Não há Palestina sem Hamas

Campo de Nur Shams, Tulakarem, norte da Cisjordânia depois de atacado por exército israelita, Abril de 2024. Foto: jmr/arquivo

O título pode ser excessivo, mas o que realmente traduz é que compete aos palestinianos decidir quem vai dirigir os destinos dos territórios palestinianos. Mais ninguém tem legitimidade ou direito de tomar essa decisão. O Hamas pode, eventualmente, desaparecer enquanto movimento político e enquanto força de resistência armada, mas o corpo de ideias e valores que o sustentam vão permanecer e vão ressurgir, eventualmente organizados com outra estrutura e com diferente roupagem. É bom lembrar que em Janeiro de 2006, aquando das últimas eleições palestinianas, o Hamas foi impedido de concorrer com essa designação, tendo adoptado o nome “Mudança e Reforma”, com a qual ganhou 74 dos 132 lugares do Conselho Legislativo da Palestina. Em todo este longo processo, a exigência israelita de excluir o Hamas não é nova e além de ter impedido a participação do Hamas, enquanto tal, nas eleições de 2006, Israel recusou dialogar com o governo que resultou dessas eleições – naturalmente liderado pelo partido que obteve a maioria absoluta – com o argumento de que não negociava com terroristas. Estados Unidos e União Europeia (UE) seguiram-lhe o exemplo. A UE teve observadores no terreno, classificou as eleições de “justas, democráticas e livres” mas, porque não gostou do resultado, atirou a democracia às urtigas, preferindo o alinhamento seguidista com os Estados Unidos. Conhecemos as consequências.

Comício do Hamas, em Al-Bireh, na Cisjordânia, em 21 de Janeiro de 2006, a quatro dias das eleições legislativas. Foto: jmr/arquivo

Israel julga-se no direito de escolher os dirigentes palestinianos com os quais, eventualmente, poderá “negociar”. Estamos mesmo a ver o que aconteceria se a Autoridade Palestiniana ou o Hamas recusassem negociar com um governo israelita, legitimado por resultados eleitorais, utilizando um qualquer argumento semelhante ao que tem sido utilizado por Israel.

Impasse no cessar-fogo

Benjamin Netanyahu encontrou-se este ano pela quinta vez com Donald Trump nos Estados Unidos. Um encontro quando o acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza está num impasse. Netanyahu obteve luz verde de Trump para a narrativa que vai alimentar os próximos tempos: o Hamas tem de entregar as armas. Se o Hamas não o fizer, e enquanto não o fizer, Netanyahu pode utilizar esse argumento para fazer tudo o que entender. Donald Trump disse o que Netanyahu queria ouvir: “Se não se desarmarem, como prometeram fazer, e num prazo relativamente curto, pagarão um preço elevado”. Não deixa de ser estranho que em territórios ocupados, a exigência de desarmamento seja feita aos ocupados e não aos ocupantes, ainda mais quando o ocupante manifesta vontade de continuar a ocupar.

Segundo a agência Reuters, o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, disse (23 de Dezembro de 2025) que as forças armadas nunca se retirarão completamente da Faixa de Gaza por razões de segurança e que será estabelecida uma unidade militar-civil no território palestiniano: “estamos localizados bem dentro de Gaza e nunca sairemos de toda a (o território de) Gaza. Isso nunca acontecerá. Estamos lá para proteger, para impedir que o que aconteceu se repita.”

A narrativa do Hamas

O Hamas divulgou recentemente um documento (42 páginas) https://palinfo.com/wp-content/uploads/2025/12/OurNarrative.pdf que designa por “A nossa narrativa… Dilúvio de Al-Aqsa, dois anos de firmeza e a vontade de libertação”, no qual deixa claro que não vai desarmar, acusa Israel de utilizar as “negociações” para continuar a expropriar terra palestiniana, e lembra todas as resoluções da ONU, “nenhuma delas implementada durante 75 anos. Perante isto, o movimento palestiniano faz uma pergunta: “o que esperaria o mundo de um povo digno que procura recuperar a sua liberdade e os seus direitos?”

Sobre a continuação da resistência, o documento refere as sondagens feitas pelo “Centro Palestiniano para a Investigação Política e Estudos de Opinião” (já agora convém dizer que não é controlado pelo Hamas) nas quais uma significativa percentagem de palestinianos mostra alinhamento com o Hamas e com a resistência armada: “estes resultados confirmam que apostar no abandono da resistência ou na retirada do apoio ao Hamas por parte da população é uma aposta totalmente condenada ao fracasso”. Se dúvidas houvesse, o novo porta-voz das brigadas militares (Ezzedine al-Qassam) do Hamas foi muito claro a poucas horas do encontro Trump-Netanyahu: “o nosso povo está a defender-se e não renunciará às suas armas enquanto a ocupação continuar; não se renderá, mesmo que tenha de lutar com as suas próprias mãos”.

Colonatos avançam

O mesmo Benjamin Netanyahu que exige o desarmamento da resistência palestiniana deu uma entrevista à televisão norte-americana Fox News sobre os constantes ataques dos colonos israelitas contra a população palestiniana na Cisjordânia e disse que se trata apenas de “um punhado de jovens” que “derrubavam árvores”. Como se o mundo não saiba e veja, diariamente, o que acontece na Cisjordânia. Como se não conhecêssemos a campanha de punição colectiva, agressões, expulsões, destruição de habitações, infraestruturas e roubo de terras que está a ser praticada contra a população palestiniana nas aldeias, cidades e campos de refugiados na Cisjordânia. Esta realidade paralela na argumentação de Netanyahu é um exemplo claro da retórica enganadora do governo israelita.

