
O título pode ser excessivo, mas o que realmente traduz é que compete aos palestinianos decidir quem vai dirigir os destinos dos territórios palestinianos. Mais ninguém tem legitimidade ou direito de tomar essa decisão. O Hamas pode, eventualmente, desaparecer enquanto movimento político e enquanto força de resistência armada, mas o corpo de ideias e valores que o sustentam vão permanecer e vão ressurgir, eventualmente organizados com outra estrutura e com diferente roupagem. É bom lembrar que em Janeiro de 2006, aquando das últimas eleições palestinianas, o Hamas foi impedido de concorrer com essa designação, tendo adoptado o nome “Mudança e Reforma”, com a qual ganhou 74 dos 132 lugares do Conselho Legislativo da Palestina. Em todo este longo processo, a exigência israelita de excluir o Hamas não é nova e além de ter impedido a participação do Hamas, enquanto tal, nas eleições de 2006, Israel recusou dialogar com o governo que resultou dessas eleições – naturalmente liderado pelo partido que obteve a maioria absoluta – com o argumento de que não negociava com terroristas. Estados Unidos e União Europeia (UE) seguiram-lhe o exemplo. A UE teve observadores no terreno, classificou as eleições de “justas, democráticas e livres” mas, porque não gostou do resultado, atirou a democracia às urtigas, preferindo o alinhamento seguidista com os Estados Unidos. Conhecemos as consequências.

Israel julga-se no direito de escolher os dirigentes palestinianos com os quais, eventualmente, poderá “negociar”. Estamos mesmo a ver o que aconteceria se a Autoridade Palestiniana ou o Hamas recusassem negociar com um governo israelita, legitimado por resultados eleitorais, utilizando um qualquer argumento semelhante ao que tem sido utilizado por Israel.
Impasse no cessar-fogo
Benjamin Netanyahu encontrou-se este ano pela quinta vez com Donald Trump nos Estados Unidos. Um encontro quando o acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza está num impasse. Netanyahu obteve luz verde de Trump para a narrativa que vai alimentar os próximos tempos: o Hamas tem de entregar as armas. Se o Hamas não o fizer, e enquanto não o fizer, Netanyahu pode utilizar esse argumento para fazer tudo o que entender. Donald Trump disse o que Netanyahu queria ouvir: “Se não se desarmarem, como prometeram fazer, e num prazo relativamente curto, pagarão um preço elevado”. Não deixa de ser estranho que em territórios ocupados, a exigência de desarmamento seja feita aos ocupados e não aos ocupantes, ainda mais quando o ocupante manifesta vontade de continuar a ocupar.
Segundo a agência Reuters, o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, disse (23 de Dezembro de 2025) que as forças armadas nunca se retirarão completamente da Faixa de Gaza por razões de segurança e que será estabelecida uma unidade militar-civil no território palestiniano: “estamos localizados bem dentro de Gaza e nunca sairemos de toda a (o território de) Gaza. Isso nunca acontecerá. Estamos lá para proteger, para impedir que o que aconteceu se repita.”
A narrativa do Hamas
O Hamas divulgou recentemente um documento (42 páginas) https://palinfo.com/wp-content/uploads/2025/12/OurNarrative.pdf que designa por “A nossa narrativa… Dilúvio de Al-Aqsa, dois anos de firmeza e a vontade de libertação”, no qual deixa claro que não vai desarmar, acusa Israel de utilizar as “negociações” para continuar a expropriar terra palestiniana, e lembra todas as resoluções da ONU, “nenhuma delas implementada durante 75 anos. Perante isto, o movimento palestiniano faz uma pergunta: “o que esperaria o mundo de um povo digno que procura recuperar a sua liberdade e os seus direitos?”
Sobre a continuação da resistência, o documento refere as sondagens feitas pelo “Centro Palestiniano para a Investigação Política e Estudos de Opinião” (já agora convém dizer que não é controlado pelo Hamas) nas quais uma significativa percentagem de palestinianos mostra alinhamento com o Hamas e com a resistência armada: “estes resultados confirmam que apostar no abandono da resistência ou na retirada do apoio ao Hamas por parte da população é uma aposta totalmente condenada ao fracasso”. Se dúvidas houvesse, o novo porta-voz das brigadas militares (Ezzedine al-Qassam) do Hamas foi muito claro a poucas horas do encontro Trump-Netanyahu: “o nosso povo está a defender-se e não renunciará às suas armas enquanto a ocupação continuar; não se renderá, mesmo que tenha de lutar com as suas próprias mãos”.
Colonatos avançam
O mesmo Benjamin Netanyahu que exige o desarmamento da resistência palestiniana deu uma entrevista à televisão norte-americana Fox News sobre os constantes ataques dos colonos israelitas contra a população palestiniana na Cisjordânia e disse que se trata apenas de “um punhado de jovens” que “derrubavam árvores”. Como se o mundo não saiba e veja, diariamente, o que acontece na Cisjordânia. Como se não conhecêssemos a campanha de punição colectiva, agressões, expulsões, destruição de habitações, infraestruturas e roubo de terras que está a ser praticada contra a população palestiniana nas aldeias, cidades e campos de refugiados na Cisjordânia. Esta realidade paralela na argumentação de Netanyahu é um exemplo claro da retórica enganadora do governo israelita.

