Massacre no Líbano

Várias capturas de ecrã de vídeos com imagens dos ataques israelitas a Beirute.

À hora a que escrevo ainda não há um balanço final dos ataques israelitas no Líbano, particularmente em Beirute, nas horas que se seguiram ao anúncio de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irão. Vejo os dados mais recentes: pelo menos 254 mortos e 1 165 feridos, vítimas dos ataques israelitas, segundo a protecção civil libanesa. A mesma fonte refere que só em Beirute há registo, também provisório, de 92 mortos e 742 feridos, e nos arredores da capital o registo aponta para 61 mortos e 200 feridos. Outra fonte, o Ministério da Saúde libanês, dá conta de pelo menos 182 mortos e 890 feridos. Seja qual for o balanço final, é o pior dia desde que Israel e o Hezbollah se confrontam neste novo episódio de guerra. Uma enorme tragédia para o povo libanês, ao nível do pior que os palestinianos sofreram no pico dos ataques israelitas à Faixa de Gaza.

Morte e desamparo

No balanço de um tempo mais alargado, entre 2 de Março e 7 de Abril (dia do anúncio do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irão) a ONU revelou, citando o Ministério da Saúde libanês, que os ataques israelitas mataram  pelo menos 1 530 pessoas e 4 812 ficaram feridas. Isto inclui 130 crianças mortas e 461 feridas, e 102 mulheres mortas e 544 feridas. A ONU considera que “não são apenas números; reflectem uma tragédia civil cada vez mais profunda”.

A ONU adianta que, neste momento, mais de 1 100 000 pessoas (cerca de 20% da população libanesa) foi obrigada a sair de casa para zonas supostamente mais seguras. A maioria fugiu da região a sul do Rio Litani, fronteira que Israel definiu para a ofensiva que tem em marcha. Ainda assim, mais de 100 000 libaneses decidiram ficar na zona do sul do Líbano, que Israel está a bombardear e a ocupar, e a ONU diz que é extremamente difícil fazer-lhes chegar qualquer tipo de ajuda. Segundo a ONU, o sistema de saúde libanês está a ser fortemente atingido nesta região sul do país. Pelo menos 51 centros de saúde e seis hospitais ficaram fora de serviço e muitos outros foram atingidos e ficaram com serviços bastante afectados. Os trabalhadores do sistema de saúde também estão a pagar um preço elevadíssimo: há registo de 57 mortos e 158 feridos.

No sul do Líbano, nem as forças da ONU escapam. O exército israelita disparou tiros de aviso contra uma coluna de capacetes azuis italianos, atingindo um veículo mas não fazendo vítimas. O Ministro da Defesa italiano considerou o ataque “inaceitável” e avisou: “o exército israelita não tem qualquer autoridade para atacar militares italianos”!

Toda a capital debaixo de fogo

Para além do sul do país, esta quarta-feira (08) também a capital foi fortemente atacada. Não apenas as zonas consideradas como território do Hezbollah. Uma das principais artérias, no corniche Mazraa, junto ao mar, foi fortemente atacada. Por volta das 14h00 (hora local) uma série de ataques atingiram vários zonas no centro de Beirute. Os hospitais ficaram nos limites face à afluência de feridos e o Hospital da Universidade Americana de Beirute anunciou que precisava de sangue.

Da capital libanesa chegou-me uma mensagem: “eu estava em Beirute quando os ataques começaram, terrível, um massacre!”.

As agências de notícias referem que o coração de Beirute foi atingido, havendo cenas de pânico, edifícios em chamas, carros calcinados, ruas juncadas de escombros e ambulâncias a acorrer aos locais atacados.

Cessar-fogo, mesmo?

O mundo respirou algumas horas de esperança quando Donald Trump anunciou o cessar-fogo, mas muitos analistas rapidamente alertaram para a possibilidade de Israel ir fazer tudo para dinamitar a perspectiva de um acordo. É isso que está a acontecer.

