive em campos informais de refugiados.

Não se sabe o que vai acontecer em Idlib. Poderá haver um ataque do regime que muito provavelmente provocará uma nova catástrofe dentro da que já existe, mas também é possível que a situação em Idlib seja mantida no que alguém já definiu como uma nova Faixa de Gaza”, numa alusão ao território palestiniano, cercado por todos os lados e que é, na prática, uma prisão ao ar livre.

10 anos depois de um grupo de jovens ter inscrito num muro frases que apenas pediam liberdade, a Síria merecia melhor sorte, e a chamada comunidade internacional bem pode morrer de vergonha.

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