
Os curdos estão de novo apanhados numa guerra que não é deles e, mais uma vez, arriscam-se a ser arrastados para a ilusão de que podem tirar algum benefício para a causa da autonomia curda. Foi assim na Síria e no Iraque onde as Unidades de Protecção Popular, os Peshmerga e o PKK, combateram a organização Estado Islâmico. Apesar de terem conseguido uma autonomia temporária na Síria, durante mais de uma década, o novo poder de Damasco já forçou um retrocesso. No Iraque mantiveram o estatuto de autonomia, o único país em que essa autonomia é reconhecida pela Constituição. No Irão e na Turquia são fortemente reprimidos.
A 22 de Fevereiro, uma semana antes do ataque ao Irão, quatro partidos curdos iranianos e um ramo do partido Komala, anunciaram a Coligação de Forças Políticas do Curdistão Iraniano. Duas semanas depois, 4 de Março, um outro ramo do Komala também aderiu. Na declaração com que anunciaram a coligação, dizem que o principal objectivo é fortalecer a unidade entre as forças curdas, desenvolver a coordenação política e de acção no terreno, organizar uma luta conjunta pela democracia, justiça e direitos nacionais do povo curdo no Irão e no Curdistão Oriental (Rojhelat).
Partido Democrático do Curdistão Iraniano (PDKI), Partido da Vida Livre do Curdistão (PJAK), Organização de Luta do Curdistão Iraniano (Khabat), Partido da Liberdade do Curdistão (PAK) e dois ramos do Komala, são os grupos/partidos que se juntaram para enfrentar o tempo de guerra e espreitar a oportunidade de avançar na autonomia curda.
Num comunicado de 2 de Março – já em plena guerra – a Coligação apela às forças armadas do regime que estão no Curdistão para deporem as armas, dizendo que é uma forma de se distanciarem do inimigo, não ficando em perigo e escolhendo a defesa do Irão. O comunicado deixa evidente que a expectativa curda é a da queda do regime. Um outro apelo é lançado aos curdos iranianos: para estarem vigilantes, evitarem aventureirismos, afastarem-se de instalações militares e para serem solidários, cuidando dos mais vulneráveis.
Situação confusa
Os diferentes grupos curdos iranianos mantêm bases na região curda iraquiana e há informação concreta sobre ataques iranianos a essas bases.
A administração norte-americana pôs a circular a informação de que estará disponível para armar estes grupos, fomentando a rebelião contra o regime iraniano e criando uma nova frente que favoreça o ataque desencadeado por Estados Unidos e Israel. Através do X, o Rojhelat.Info (fonte curda do Irão) desmentiu: “Trump conversou com líderes curdos sobre as nossas bases no norte do Iraque. Mas, quanto a qualquer notícia que sugira que Trump concordou em armar algum grupo, isso é completamente falso.
O que está muito claro é que os curdos iranianos não querem Reza Pahlavi no poder em Teerão. O filho do Xá criticou e acusou os grupos curdos de “separatistas que prejudicam a união dos iranianos”. Na resposta, o secretário-geral do Komala acusou Reza Pahlavi de querer apagar os curdos.
Também surgiram notícias de que os curdos, a partir do Iraque, teriam lançado uma ofensiva contra território iraniano, o que foi desmentido por vários partidos curdos iranianos, tal como foi desmentido que tenha havido combates entre curdos iranianos e as forças do regime de Teerão desde que a guerra teve início.
Do que não há dúvidas é dos ataques lançados por Israel e Estados Unidos em zonas curdas contra alvos do regime iraniano.

No Curdistão iraniano vivem entre 8 a 10 milhões de curdos, cerca de 10% da população iraniana, e a maioria é sunita. Foi na região curda do Irão que, em 1946, foi declarada a República de Mahabad. Durou cerca de um ano. O presidente, Qazi Muhammad, foi executado. O Xá Mohammad Reza Pahlavi foi implacável com os curdos e o Aiatola Khomeini chegou a declarar uma “guerra santa” contra os curdos, recusando-lhes qualquer tipo de autonomia. Até hoje.
Região complexa
Já houve um tempo em que xiitas iranianos, curdos e norte-americanos lutaram lado a lado, na Síria e no Iraque. Mas esse foi o tempo da organização Estado Islâmico. Hoje, xiitas iranianos e Estados Unidos estão em campos opostos, enquanto os curdos continuam a ser perseguidos e sem saber em quem confiar.
Aliás, os curdos também não são um grupo homogéneo. Já se guerrearam e, mesmo agora, numa tentativa de equilíbrio difícil, o Governo Regional do Curdistão (Iraque) distanciou-se dos partidos curdos iranianos: “(…) a Região do Curdistão (iraquiano), como sempre, tem sido um factor de estabilidade e calma na região, nunca representou ameaça ou perigo para a segurança de qualquer país vizinho e não vai permitir a qualquer partido usar a Região do Curdistão (iraquiano) contra qualquer país vizinho”.
Os Estados Unidos que abandonaram há poucos dias o leste da Síria, deixando os curdos sozinhos e o caminho aberto às tropas do novo poder de Damasco, dizem agora que vão apoiar os curdos iranianos. O secretário da defesa norte-americano, Pete Hegseth, disse que “os Estados Unidos vão estar lado a lado com os aliados”. Os curdos lembram-se que tiveram a companhia dos Estados Unidos enquanto Bashar Al Assad esteve no poder em Damasco, mas rapidamente ficaram sozinhos; não é de excluir que venham a ter a companhia dos Estados Unidos enquanto o regime iraniano não cair e que, depois, voltem a ficar sozinhos.
É da história, não apenas do Médio Oriente: os ditadores e os autocratas sempre se afirmaram protectores das minorias. Aproximam-se delas quando estão em minoria e precisam de apoio; afastam-se quando sentem que elas podem ser uma ameaça. A presença de potências estrangeiras na região tem utilizado a mesma estratégia. Os curdos que se cuidem. E desconfiem. Muito!
Pinhal Novo, 5 de Março de 2026
01h30
jmr
