É preciso segurar Portugal

Foto do Facebook da campanha de António José Seguro

Em Abril de 2022, os 58,8% de franceses que votaram na segunda volta das eleições presidenciais francesas evitaram que a França, e por arrasto a Europa, entrassem numa rota de desastre com consequências imprevisíveis. A 8 de Fevereiro de 2026, 66,8% dos portugueses que votaram na segunda volta das eleições presidenciais salvaram Portugal de um retrocesso político e recusaram eleger um Presidente de extrema-direita.

Em França, logo na noite da vitória, com a mulher ao lado e a Torre Eiffel como pano de fundo, Emmanuel Macron reconheceu que tinha vencido com votos que não lhe “pertenciam” (votos da esquerda) e disse que não se esqueceria disso. Esqueceu-se. Esqueceu-se de ouvir a rua (apesar das enormes manifestações), esqueceu-se de afinar as políticas que beneficiavam as grandes empresas, esqueceu-se depois quando a coligação de esquerda (Nova Frente Popular) venceu as legislativas antecipadas e, mesmo assim, o campo Macron não conseguiu fazer pontes de entendimento, deixando a França cair num impasse político que continua a “queimar” primeiros-ministros sem encontrar uma solução de governo duradoura. Quatro anos depois dessas eleições presidenciais, Macron desbaratou esse capital obtido em 2022 e as políticas dos seus governos não afastaram a possibilidade de a extrema-direita francesa vencer as próximas presidenciais (2027), mesmo que Marine Le Pen seja impedida de ir a votos.

Sabemos que em Portugal os poderes do Presidente da República são muito diferentes dos poderes do presidente em França, mas António José Seguro teve uma vitória expressiva, sendo o Presidente eleito com o maior número de votos de sempre. O resultado dá-lhe legitimidade não apenas para ser Presidente da República mas para ter uma acção política que contrarie qualquer tendência assente nas ideias do adversário que derrotou nas urnas. Esse perigo existe e ficou expresso na declaração de André Ventura ao reconhecer a derrota eleitoral: “Não vencemos, mas estamos no caminho dessa vitória”. Ventura quer o Chega a governar Portugal e se conseguir nas próximas legislativas a mesma percentagem de votos desta segunda volta das presidenciais (33,1%), será o vencedor (não significando obrigatoriamente que venha a ser primeiro-ministro). Ventura voltou a sublinhar esse desejo: “Sinto que este movimento é imparável e sinto que cedo ou tarde Portugal vai mesmo mudar”. Ninguém pode dizer que não ouviu.

Para tirar gás ao crescimento do número de votos no Chega, basta algo muito simples: cumprir a Constituição. Porque não é preciso alterar a Constituição, como Ventura pretende. O que é preciso é cumprir a Constituição nos direitos – habitação, saúde, educação – que ela estabelece e que as políticas dos sucessivos governos têm desprezado, fazendo crescer o descontentamento e o número de portugueses que querem uma mudança, mesmo que seja Ventura.

António José Seguro sempre disse que vai ser um garante do cumprimento da Constituição. Assim esperamos. Cá estaremos a ver.

Ser moderado não é ser frouxo, para se ter razão não é preciso gritar, ser influente não significa que todas as acções tenham de ser públicas. O Presidente eleito garantiu que, com ele, “não ficará tudo na mesma” e que “a transparência e a ética não são negociáveis” em Belém. Garantiu também que será exigente com as soluções e com os resultados, e reafirmou que a estabilidade política não será um fim em si mesmo. Não deixa de ser um aviso ao governo.

António José Seguro teve uma vitória depois de estar uma década afastado da vida política e de ser mal-amado pelo PS. Afastou-se por convicção e regressou por convicção. Quando assim é, a vitória tem um sabor especial e deixou margem para uma afirmação na noite da vitória: “sou o mesmo de sempre!”. Emocionou-se ao referir a família e repetiu: “Sou livre, vivo sem amarras e assim agirei durante os cinco anos do meu mandato e a minha liberdade é a garantia da minha independência”.

Pinhal Novo, 8 de Fevereiro de 2026

23h50

jmr

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