Papa Francisco no Iraque: uma visita de alto risco

Cartaz de boas-vindas ao Papa Francisco, em Bagdad. Foto: Vaticannews

A visita histórica do Papa ao Iraque, decorre num momento de elevada tensão política e com marcas fortes de violência. Para além dos problemas da pandemia, não é difícil imaginar as “dores de cabeça” de quem tem de garantir a segurança do Papa Francisco, num país com as características do Iraque.

Nas últimas horas, uma salva de morteiros atingiu a base aérea de Al-Assad (com militares norte-americanos e outros),160 km a Oeste de Bagdad, a mesma base que foi atingida quando o Irão respondeu ao assassinato do general iraniano Qassem Soleimani.

Este foi apenas o último sinal da instabilidade de um país que assiste com frequência a ataques à embaixada dos Estados Unidos em Bagdad, situada na chamada “zona verde”, fortemente protegida e onde estão as instituições do Estado e as representações diplomáticas. É na capital que o Papa vai passar todas as noites, voando de Bagdad para os locais que vai visitar. Também em Bagdad, passa todo o primeira dia (dia 5), celebra missa (6) e despede-se (7).

Curdistão

Na região do Curdistão vai estar no dia 7. Voa para Erbil onde celebra missa num estádio de futebol perante 10 mil pessoas. O Governo Regional do Curdistão diz que tudo fará para garantir a segurança da visita e o arcebispo caldeu de Erbil revelou que 10 mil pessoas estarão envolvidas na segurança do Papa Francisco durante a passagem pela Região. Também no Curdistão as preocupações de segurança cresceram depois de, a 15 de Fevereiro, vários morteiros terem atingido Erbil e uma base militar que acolhe militares estrangeiros. Nesta passagem pelo norte do Iraque, o Papa vai também a Mossul, cidade onde foi proclamado o Califado do EI, e vai a Qaraqosh, cidade cristã nos arredores de Mossul que esteve nas mãos do EI e onde a destruição foi em grande escala. Duas paragens do Papa Francisco que pretendem marcar a afirmação da presença cristã na região.

Estado Islâmico

Será bom notar que, apesar da derrota do Estado Islâmico (EI), mantém-se no terreno a presença de células da organização. São frequentes os ataques reivindicados pelo EI, tal como confrontos com forças de segurança e outras milícias. A insegurança estende-se a todo o território e a 20 de Fevereiro, a norte de Bagdad, confrontos entre o EI e forças governamentais provocaram sete mortos. Em Janeiro, um atentado do EI matou 30 pessoas em Bagdad, naquele que foi o ataque mais sangrento na capital, nos últimos 3 anos. Poucos dias depois do atentado, uma emboscada do EI matou mais de uma dezena de elementos de uma milícia pró-iraniana. No final de Janeiro, o Primeiro-Ministro do Iraque anunciou a morte do alegado líder do EI no Iraque, e já em Fevereiro foi anunciada a morte de um outro dirigente de topo.

Crise política interna

Mas o Iraque vive também uma grave crise política interna, com os iraquianos a manifestarem-se contra a corrupção, o desemprego, e a falência dos serviços públicos, nomeadamente o abastecimento de água e de electricidade. A Agência France Press diz que os protestos e os confrontos com as forças de segurança já provocaram cerca de 600 mortos (a Reuters diz que são 500…) e 30.000 feridos. Em Nassíria (onde esteve o sub-agrupamento Alfa da GNR), a poucos quilómetros de Ur, onde o Papa vai estar no sábado, os protestos têm deixado um lastro de morte. Só na última sexta-feira 4 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. Nassíria, cidade maioritariamente xiita, tem sido palco de grandes manifestações. Antes de chegar a Ur, de helicóptero, o Papa vai a Najaf, cidade santa xiita, onde vai encontrar-se com o Grande Ayatollah Al Sistani, talvez o encontro mais significativo desta visita do Papa Francisco.

Sunitas fora da agenda do Papa

Num país como o Iraque, com as divisões que se conhecem, e com eleições previstas para Junho, o momento político é delicado e talvez o Papa devesse ter encontrado um momento na agenda para se encontrar com uma autoridade sunita. Aliás, essa marca que esta visita vai deixar, já foi notada. O Courrier International refere um site pan-árabe, Raseef22,  que faz eco desse ponto em branco na agenda iraquiana do Papa. O mesmo site refere que “certos clérigos sunitas certamente estarão presentes em Ur e na reunião oficial em Bagdad, mas isso não impede que os sunitas se sintam marginalizados”.

Consequências da visita do Papa

A agência Reuters refere cerca de 300.000 cristãos actualmente no Iraque, o Vaticano refere 250.000, quando já foram 1.500.000 antes da invasão norte-americana/britânica, em 2003. A tendência para os cristãos deixarem o Iraque começou logo após a invasão e acentuou-se com a presença do EI. A Agência Ecclesia lembra que “a comunidade caldeia (rito oriental da Igreja Católica) no Iraque reza na mesma língua de Jesus, o aramaico, e sobrevive há cerca de 2 mil anos, sem nunca ter tido um rei ou um império cristão no território”. Apesar da resistência dos cristãos e da vontade de permanecerem no Iraque, um habitante cristão de Mossul, citado pela agência Reuters, disse que os cristãos saúdam a visita do Papa, mas não acredita que os possa ajudar: “o Papa não nos pode ajudar, só Deus pode”.

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