À espera da Síria (I)

Mazloum Kobani e Ahmed Al Sharaa assinam acordo, em Damasco, a 10 de Março de 2025. Foto SANA NEWS

A Síria volta a confrontar-se com novos sinais de instabilidade e violência. Depois dos confrontos no sul, em Julho de 2025, a envolverem drusos, beduínos e forças do regime, chegou a vez de Alepo, a norte, desta vez entre curdos e forças do regime. O noroeste da Síria sofre grande influência da Turquia que mantém tropas no terreno e apoia as milícias do chamado “exército nacional sírio”; no sudeste, a influência externa é de Israel, que ocupa território sírio e apoia os drusos.

A “questão curda” é fulcral se a Síria quiser manter as actuais fronteiras. Para que isso aconteça, é fundamental que os curdos e o governo de Damasco cheguem a um entendimento.

Acordo sem efeitos práticos

Em 10 de Março de 2025, o comandante curdo das Forças Democráticas da Síria (FDS – curdos e tribos árabes) e o Presidente sírio, assinaram um acordo de cessar-fogo e a integração das instituições civis e militares das FDS na administração central síria. O Acordo, considerado histórico – dois homens que se combateram durante mais de uma década, trocaram a farda militar pelas roupas civis e apertaram a mão – devia ter sido cumprido até final de 2025, mas não foi. Aliás, nada mudou no sentido do que ficou acordado. O território curdo (quase um terço do país), as forças militares, os poços de petróleo, as fronteiras, as prisões onde ainda estão milhares de combatentes da organização Estado Islâmico e os campos de refugiados com familiares desses combatentes, deviam ter passado para controlo de Damasco, mas não passaram. Em troca, os curdos recebiam do poder central sírio o reconhecimento que nunca tiveram durante a “dinastia” Assad: a comunidade curda passaria a ser parte integrante do Estado sírio, com os mesmos direitos de qualquer outro cidadão sírio. Pode parecer pouco, mas não é, porque com os Assad até a cidadania síria era recusada aos curdos.

Influências próximas

Quem, de forma muito clara, não quer este entendimento, é a Turquia, e o motivo é muito simples: a Turquia não quer quase 900 quilómetros de fronteira em que, de um lado e do outro, estão os curdos, muito menos se esses curdos na Síria estiverem organizados numa espécie de região autónoma, como já acontece no Iraque. Se os curdos da Síria concretizassem esse objetivo, a Turquia passaria a ter na sua fronteira sul duas regiões curdas autónomas, uma fronteira de cerca de 1 200 quilómetros. Aos olhos do governo truco, a autonomia dos curdos na Síria e no Iraque, seria um incentivo aos curdos da Turquia para tentarem conquistar uma situação semelhante.

A geografia envolve a Turquia numa questão insanável: os curdos estão lá, no Curdistão, e as fronteiras da Turquia, com Iraque, Síria e Irão, dificilmente serão regiões seguras e de paz sem que os curdos vejam algumas das suas maiores ambições concretizadas.

Na fronteira sudoeste da Síria, Israel arvora-se em defensor da minoria drusa, ocupa a zona tampão dos Montes Golan e estende essa ocupação a território sob alçada directa do governo de Damasco enquanto ataca território sírio quando lhe apetece.

Estas duas influências de actores próximos têm objetivos diferentes: a Turquia pretende uma Síria unida, submetendo os curdos a uma “mão forte” em Damasco, e alinhada com os interesses regionais de Ankara; Israel pretende expandir fronteiras à custa de território sírio, pretende uma Síria fraca, eventualmente dividida, e para isso apoia os drusos (também há uma grande comunidade drusa em Israel) e não se coibirá de apoiar os curdos se isso servir os interesses imediatos de Telavive.

Esta infografia, de 2019, já não corresponde na totalidade à realidade no terreno mas ilustra a área curda (zona azul) a leste do Rio Eufrates.

Não deixa de ser interessante olhar para o mapa da Síria e perceber que os curdos controlam (para além de outras bolsas a noroeste) o território a leste do Rio Eufrates e as cidades ribeirinhas de Raqqa, Deir Ezzor e Baghuz. Ora, o Rio Eufrates é precisamente a fronteira do “Grande Israel” que abrange todo o território sírio com excepção da zona curda a leste do rio.

As escolhas de Al Sharaa

Até agora, o presidente sírio, Ahmed Al Shaara, conseguiu evitar a catástrofe que alguns anunciaram para a Síria após o derrube de Bashar Al Assad, mas o país ainda não se afastou da linha da incerteza e Al Shara demora em acertar o passo com a questão das minorias. Só tem duas hipóteses no caso dos curdos: permite alguma autonomia numa Síria (tal como o Iraque) eventualmente federal (o que Al Sharaa por agora rejeita) ou vai enfrentar uma oposição curda que não vai ser macia.

Os sírios dificilmente aceitarão que depois da longa ditadura da “dinastia” Assad, a esperança de liberdade e desenvolvimento derive para um regime semelhante ao que conduziu a uma longa e terrível guerra civil.

Pinhal Novo, 14 de Janeiro de 2026

17h00

jmr

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