O argumento druso

Está em marcha o que parece ser a criação de um argumento para mais um foco de guerra no Médio Oriente. Pode ser que assim não seja, mas os sinais para isso apontam. A estratégia é simples: criar factos no terreno para justificar ataques e ocupação de território.

Há sempre um “casus belli” em todas as guerras. Quando não há, mas a vontade de guerrear é muita, inventa-se. A História está cheia de casos de “falsa bandeira”, assim chamados porque são acções hostis cometidas com a intenção de atribuir responsabilidade a quem não é o verdadeiro responsável por essas acções e de modo a justificar decisões extremas contra quem parece ser o responsável. Na Síria, são muitos os sinais que apontam nessa direcção. O antigo inimigo sírio (Assad + Hezbollah + Irão) já não está no poder, mas Israel transferiu para o novo poder de Damasco o carimbo de “terrorista” com que catalogava o regime da família Assad.

Israel não perdeu tempo

Desde logo é bom recordarmos que ainda o ex-presidente sírio não tinha chegado a Moscovo, para onde fugiu depois de os rebeldes conquistarem Damasco, e já Israel atacava bases sírias, destruindo qause toda a infraestrutura militar síria, com o argumento de que as armas aí existentes não podiam cair nas mãos de grupos terroristas (os que tinham derrubado Assad). Depois, os ataques israelitas continuaram e atingiram também bases militares onde a Turquia pretendia implantar-se num declarado apoio ao novo regime sírio. Aliás, ainda com Assad no poder, os ataques israelitas durante os últimos anos foram o “pão nosso de cada dia”. Se agora visam um poder que é sunita, então visavam um poder xiita apoiado pelo Irão e pelo Hezbollah libanês.

Drusos e “grupos descontrolados”

Os drusos na Síria são cerca de 3% da população. Nos últimos dias, combates entre drusos e grupos armados aliados do governo sírio já provocaram cerca de uma centena de mortos. Estes grupos armados, referidos como sendo aliados do novo poder em Damasco, são grupos em relação aos quais parece que o presidente sírio, Ahmed Husseion Al-Sharaa, tem alguma dificuldade de controlo. As novas autoridades de Damasco ameaçaram levar à justiça os responsáveis por estes confrontos e esse é um sinal de que as “ordens” não terão partido de Damasco.

Aliás, um dos desafios que Al-Sharaa enfrenta é precisamente o de conseguir que todos os grupos que combateram e derrubaram Bashar Al Assad sob o guarda-chuva do HTS (Hayat Tahrir Al Sham) respeitem a sua liderança. São grupos de diferentes origens, contam com diferentes apoios e, provavelmente, também participaram na tomada de Damasco com diferentes objetivos.

O isco

A fagulha que terá acendido a violência dos últimos dias foi uma alegada mensagem de um clérigo/líder druso que circulou nas redes sociais e que alguns destes grupos armados “descontrolados” consideraram insultuosa para o Profeta Maomé. A Autoridade Espiritual Drusa de Jaramana (uma das cidades onde se registaram combates, a sul de Damaasco) condenou a gravação dizendo que foi fabricada para incitar a divisão entre os sírios. Seja como for, os grupos armados acima referidos, atacaram as comunidades drusas com base nesse “insulto” feito ao profeta, seja porque acreditaram no que ouviram e não suspeitaram que podia ser falso, seja porque lhes agradou ter um motivo para atacar os drusos. Em Jaramana e em Sahnaya (a sul de Damasco), os combates terão provocado quase uma centena de mortos. Não se sabe quem produziu a mensagem que incendiou os ânimos mas, em termos políticos, o que aconteceu prejudica principalmente o novo poder em Damasco.

Israel

Dizendo querer defender os drusos, Israel lançou vários ataques aéreos na zona onde decorreram os confrontos (pelo menos duas pessoas morreram) e ameaçou continuar se a comunidade drusa voltar a ser atacada.

Benjamin Netanyahu e o ministro da defesa de Israel, Israël Katz, confirmaram os ataques a um “grupo extremista” que se preparava para atacar a população drusa de Sahnaya e o exército israelita anunciou prontidão para novos ataques.

Numa declaração carregada de cinismo – como se os palestinianos em Gaza não estivessem a ser massacrados e Israel não estivesse a ignorar todos os apelos internacionais para parar o massacre – o ministro dos negócios estrangeiros israelita, Gideon Saar, apelou à comunidade internacional para “proteger as minorias na Síria – em particular os drusos – do regime e dos seus grupos terroristas” e para “não fechar os olhos aos acontecimentos difíceis dos últimos meses”.

Desde a queda de Bashar AL Assad, Israel tem tentado captar a simpatia da comunidade drusa, em particular nas zonas próximas dos Montes Golan, cuja área desmilitarizada foi (em dezembro de 2024) ocupada por Israel, que ainda estendeu a sua presença para território que é do controlo exclusivo do governo sírio. Por exemplo, em Quneitra, no sudoeste da Síria, junto à fronteira com Israel, o exército israelita instalou check-points como se estivesse no seu próprio território. Até agora, o presidente sírio tem optado pelo (quase) silêncio, dizendo que a Síria não quer problemas com os vizinhos e que a Síria não será uma ameaça para nenhum deles.

