Cessar-fogo na Síria? À meia-noite logo se vê…

O calar das armas está previsto para a meia-noite (10h00 GMT) de Damasco nesta sexta-feira. O anúncio foi feito por Estados Unidos e Rússia, mas desde logo o próprio Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse perante o Senado que é preciso esperar para ver. A Casa Branca disse que o acordo significa que há uma evolução; o Kremlin disse que o acordo pode transformar radicalmente a situação na Síria.
O anúncio de cessar-fogo deixa no entanto algumas janelas abertas por onde as armas podem continuar a disparar. Avisa desde logo que “as acções militares, incluindo ataques aéreos das forças armadas da Síria, da Rússia e da coligação liderada pelos Estados Unidos, contra o Estado Islâmico e a Front al Nusra (Al Qaeda) e outras organizações consideradas ‘terroristas’ pelo Conselho de Segurança da ONU, vão continuar”. Os que anunciam a trégua dizem também que vão trabalhar em conjunto para delinear a fronteira dos territórios sob controlo dos que ficam de fora deste acordo. Significa que vão dizer quais são os territórios que vão continuar a ser bombardeados pelos que anunciam o cessar-fogo.
De facto, desde logo, este é um cessar-fogo anunciado após conversações em que muitos dos intervenientes ficaram de fora. E não apenas o Estado Islâmico e a Front al Nusra. Há uma quantidade enorme de grupos ditos “jihadistas” e moderados que não foram achados nem ouvidos. É certo que é um passo enquanto estão suspensas as conversações mais alargadas em Genebra. Também é certo que este passo pode influenciar essas conversações se e quando forem retomadas. Mas é bom reter o potencial de tudo poder correr mal.
Há comandantes de grupos afectos ao Exército Livre da Síria (oposição considerada moderada) que já disseram que esta trégua é a cobertura para que as forças de Bashar al Assad e os aliados russos continuem a atacar bolsas de território onde estão grupos rebeldes argumentando que estão a atacar a Front al Nusra. A confusão no terreno é enorme e este receio parece legítimo. Os rebeldes moderados dizem isso mesmo: é impossível delimitar o terreno onde estão “rebeldes moderados” e “Jihadistas” da al Nusra (presentes em Idlib, Alepo, Damasco e em regiões do sul).
O comandante da brigada do Exército Livre da Síria em Alepo, Major Ammar al Wawi, foi muito específico: “A Front al Nusra tem combatentes no terreno ao lado das brigadas rebeldes na maior parte da Síria, e é um parceiro na luta tal como a maioria das brigadas que estiveram na conferência de Riad (Conferência que juntou muitos grupos da oposição e que terminou sem resultados práticos)”.
Outro porta-voz do Free Tribes Army disse estar disposto a aceitar um cessar-fogo que pare o banho de sangue mas lembra que este acordo não tem legitimidade porque não inclui alguns dos grupos que combatem o regime de Assad. Este representante repete a ideia de que vão ser bombardeados com o argumento de que são ataques contra a Al Nusra e avisa que não se compromete com um cessar-fogo se isso não for do interesse do povo sírio.
Da Front al Nusra, o que se sabe é que levantou postos de controlo, retirou combatentes e juízes da cidade de Sarmada, na província de Idlib, a seis quilómetros da fronteira com a Turquia. Um juiz da cidade diz que estas medidas pretendem retirar argumentos a quem quer atacar a al Nusra e evitar bombardeamentos em zonas civis, mas diz que não acredita que isso não aconteça: “para ser honesto, não acredito. Mas a al Nusra está a tentar jogar o mesmo jogo, assim não haverá desculpas”.
Do lado dos curdos, as Unidades de Protecção Popular (YPG) comprometem-se prometem respeitar o cessar-fogo mas reservam o direito de ripostar se forem atacadas. A Turquia considera que não está vinculada ao acordo e reserva-se o direito de ripostar se for atacada pelas YPG. A juntar a tudo isto, chegam por estes dias à Turquia os aviões sauditas que vão participar nos bombardeamentos contra o Estado Islâmico.
Faltam poucas horas para a entrada em vigor do cessar-fogo de duas semanas. Rapidamente vamos perceber se as armas vão ficar caladas.
Pinhal Novo, 26 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo

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