Desde logo, não deixa de ser estranho que as negociações tenham sido apenas (ao que se sabe) entre Estados Unidos e Irão havendo um terceiro, Israel, que ficou de fora. Este formato é o que permite agora a Israel dizer que a guerra que mantém no Líbano contra o Hezbollah não está abrangida pelo acordo. Os Estados Unidos dizem o mesmo, mas o homem que mediou o acordo de cessar-fogo, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, foi muito claro na mensagem que publicou na rede X, quando anunciou os termos do cessar-fogo: “Com a maior humildade, tenho o prazer de anunciar que a República Islâmica do Irão e os Estados Unidos da América, juntamente com seus aliados, acordaram um cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano e outras regiões, VIGENTE IMEDIATAMENTE” (assim mesmo, em maiúsculas).

Palavras muito claras e sem possibilidade de interpretações enviesadas.

O critério de notícia

Apesar das muitas dezenas de mortos libaneses, o massacre provocado pelos ataques israelitas é tratado quase como nota de rodapé na maré de informação entre as declarações de Donald Trump e a questão do bloqueio do Estreito de Ormuz. Imaginemos que tinha havido umas dezenas de mortos em Israel. Como seriam as manchetes e as aberturas dos jornais televisivos? Não sei ao certo que que significam estes critérios. Será que as vidas libanesas têm menos valor? Ou será que já se considera normal – e portanto não é notícia – Israel matar indiscriminadamente?

Nestes ataques ao Líbano, convém sublinhar que Israel esperou pelo anúncio do cessar-fogo para desencadear o que os próprios responsáveis israelitas designaram como o “maior ataque coordenado contra o Hezbollah”. Diz o exército israelita que “no espaço de 10 minutos e simultaneamente em várias zonas, foram atacados uma centena de postos de comando e de infraestruturas militares (do Hezbollah); o ministro da defesa israelita, Israel Katz, foi mais longe: “O Tsahal (exército) lançou um ataque surpresa contra centenas de terroristas do Hezbollah nos seus centros de comando em todo o Líbano”, acrescentando que a operação foi executada de forma perfeita.

O ministro dos negócios estrangeiros belga, Maxime Prévot, foi apanhado na capital libanesa durante os ataques acusou Israel de lançar o ataque “sem qualquer aviso”, alertando para a possibilidade de Beirute ser transformada numa “nova Gaza” e alertando para “o avanço terrestre israelita – associado à destruição sistemática de aldeias, pontes e infraestruturas – cria de facto uma zona tampão que ameaça a soberania do Líbano”.

Reacções

Os Guardas da Revolução Islâmica (GRI) já avisaram: “se as agressões ao Líbano não pararem imediatamente, cumpriremos o nosso dever e iremos responder!; em Teerão, ouviu-se uma palavra de ordem nas ruas: “Sayyed Majid, o herói (comandante da força aeroespacial dos GRI) vai ajudar o Líbano”; o Hezbollah, que não reivindicou qualquer ataque a Israel desde que foi anunciado o cessar-fogo, também já disse que tem o direito de responder aos ataques israelitas.

O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, emitiu um comunicado a pedir ajuda a “todos os amigos do Líbano” para fazerem tudo o que for possível de modo a parar os ataques israelitas.

O presidente libanês condenou veementemente os ataques israelitas depois de ter sido anunciado o cessar-fogo e apelou à intervenção da comunidade internacional. Joseph Aoun bem pode esperar. Talvez obtenha umas palavras de compaixão e lágrimas de crocodilo, porque não vai conseguir mais nada.

Quanto a Benjamin Netanyahu demorou 18 horas a falar ao país (em hebraico) depois do anúncio do cessar-fogo. O primeiro-ministro israelita tinha emitido uma nota breve (4 parágrafos curtos, em inglês) durante a madrugada, cerca de 4 horas depois do anúncio do cessar-fogo. Muito criticado internamente com acusações de ter ficado afastado das negociações, rejeitou essa acusação, disse que não tinha sido apanhado de surpresa e assegurou que houve “plena coordenação” entre Israel e os Estados Unidos.

Contradizendo o mediador paquistanês (“cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano e outras regiões”), Netanyahu afirmou que o Líbano está excluído do acordo, Israel mantém o “objectivo primordial” de desarmar o Hezbollah e vai continuar a atacar com força.

A guerra pode ter terminado para os Estados Unidos, mas não terminou para Israel.

Pinhal Novo, 9 de Abril de 2026

02h30

jmr

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