Os colonatos na Cisjordânia (assinalados a vermelho) aprovados recentemente pelo governo israelita. Fonte httpswww.dailysabah.com

O mesmo governo de Natanyahu que não se cansa de aprovar a construção de novos colonatos e a ampliação dos já existentes, que já proibiu a UNRWA (a mais importante agência da ONU no apoio aos refugiados palestinianos) e que, indiferente ao sofrimento de quase dois milhões de pessoas desamparadas perante a falta de abrigo e alimentação, proíbe agora 37 Organizações Não Governamentais (ONG) de trabalharem – e levarem ajuda – à população de Gaza, com o argumento que não entregaram toda a documentação e que o objetivo é impedir que as ONG’s sejam infiltradas por terroristas: “as licenças das organizações expiraram e estão proibidas de prestar auxílio. Têm dois meses para retirar as suas equipas”, Amichai Chikli, ministro da Diáspora e da luta contra o antissemitismo, citado pelas agências de notícias. Amichai é um político israelita com fortes ligações à extrema-direita europeia.

Instrumentalização dos reféns

Dos reféns que o Hamas se comprometeu a entregar, falta apenas um, Ran Gvili. O Hamas alega que não consegue descobrir o corpo do refém entre os escombros que cobrem grande parte do território palestiniano. Ran, segundo informação de Israel, morreu em combate no dia 7 de Outubro de 2023, mas há poucos dias foi divulgado um vídeo https://www.instagram.com/reels/DSnWUDeDaxy/, feito com Inteligência Artificial, em que o refém apela a Donald Trump para “terminar o que começou” e reivindica o direito de ser sepultado em Israel. O vídeo foi criado com autorização da família que agora acompanhou Benjamin Netanyahu a este encontro com Donald Trump. Não estando em causa o direito e a legítima vontade dos pais de Ran Gvili de lhe quererem dar um funeral digno, e por isso estarem dispostos a tudo, é mesquinha a utilização que Netanyahu faz deste caso ao aproveitá-lo para introduzir uma carga emocional no processo. O mesmo Netanyahu que recusou qualquer acordo se o Hamas continuasse a libertar reféns perante as câmaras de televisão (como fez no início), instrumentaliza agora o último refém, utilizando a inteligência artificial para que um refém, que se sabe que está morto, surja a falar e a pedir ajuda num cenário semelhante a um túnel de Gaza. É demasiado grotesco para ser ignorado e mostra aquilo a que Netanyahu está disposto para atingir os seus objetivos.

Ameaça existencial

Se alguém enfrenta, neste momento, uma ameaça existencial, são os palestinianos, e não os israelitas. Desde logo, na Faixa de Gaza não há nenhuma garantia que o território fique com as fronteiras que tinha até 7 de Outubro de 2023 e que a ideia de expulsar a população não possa ganhar um novo ímpeto. Foi o chefe do Estado-Maior israelita, Eyal Zamir, quem disse, no início de Dezembro, ao falar a reservistas em Gaza, que “a linha amarela (que divide Gaza de norte a sul, com os palestinianos empurrados para uma faixa junto ao mar) constitui uma nova fronteira – uma linha de defesa avançada para os colonatos (israelitas) e uma linha de ataque”.

Mapa da Faixa de Gaza publicado em Setembro 2025 fazendo parte da proposta de cessar fogo de Donald Trump

Na Cisjordânia está em curso uma catástrofe silenciosa, com os palestinianos cada vez mais isolados e trancados em bolsas de território. A grande substituição (teoria da conspiração sobre a substituição da população europeia por populações imigrantes) de que a extrema-direita faz bandeira para demonizar a imigração, está a ser praticada há muito contra os palestinianos, retirando-lhes terras que são depois ocupadas por quem nunca nelas viveu.

A resistência dos palestinianos em Gaza e na Cisjordânia ou em Jerusalém Oriental é uma questão existencial: a rendição ou a desistência significa abdicar da luta pela autodeterminação e da criação do Estado da Palestina. A própria história da criação de Israel deveria ajudar a perceber que também os palestinianos têm direito a lutar.

Apesar dos muitos exemplos de guerras recentes, há quem não perceba que não há Palestina sem o Hamas (a não ser que se acabe com a Palestina e com o Hamas), tal como não há Afeganistão sem Taliban e não há Iraque (nas actuais fronteiras) sem os curdos e os sunitas, nem haverá Síria (nas actuais fronteiras) sem os curdos e sem os alawitas.

Se pelo menos tivessem lido o último parágrafo do discurso da escritora Lídia Jorge, aquando do 10 de Junho, quando ela se identifica com a ideia que Camões nos deixou, teria sido dado um passo enorme na compreensão da causa palestiniana: “um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa”!

NOTA: deixo esta última nota porque sei que há quem goste de extrapolar, deturpar e até consegue ler o que aqui não está escrito. Por isso quero dizer que este não é um texto de apoio, defesa ou crítica ao Hamas. É apenas uma leitura, com alguns dados recentes e algum enquadramento que pode ajudar a perceber uma guerra que teve início quando a esmagadora maioria dos leitores ainda não era nascida.

Pinhal Novo, 1 de Janeiro de 2026

23h50

jmr

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