O mesmo governo de Natanyahu que não se cansa de aprovar a construção de novos colonatos e a ampliação dos já existentes, que já proibiu a UNRWA (a mais importante agência da ONU no apoio aos refugiados palestinianos) e que, indiferente ao sofrimento de quase dois milhões de pessoas desamparadas perante a falta de abrigo e alimentação, proíbe agora 37 Organizações Não Governamentais (ONG) de trabalharem – e levarem ajuda – à população de Gaza, com o argumento que não entregaram toda a documentação e que o objetivo é impedir que as ONG’s sejam infiltradas por terroristas: “as licenças das organizações expiraram e estão proibidas de prestar auxílio. Têm dois meses para retirar as suas equipas”, Amichai Chikli, ministro da Diáspora e da luta contra o antissemitismo, citado pelas agências de notícias. Amichai é um político israelita com fortes ligações à extrema-direita europeia.
Instrumentalização dos reféns
Dos reféns que o Hamas se comprometeu a entregar, falta apenas um, Ran Gvili. O Hamas alega que não consegue descobrir o corpo do refém entre os escombros que cobrem grande parte do território palestiniano. Ran, segundo informação de Israel, morreu em combate no dia 7 de Outubro de 2023, mas há poucos dias foi divulgado um vídeo https://www.instagram.com/reels/DSnWUDeDaxy/, feito com Inteligência Artificial, em que o refém apela a Donald Trump para “terminar o que começou” e reivindica o direito de ser sepultado em Israel. O vídeo foi criado com autorização da família que agora acompanhou Benjamin Netanyahu a este encontro com Donald Trump. Não estando em causa o direito e a legítima vontade dos pais de Ran Gvili de lhe quererem dar um funeral digno, e por isso estarem dispostos a tudo, é mesquinha a utilização que Netanyahu faz deste caso ao aproveitá-lo para introduzir uma carga emocional no processo. O mesmo Netanyahu que recusou qualquer acordo se o Hamas continuasse a libertar reféns perante as câmaras de televisão (como fez no início), instrumentaliza agora o último refém, utilizando a inteligência artificial para que um refém, que se sabe que está morto, surja a falar e a pedir ajuda num cenário semelhante a um túnel de Gaza. É demasiado grotesco para ser ignorado e mostra aquilo a que Netanyahu está disposto para atingir os seus objetivos.
Ameaça existencial
Se alguém enfrenta, neste momento, uma ameaça existencial, são os palestinianos, e não os israelitas. Desde logo, na Faixa de Gaza não há nenhuma garantia que o território fique com as fronteiras que tinha até 7 de Outubro de 2023 e que a ideia de expulsar a população não possa ganhar um novo ímpeto. Foi o chefe do Estado-Maior israelita, Eyal Zamir, quem disse, no início de Dezembro, ao falar a reservistas em Gaza, que “a linha amarela (que divide Gaza de norte a sul, com os palestinianos empurrados para uma faixa junto ao mar) constitui uma nova fronteira – uma linha de defesa avançada para os colonatos (israelitas) e uma linha de ataque”.

Na Cisjordânia está em curso uma catástrofe silenciosa, com os palestinianos cada vez mais isolados e trancados em bolsas de território. A grande substituição (teoria da conspiração sobre a substituição da população europeia por populações imigrantes) de que a extrema-direita faz bandeira para demonizar a imigração, está a ser praticada há muito contra os palestinianos, retirando-lhes terras que são depois ocupadas por quem nunca nelas viveu.
A resistência dos palestinianos em Gaza e na Cisjordânia ou em Jerusalém Oriental é uma questão existencial: a rendição ou a desistência significa abdicar da luta pela autodeterminação e da criação do Estado da Palestina. A própria história da criação de Israel deveria ajudar a perceber que também os palestinianos têm direito a lutar.
Apesar dos muitos exemplos de guerras recentes, há quem não perceba que não há Palestina sem o Hamas (a não ser que se acabe com a Palestina e com o Hamas), tal como não há Afeganistão sem Taliban e não há Iraque (nas actuais fronteiras) sem os curdos e os sunitas, nem haverá Síria (nas actuais fronteiras) sem os curdos e sem os alawitas.
Se pelo menos tivessem lido o último parágrafo do discurso da escritora Lídia Jorge, aquando do 10 de Junho, quando ela se identifica com a ideia que Camões nos deixou, teria sido dado um passo enorme na compreensão da causa palestiniana: “um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa”!
NOTA: deixo esta última nota porque sei que há quem goste de extrapolar, deturpar e até consegue ler o que aqui não está escrito. Por isso quero dizer que este não é um texto de apoio, defesa ou crítica ao Hamas. É apenas uma leitura, com alguns dados recentes e algum enquadramento que pode ajudar a perceber uma guerra que teve início quando a esmagadora maioria dos leitores ainda não era nascida.
Pinhal Novo, 1 de Janeiro de 2026
23h50
jmr
