
Os Estados Unidos desencadearam uma guerra contra o Irão, atrelados a Israel, mas não sabem como podem terminar a guerra. Donald Trump faz lembrar um jogador de xadrez principiante: tem dificuldade em antecipar uma sequência de jogadas e a forma como poderá responder a cada uma delas. E tem ainda outro problema: não estuda o adversário (neste caso, o inimigo), a cultura e a história do país que decidiu atacar.
Se o tivesse feito, teria sabido que os iranianos não gostam nada dos Estados Unidos. Convém lembrar que foi no Irão que a CIA se estreou nas operações “mudança de regime”, ao patrocinar a queda do então primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadeq, um nacionalista que irritou Winston Churchill ao recusar as exigências britânicas relativamente ao petróleo iraniano explorado até então pela Anglo-Iranian Oil Company, a actual British Petroleum (BP). Mossadeq nacionalizou o petróleo. Em Outubro de 1951, Mossadeq ainda foi a Washington conversar com o presidente Harry S. Truman, mas não se deixou levar na conversa. Antes tinha passado nas Nações Unidas onde deixou uma mensagem muito simples: “Os recursos petrolíferos do Irão, tanto quanto o seu solo, os seus rios e montanhas, são propriedade do povo do Irão. Só ele tem o poder de decidir quem fará o quê e como com eles”.
Perante isto, Churchill convenceu os norte-americanos a intervirem. Até esse momento, os iranianos viam os Estados Unidos como um aliado, ao contrário dos britânicos. A CIA chamou-lhe a “Operação Ajax”, os britânicos do MI6 chamaram-lhe “Operação Bota”. Os britânicos queriam recuperar o petróleo a preço de saldo; os norte-americanos queriam construir uma barreira ao avanço comunista. A CIA investiu na desestabilização política e social, na revolta nas ruas e na corrupção de militares iranianos. No Verão de 1953, o golpe consumou-se, Mossadeq caiu, o poder do Xá saiu reforçado e até 1979 o Irão viveu uma ditadura, patrocinada pelos Estados Unidos.
Historiadores
O “serviço” ficou feito, mas muitos historiadores norte-americanos reconhecem que a relação entre os dois países ficou marcada. Alguns exemplos:
Mary Ann Heiss: “O envolvimento dos Estados Unidos no golpe de 1953 e o consórcio acordado em 1954 convenceram o povo iraniano de que os Estados Unidos estavam pouco preocupados com os seus problemas, e que tinham mais interesse em apoiar o imperialismo britânico do que em amparar a sua busca pela autodeterminação e independência. Estas convicções levaram os nacionalistas iranianos a apelar os Estados Unidos de «Grande Satanás» e a culpá-los por todos os problemas que afligiram o Irão nos vinte e cinco anos seguintes”;
James A. Bill: “A queda de Mossadeq marcou o fim de um século de amizade entre os dois países e o início de uma era de intervenção por parte dos Estados Unidos no seio das forças enfraquecidas do nacionalismo iraniano”;
Richard W. Cottam: “A política norte-americana alterou de facto a história do Irão de uma forma fulcral. Ajudou a expulsar uma elite nacionalista eque encarara os Estados Unidos como seu aliado ideológico e apoiante de confiança. Ao ajudar a eliminar um governo que simbolizava a procura da integridade e dignidade nacionais por parte do Irão, ajudou a negar ao regime que se sucedeu a legitimidade nacionalista”;
Mark F. Gasiorowski: “Se o golpe não tivesse ocorrido, o futuro do Irão teria sido em dúvida bastante diferente. Do mesmo modo, o papel dos Estados Unidos no golpe e na subsequente consolidação da ditadura do Xá foi decisivo para o futuro das relações norte-americanas com o Irão. A cumplicidade dos Estados Unidos nestes acontecimentos teve um grande peso nos ataques terroristas a cidadãos e bases militares americanas que ocorreram no Irão no início da década de setenta, no carácter antiamericano da revolução 1978-79 e nos muitos incidentes antiamericanos que emanaram do Irão após a revolução, incluindo, entre os mais notáveis, acrise de reféns da embaixada”;
Nikki R. Keddie: “O golpe de 1953, que culminou um ano depois num acordo petrolífero que deixou o controlo efectivo da produção e marketing de petróleo, assim como cinquenta por cento dos lucros, nas mãos dos cartéis petrolíferos mundiais, teve um efeito compreensivelmente traumático na opinião pública iraniana, o qual prevaleceu até ao presente… A antipatia em relação ao governo norte-americano intensificou-se quando se tornou conhecido que os Estados Unidos estavam profundamente envolvidos no afastamento de Mossadeq, em 1953. O apoio que os americanos ofereceram à ditadura do Xá ao longo de mais de vinte e cinco anos e, praticamente, até ao fim da mesma, contribuiu para consolidar esse sentimento antiamericano”;
William Roger Louis: “As nações, como os indivíduos, não pode ser manipuladas sem deixar na parte lesada a sensação de que as contas antigas terão mais tarde ou mais cedo de ser sanadas… A curto prazo, a intervenção de 1953 pareceu ser eficaz. A longo prazo, contudo, os conselhos mais antigos que diziam para não intervir parecem ser os que teriam revelado maior sabedoria política”.
Parece óbvio que Donald Trump não sabe, ou não quer saber, nada disto, e que os mais próximos dele também não, mas é de tudo isto que os iranianos se lembram e foi também por tudo isto, independentemente do peso da religião na sociedade iraniana, que os iranianos deram força ao regime que nasceu da revolução de 1979 e que hoje, apesar de haver contestação e exigência de novas políticas, não nos podemos admirar de ver muitos iranianos a cerrar fileiras contra a agressão norte-americana-israelita.
Salvo algum acontecimento extraordinário, o Irão prepara-se para resistir até ao limite. Falta saber qual é o limite de Donald Trump porque o de Benjamin Netanyahu, tendo como exemplo o que está a fazer na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no Líbano, ninguém duvida: quem se lhe atravesse no caminho é para matar. Mas, ao contrário de Gaza, de onde ainda sonham fazer desaparecer dois milhões de palestinianos, os iranianos são 90 milhões, e não consta que queiram sair de lá.
José Manuel Rosendo
02h00
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