
A guerra está a cerca de 6 000 km de Portugal, mas os aviões que alimentam o ataque ao Irão utilizam território nacional – Base das Lajes – arrastando Portugal para uma cumplicidade e um envolvimento indesejáveis e à margem da lei internacional.
Em 2003, aquando da invasão do Iraque, Portugal passou a vergonha de ter ganho a referência de país que acolheu a cimeira da guerra, nos Açores, na mesma Base das Lajes, durante o governo de Durão Barroso; o Presidente Jorge Sampaio opôs-se ao envio de militares portugueses para o Iraque sem mandato da ONU e por isso foi enviada uma força da GNR (que depende do Ministério da Administração Interna). Nessa guerra, o governo português esteve do lado errado (ao contrário de França e Alemanha). Desta vez, até o Reino Unido, que participou na invasão do Iraque em 2003, não autorizou os Estados Unidos a utilizarem bases inglesas, mas o governo português repete o erro, desta vez fechando os olhos à utilização da Base das Lajes por aviões norte-americanos e mantendo, agora, um silêncio confrangedor, por evidente dificuldade em defender o indefensável e ainda maior dificuldade em condenar este ataque norte-americano/israelita.
Contrariamente a Jorge Sampaio que fez ouvir a sua voz, apesar de sublinhar sempre que não era competência do Presidente dirigir a política externa de Portugal, desta vez temos um Presidente muito disponível para falar, mas que fica calado quando ocorre um acontecimento desta natureza e quando seria mesmo importante ouvir o que tem a dizer. Portugal está assim em silêncio, perante uma violação flagrante do Direito Internacional, quando sabemos que esse Direito Internacional é tão mais importante para países de pequena dimensão e frágil capacidade militar, como é o nosso caso.
A este “apagão” do poder político em Portugal valeu um português, António Guterres, secretário-geral da ONU, que veio lembrar, durante a reunião de emergência do Conselho de Segurança sobre os ataques ao Irão, algo que seria fácil o Presidente e o governo português terem dito: “os membros (da ONU) deverão abster-se nas suas relações internacionais de recorrer à ameaça ou ao uso da força, quer seja contra a integridade territorial ou a independência política de um Estado, quer seja de qualquer outro modo incompatível com os objectivos das Nações Unidas”. Apenas isto, e isto é a Carta das Nações Unidas.
O Irão e o Iraque
Os dias que antecederam este ataque fizeram lembrar os dias que antecederam o ataque ao Iraque na Primavera de 2003. Dessa vez, o motivo para a guerra era as armas químicas, alegadamente na posse do regime de Saddam Hussein. Lembramo-nos todos de ver o então secretário de estado norte-americano, Colin Powell, na ONU, a mostrar um pequeno tubo onde estaria a amostra dessas armas químicas. A alegada prova das armas químicas transformou-se na prova da mentira. Nunca encontraram armas químicas. Mentiram, mataram e ficaram impunes.
Desta vez, tem sido a retórica israelita que desde há duas dezenas de anos vem a dizer que o Irão está a poucas semanas de obter uma arma nuclear (o chamado ponto de “não retorno”). Anos e anos a repetir a mesma coisa e sem prova de que o Irão tenha, ou esteja próximo, de fabricar armas nucleares. Aliás, após os ataques do Verão passado, Donald Trump disse que vários sítios nucleares iranianos tinham sido completa e totalmente obliterados e que o ataque tinha sido um sucesso militar espetacular. Afinal, ou não foi um sucesso e Trump mentiu, ou foi um sucesso e o ataque das últimas horas serve apenas para alimentar o plano de hegemonia israelita no Médio Oriente (o tal “novo Médio Oriente”) ao mesmo tempo que desvia atenções dos problemas internos da dupla Netanyahu/Trump.
Mudança de regime
O objectivo de mudança de regime no Irão tem vários problemas que Estados Unidos e Israel teimam em fazer esquecer: os iranianos têm memória e não esqueceram a ditadura do Xá; o próprio Trump manifestou dúvidas de que o príncipe herdeiro, Reza Pahlavi, pudesse ser aceite pelos iranianos, acrescentando que “parece muito simpático”; perante um ataque externo qualquer povo tem tendência a unir-se a quem está no poder; os xiitas ainda não esqueceram a traição norte-americana quando na primeira guerra do golfo incentivaram a rebelião dos xiitas iraquianos contra Saddam Hussein e depois deixaram que o ditador massacrasse os rebeldes. George H. W. Bush receou que os xiitas tomassem o poder no Iraque e formassem uma aliança com o Irão. Ironia da história – acabou por ser o filho, George W. Bush, em 2003, a desencadear a guerra que proporcionou uma maioria xiita em Bagdad e a aproximação ao Irão.
Quem quer mudar o regime do Irão sabe que há enormes riscos militares, geopolíticos e económicos. Evidentemente que nada disto importa a quem quer afastar atenções de problemas internos e ter mais um país do Médio Oriente atirado para o caos também não é um problema.
Apesar da retórica, a última coisa com que Estados Unidos e Israel estão preocupados é com a natureza do regime iraniano e da falta de democracia ou de qualidade de vida dos iranianos. A ser assim, muitos regimes no mundo teriam de mudar, a começar por aqueles, no Médio Oriente, com que Israel assina os Acordos de Abraão e os Estados Unidos fazem negócios milionários de venda de armas e equipamento militar. Os regimes quando não servem os interesses dos respectivos povos, caem por dentro. Assim será com o Irão e também com Donal Trump já que só os norte-americanos podem acabar com o pesadelo em que os Estados Unidos estão transformados.
É bom ter presente que havia um acordo assinado com o Irão sobre o nuclear, que estava a funcionar, e que era supervisionado pela agência Internacional de Energia Atómica, a mesma que dizia não ter provas da existência de armas químicas no Iraque, em 2003. Foi Donald Trump quem rasgou esse acordo, que tinha sido conseguido durante a presidência de Barack Obama. Não foram os iranianos que se retiraram do acordo.
Apesar de Donald Trump repetir à exaustão que já acabou com não sei quantas guerras, a única coisa que tem feito é espalhar a violência através do Mundo, o que, à falta de melhor, valeu-lhe um caricato “Nobel da Bola” entregue por um homem sem vergonha que preside à FIFA. Como retribuição, Gianni Infantino teve assento no chamado “Conselho da Paz”, o órgão criado por Donald Trump para gerir o pós-guerra em Gaza, do qual se autoproclamou presidente eterno e todo-poderoso.
NOTA (duas horas depois da publicação inicial): o comunicado do governo português sobre a “situação no Médio Oriente”, consegue não falar dos ataques ao Irão, nem de quem atacou o Irão. Nem uma vez, nos cinco parágrafos, é feita qualquer referência aos Estados Unidos ou a Israel.
Pinhal Novo, 1 de Março de 2026
02h00
jmr