Michel Horowitz, um analista de relações internacionais citado pela Agência France Press, considera que “ao colocar-se como protector da comunidade drusa, Israel espera desde logo encontrar aliados locais, particularmente no sul da Síria, mas também espera ter peso na balança num momento em que o futuro da Síria continua incerto”.

Ainda durante os combates nas zonas drusas (e cristãs) o governo sírio disse que quem atacou os drusos são grupos “fora da lei”, reafirmou o compromisso de proteger todo o povo sírio, incluindo a comunidade drusa e condenou qualquer ingerência estrangeira (sem referência directa aos ataques israelitas).

Significado da protecção israelita

Com maior experiência sobre o que significa a presença de Israel na região, o líder druso libanês, Walid Jumblatt, apelou aos drusos sírios para “rejeitarem qualquer ingerência israelita” e alertou: “Israel prossegue o seu plano de longa data (…) de dividir a região em entidades sectárias e espalhar o caos”. Até agora as lideranças drusas na Síria têm rejeitado esse “apoio” israelita.

Hikmat al-Hajri, líder druso na Síria. Foto publicada pela Hawar News Agency

Três dias depois de terem começado os confrontos, e depois de representantes drusos terem reafirmado o compromisso com a unidade da Síria, rejeitando as ameaças israelitas contra o novo poder sírio, o líder espiritual dos drusos da Síria, sheik Hikmat Al-Hijri, denunciou “uma campanha genocida injustificada” contra civis e pediu “uma intervenção imediata de forças internacionais”: “Já não temos confiança numa entidade que pretende ser um governo (…) um governo não mata o seu povo recorrendo às suas próprias milícias extremistas e dizendo, depois dos massacres, que são elementos descontrolados (…) um governo protege o seu povo”.

Em reacção a esta declaração, o ministro dos negócios estrangeiros sírio, Assaad Al-Chaibani, disse que “qualquer apelo a uma intervenção estrangeira, sob qualquer pretexto, levará à deterioração da situação e a mais divisões” entre os sírios.

Memória drusa

Em Julho de 2024, Benjamin Netanyahu fez uma aproximação à comunidade drusa em Majdal Shams, nos Montes Golan ocupados, quando um ataque do Hezbollah (que negou a autoria) matou 12 crianças drusas. O primeiro-ministro israelita foi ao funeral dizer que “eram as nossas crianças”, teve um líder druso ao lado, mas a comunidade manifestou-se contra a presença de Netanyahu e muitos deram a cara às televisões dizendo que não era bem-vindo. Acusaram Netanyahu de ser mentiroso, corrupto e de aproveitar a morte das crianças drusas para aparecer mais uns momentos na televisão.

Israel e a segurança das suas fronteiras

Israel não tem fronteiras internacionalmente reconhecidas, mas julga-se no direito de impor aos países vizinhos a forma como cada um deles deve dispor as forças armadas no seu próprio território. Exige que estejam longe das fronteiras partilhadas, porque, considera o governo israelita, colocam em causa a segurança do Estado de Israel.

A estratégia, dissimulada, assenta no princípio de que tudo o que Israel considere perigoso para a sua defesa e soberania, tem de ser varrido. A bem ou a mal. É assim no Líbano, onde Israel não quer o Hezbollah a sul do Rio Litani (a cerca de 30 km da fronteira com Israel); é assim, agora, também na Síria; é assim em Gaza; é assim na Cisjordânia; é assim também no Egipto e na Jordânia (não é por acaso que são os dois únicos países árabes com Tratados de Paz com Israel). No Egipto, o avultado apoio anual que é enviado de Washington tem como objetivo primeiro a protecção que o Egipto deve fazer da sua fronteira com Israel; na Jordânia, destina-se a manter a população de origem palestiniana “na ordem”, a conter qualquer organização hostil a Israel (Irmandade Muçulmana acaba de ser proibida no país) e, claro, a manter a fronteira segura.

Para que o plano de Israel seja concretizado na perfeição, falta acabar com o “problema palestiniano” e resolver a questão síria e libanesa (dois países tecnicamente em guerra com Israel), dois países em que, se houver divisão e conflitos internos, tanto melhor para Israel. No Líbano, a guerra enfraqueceu o Hezbollah; na Síria, a queda de Bashar Al-Assad é vista como uma janela de oportunidade. O que Israel ainda não percebeu é que a boa vizinhança nunca se constrói à força. A não ser que se extermine os vizinhos e, nesse caso, o “quintal” apenas terá um dono. Qualquer perspectiva de segurança conseguida à força será sempre uma mera ilusão.

Pinhal Novo, 02 de Maio de 2025

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