
O futuro da Faixa de Gaza é uma das questões incluídas nas negociações para tentar chegar a um acordo de cessar-fogo. Desde logo, colocar a questão assim é “partir” a questão palestiniana ao meio, prevendo soluções e futuros diferentes para os dois territórios palestinianos: de um lado a Faixa de Gaza, da Cisjordânia não se fala. Por agora. E este momento, se houvesse boa-fé, até poderia ser o momento para tentar encontrar uma solução para a “questão palestiniana”, entenda-se para criar um Estado da Palestina. Evidentemente que isso não interessa a Israel, nem à actual administração norte-americana. Mas, se avançar essa ideia de tornar a Faixa de Gaza um território com um governo supervisionado e controlado por Israel e Estados Unidos, está dado mais um passo, grande, para que o Estado da Palestina seja apenas uma miragem. É isso, muito isso, que está subjacente a todos os planos e ideias que têm surgido, disfarçadas no argumento de que o Hamas não pode voltar a governar Gaza.
Donald Trump surpreendeu o mundo com a proposta de transformar a Faixa de Gaza na “Riviera do Médio Oriente” mas a ideia, embora com nuances que atenuam a brutalidade da proposta inicial, está a fazer caminho. Da deslocação forçada dos mais de dois milhões de palestinianos para que a reconstrução do território fosse possível, passámos a ouvir falar na deslocação de meio milhão de palestinianos para grandes campos, dentro e fora do enclave. Chamam-lhe “zonas de trânsito humanitário” e dizem que fica mais barato construir estes campos do que manter os palestinianos na Faixa de Gaza dando-lhes o apoio que precisam pela simples razão de tudo terem perdido. Ora, segundo o plano, estes campos funcionariam enquanto Gaza fosse desmilitariza e reconstruída. O jornal Público (8 de Julho de 2025, p. 18) cita duas fontes envolvidas no projecto a dizerem que os habitantes de Gaza poderiam aí “residir temporariamente” enquanto seriam desradicalizados, reintegrados e preparados para mudar de território, “se assim o desejarem”. Isto é: propõe-se aos palestinianos de Gaza que tenham uma casa nova e, em paralelo, esqueçam tudo o que aprenderam em termos culturais e religiosos, inclusivamente a ocupação a que têm estado sujeitos, o sofrimento que lhes foi imposto e a recusa de dignidade que sempre reivindicaram. Deve ser isso a que chamam desradicalização: aceitar sem protestar ou resistir.
Mas se foi uma surpresa a proposta da Riviera que Trump ousou apresentar para o futuro de Gaza, maior surpresa foi saber agora que um dos nomes ligados a esta falta de vergonha é Tony Blair. Não é que o passado de Blair permita esperar algo de bom, mas saber que este tipo de ideias e projectos pode encontrar conforto e apoio num homem que até foi líder do Partido Trabalhista britânico, um partido que se reclama da social-democracia e do centro-esquerda, é verdadeiramente surpreendente e também diz muito sobre as posições do actual primeiro-ministro Keir Starmer (também Trabalhista) relativamente à questão palestiniana e à guerra na Faixa de Gaza. E, já agora, também ajuda a explicar o afastamento de Jeremy Corbin, antigo líder trabalhista, crítico das políticas dos governos israelitas e afastado da liderança do partido com acusações (falsas) de antissemitismo.
Tony Blair aparece associado à “Riviera no Médio Oriente” e às “zonas de trânsito humanitário” porque, diz o Público citando o Financial Times, o Instituto Tony Blair participou no projecto. Diz a agência Reuters que a Fundação Humanitária de Gaza (a tal que dá ajuda aos palestinianos em zonas onde são mortos quando vão receber essa ajuda), foi criada com a ajuda da Boston Consulting Group, a mesma que fez uma análise para perceber os custos de reconstrução de Gaza, tendo chegado à conclusão que sai mais barato expulsar os palestinianos. A Fundação criou então a ideia dos campos para concentrar palestinianos. A Fundação de Blair começou por negar o envolvimento, mas foi confrontada com documentos e provas de participação em conversas sobre o assunto, acabando por admitir que sabia do conteúdo mas que nunca propôs a relocalização de palestinianos que consta de um conjunto de slides e do plano já partilhado com a Administração Trump. Poucos acreditarão na pretensa ingenuidade da Fundação de Tony Blair.
É, aliás, o momento para recordar que Tony Blair foi líder do chamado “quarteto para o Médio Oriente, grupo de mediação internacional composto por ONU, União Europeia, Estados Unidos e Rússia. Saiu em Maio de 2015 depois de cerca de oito anos em funções e pouco depois das negociações de paz entre israelitas e palestinianos terem ficado arrumadas de vez. Ou seja, estava concluída a tarefa.
Recentemente, Novembro de 2024, o Middle East Eye denunciava que a filial britânia do Fundo Nacional Judaico de Israel, que indica Tony Blair como patrono honorário, publicou no seu site um mapa que inclui os Montes Golã ocupados, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, como parte de Israel.
Tony Blair surge como uma espécie de eminência parda de tudo o que de mau acontece neste mundo. Se dúvidas houvesse basta recordar que está na fotografia do “bando dos quatro” que foram à Cimeira dos Açores para declarar guerra ao Iraque.
Certamente não por acaso, Tony Blair surge agora envolvido na questão do futuro de Gaza, apenas uma etapa da ambição israelita e norte-americana de desenhar um “novo” Médio Oriente. Uma ambição antiga que explica muitas das guerras das últimas décadas, que têm sempre os mesmos protagonistas e que são parte da herança da presença britânica na Palestina.
Não há muitos dias, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, definiu bem a sua opção estratégica: primeiro a força, depois a paz. Problema: só a primeira parte depende de Netanyahu e dos amigos norte-americanos. A paz, duradoura, nunca dependerá da aplicação da força. Israel conhece essa realidade há quase 80 anos, mas Netanyahu recusa-se a aceitar. Há uma indústria de armamento que agradece e há uma factura com uma enorme lista de mortos que não consta das preocupações dos senhores da guerra.
Pinhal Novo, 9 de Julho de 2025
14h30
jmr

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