A utilização desonesta do exemplo de Mandela

Agora que o corpo de Mandela arrefeceu e o destempero dos comentários desapareceu, talvez seja tempo de dizer alguma coisa mais ponderada sobre Nelson Mandela. Nunca falei com Mandela, nunca estive na África do Sul, mas a dimensão de Mandela é universal.
Desde logo Nelson Mandela mostrou um democrático desapego pelo poder. Algo que muitos dos que derramaram lágrimas de crocodilo certamente nunca irão fazer. É certo que a idade de Mandela não permitiria muito mais, mas cumpriu um mandato como presidente e saiu pelo próprio pé.
Nos últimos dias,tentou-se fazer passar uma imagem de um líder pacifista, sempre disposto a estender a mão ao inimigo e quase conformado com aquilo que o poder vigente permitia. Nada mais errado. Como refere o filósofo João Maria de Freitas-Branco (jornal Público de 19 de Dezembro de 2013) o Apartheid é um crime que não tem perdão e, acrescento eu, não prescreve, façam as leis que fizerem para o colocarem num qualquer arquivo morto.
Mandela foi antes de tudo um revolucionário. Pegou em armas para combater a injustiça. E pegou em armas porque a isso foi obrigado perante um poder racista que não permitia qualquer diálogo para alterar um status quo em que os brancos eram reis e senhores enquanto os negros viviam ostracizados e explorados. É importante reter este pormenor: Mandela foi um revolucionário.
Depois da prisão – 27 anos de prisão – a liberdade, em 1990, mostra a Mandela um mundo completamente diferente. O Muro de Berlim tinha caído, o império colonial português tinha terminado, a URSS iria desmoronar-se. O poder branco na África do Sul estava consciente das mudanças e sabia que para não perder tudo era obrigado a negociar. Nelson Mandela percebeu que iria ganhar e que o caminho para o fim do Apartheid estava traçado. Por isso aceitou negociar, por isso percebeu que com a vitória à vista não faria nenhum sentido enveredar por um caminho de vingança e de morte. De que serviria a vingança se o preço seria ainda mais sofrimento para o seu povo? A isto chama-se lucidez, nobreza, ética. Mas um verdadeiro revolucionário deve guiar a sua atitude por estes trilhos porque a revolução faz-se precisamente quando estes valores estão em causa.
Em Portugal, figuras com prática política a anos-luz da de Mandela, apressaram-se a tomar o comboio das carpideiras. Oportunistas descarados, intelectualmente desonestos, falaram de Madiba e de Tata sem terem a mínima noção do significado das palavras. Quiseram aproveitar o nome de Mandela para, deturpando a sua atitude revolucionária, oferecerem-no como o exemplo de como um povo deve ser pacífico mesmo perante as maiores atrocidades como aquelas que estão a ser executadas em Portugal. O que subtilmente pretenderam dizer aos que sofrem é que devem apertar a mão aos carcereiros e renunciar a qualquer acção que não se enquadre num pacifismo submisso.
Aqueles que pensam que ao elogiarem Mandela ascendem a um patamar semelhante, enganam-se; aqueles que pensam que ao falarem do homem que alegadamente perdoou o inimigo podem igualmente ser perdoados, enganam-se. Houve gente demais, com um passado de mentira e sangue nas mãos a colar-se ao exemplo de Nelson Mandela.
O exemplo de Mandela não é propriedade de ninguém mas tão só um exemplo inspirador para quem ama a Liberdade e combate os que se acham donos do Mundo. Apenas isso.
 
josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 22 de Dezembro de 2013

PS – para ver o significado de “Madiba”, “Tata” ir a http://www.nelsonmandela.org/content/page/names

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