Quem serão os ditadores de Joe Biden?

Abdel Fatah Al-Sisi, Presidente do Egipto (à esquerda) chegou ao poder através de um Golpe de Estado. Apressou-se a felicitar Joe Biden (à direita) pela vitória eleitoral. Como será a relação entre os dois? Créditos das fotografias: egyptianstreets.com

O Presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, fez uma promessa que cai bem: não abraça ditadores! Em bom rigor, disse isto: “A ideia de colocar o dedo no olho dos nossos amigos e abraçar ditadores não faz sentido para mim”. Nunca saberemos se Joe Biden terá ouvido Augusto Santos Silva no Parlamento quando, poucos dias antes, respondeu a uma acusação da Iniciativa Liberal sobre uma alegada “tibieza” para com a China, dizendo “Não sou fofinho com tiranos”. Sendo que a tirada do Ministro dos Negócios Estrangeiros aconteceu no calor de um debate parlamentar, a afirmação do Presidente eleito dos Estados Unidos foi pensada e dita voluntariamente, dirigida além fronteiras, quiçá com destinatários concretos.

A questão é a de saber quem Joe Biden considera ditador, quem considera democrata e quem considera assim-assim, se tal coisa for possível. Desconfio que para Joe Biden, a categoria dos assim-assim vai ser uma lista enorme.

A promessa de não abraçar ditadores entroncou numa outra: a de apresentar, logo no dia seguinte à tomada de posse, um plano detalhado para o comércio e relações internacionais. Acrescentou que o roteiro internacional da próxima administração vai ser muito diferente daquele que preencheu a agenda de Donald Trump.

Há, de facto, grande expectativa. Os problemas do mundo resolvem-se à mesa, a negociar, a falar, com argumentos, convencendo, não impondo. É assim nas Relações Internacionais para quem pensa que o verdadeiro poder não assenta apenas no poderio económico e na força das armas. Joe Biden terá de rever muito do que foi destruído nos últimos quatro anos: o acordo nuclear com o Irão, o Acordo de Paris, a relação com a ONU e as diferentes agências, a posição dos Estados Unidos no Médio Oriente, os tratados comerciais que a China está a assinar e que devem preocupar os Estados Unidos, a relação com a Rússia… a lista é enorme e, assim de repente, para além dos problemas internos, pode até ser trabalho para mais do que um mandato presidencial. Ou não, dependendo da vontade que Biden tenha de mudar o rumo da política externa norte-americana e deixar para trás decisões erráticas e a desconfiança que se instalou na arena internacional quanto às decisões com origem em Washington.

Para já, Joe Biden disse que vai retroceder nas decisões tomadas por Donald Trump quanto ao Acordo de Paris e à Organização Mundial da Saúde. As outras questões são mais delicadas e exigem diálogo, principalmente com os habituais parceiros, os tais a quem, segundo Biden, Donald Trump colocava o dedo no olho, enquanto preferia abraçar ditadores. A Europa é um deles, mas é quase confrangedor ver a atitude bajuladora e oferecida de muitos daqueles que viajam frequentemente entre os dois lados do Atlântico.

Biden é um homem da política externa norte-americana tradicional e dessa também há muito que se lhe diga. Mas é um homem de alianças e diálogo. Resta saber com quem e a que preço. Sair Trump é bom, vamos ver o que nos traz a chegada de Biden.

Continuarão os Estados Unidos a assassinar generais iranianos? Haverá retirada de tropas do Iraque, do Afeganistão e da Somália? Israel continuará a ter cobertura para atacar território sírio sempre que lhe apetece e a expandir território inviabilizando um Estado palestiniano? A Turquia terá de se definir em termos de apoios militares e zonas de influência? Os Estados Unidos terão uma palavra a dizer na Líbia? Qual vai ser a relação com Jair Bolsonaro? E com a Índia?

Se é certo que a política externa norte-americana tem desde há muito objectivos bem definidos, os analistas são quase unânimes em apostar em pouquíssimas alterações de fundo. Mudará o estilo e a forma, mas a essência deverá manter-se.

Para já, Biden enfrenta uma pandemia e uma derrapagem económica que exigem respostas imediatas. E faltam ainda as eleições na Georgia, a 5 de Janeiro, onde os dois lugares em causa podem alterar a relação de forças no Senado.

Para além de tudo o que fica escrito, a maior curiosidade é mesmo a de saber quem são os ditadores que Joe Biden vai recusar abraçar.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s