
Temos todos na memória as palavras do então ministro da defesa de Israel, Yoav Gallant, logo após o ataque do Hamas a 7 de Outubro de 2023: “Estamos a impor um cerco completo a Gaza. Não haverá electricidade, nem alimentos, nem água, nem combustível. Tudo será fechado. Estamos a combater contra animais humanos (human animals) e estamos a agir em conformidade”. Mais de dois milhões de pessoas ficaram então privadas durante longos meses de bens essenciais à sua sobrevivência.
Agora, uma semana depois de ter cancelado a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza – ao arrepio do acordo de cessar-fogo – o ministro da energia, Eli Cohen, assinou a ordem para cancelar, imediatamente, o fornecimento de energia ao território palestiniano. Esta decisão tem influência directa no acesso a água potável porque a única linha de electricidade entre Israel e a Faixa de Gaza alimenta a principal unidade de dessalinização de água em Gaza e serve cerca de 600 000 pessoas, segundo a Agência France Press.
Entretanto, o gabinete de Benjamin Netanyahu faz saber que Israel aceitou a extensão da primeira fase do acordo de cessar-fogo, proposta pelos Estados Unidos, que deve estender-se durante o Ramadão e até final da Páscoa judaica, em meados de Abril.
Por outro lado, depois de uma recente visita aos Estados Unidos, o ministro das finanças de Israel, Bezalel Smotrich (extrema-direita), anunciou que o projecto da “Riveira do Médio Oriente”, anunciado por Donald Trump, “está a ganhar forma” e está a ser coordenado com a Administração norte-americana, especificando que é necessário “identificar os países de acolhimento” e que será um processo “muito, muito, muito demorado”. Para tal, vai ser criada uma autoridade/agência de imigração no ministério da defesa porque será “uma operação logística importante” que tem “o potencial de criar uma mudança histórica no Médio Oriente e para o Estado de Israel”.
Estas são as três linhas estratégicas de Israel, depois de incumprir o que estava estabelecido no acordo de cessar-fogo, nomeadamente negociar a segunda fase do acordo a partir do 16º dia da primeira fase: cortar o fornecimento de electricidade a Gaza; defender o prolongamento da primeira fase do acordo; e acenar com a limpeza étnica dos palestinianos de Gaza.
Israel tenta fazer passar a ideia que é o Hamas que não quer negociar e não quer estender o cessar-fogo porque recusa prolongar a primeira fase, mas Israel já devia ter percebido que a pressão que tenta exercer não é propriamente algo com que o Hamas não saiba lidar. Se dúvidas houvesse, o acordo de cessar-fogo em vigor, que Benjamin Netanyahu acabou por aceitar, foi mais ou menos o mesmo que estava proposto desde Maio do ano passado pela Administração de Joe Biden. Não foi o Hamas que cedeu, foi Netanyahu. E se tivesse assinado o acordo mais cedo, provavelmente mais reféns israelitas teriam sido salvos, porque teriam sido poupados a vários meses de bombardeamentos.
Uma coisa é negociar e avançar para a segunda fase do acordo de cessar-fogo; outra coisa, bem diferente, é estender a trégua correspondente à primeira fase desse mesmo acordo e pretender obter ganhos que deveriam ser negociados para fazer o acordo entrar na segunda fase.
É preciso equidistância no olhar para o que está em causa. Olhar não apenas da perspectiva israelita, mas também da perspectiva do Hamas. Em todas as guerras, a não ser que uma parte extermine a outra, os acordos e a paz fazem-se com o inimigo.
Aqui chegados, e para além da pressão natural em tempo de negociações, alguém pode pensar que o Hamas vai aceitar entregar todos os reféns sem ter garantias de que a guerra termina e não haverá limpeza étnica? Ou, colocando a questão de outra forma: se a guerra não vai terminar e se os palestinianos vão ser expulsos de Gaza, o que tem o Hamas a perder?
O Acordo de cessar-fogo
No acordo assinado, que deu origem ao cessar-fogo, está estabelecido – ao que se sabe – que na segunda fase do cessar-fogo, todos os reféns israelitas serão libertados em troca por prisioneiros palestinianos (em número a determinar), Israel retira as forças militares da Faixa de Gaza e será discutido o fim da guerra. É isto que foi assinado e é isto que o Hamas diz estar disposto a manter e a negociar conforme está previsto. A extensão da primeira fase do cessar-fogo e a “limpeza étnica” anunciada por Donald Trump, são elementos perturbadores que apenas servem para prolongar a guerra e manter Benjamin Netanyahu no poder.
Se Israel quer rasgar o acordo que deu origem ao cessar-fogo que teve início a 19 de janeiro, deve dizê-lo claramente. Porque os acordos também se rasgam e Israel tem esse direito. Tudo o resto são subterfúgios que não vão ajudar à libertação dos reféns nem ao fim da guerra. Ao que parece, apesar da retórica, o governo de Benjamin Netanyahu não está muito preocupado com os reféns – acusação feita por muitos israelitas – preferindo continuar uma guerra que é o garante da sobrevivência política do primeiro-ministro.
Só há um Plano para Gaza
Por agora, o único verdadeiro Plano para o futuro da Faixa de Gaza foi apresentado pela Liga Árabe e apoiado pela Organização de Cooperação Islâmica. Os países árabes e muçulmanos responderam ao desafio da Administração norte-americana para apresentarem um plano alternativo à “Riviera do Médio Oriente” proposta por Donald Trump. Curiosamente, o que não se conhece é o plano de Trump que se limitou a anunciar essa ideia de “Riviera”, sem dizer em concreto como seria concretizada, desde logo porque não há países dispostos a receber os palestinianos que Trump quer expulsar. Tal como não se conhece o plano de Benjamin Netanyahu que, precisamente por não ter qualquer plano, agarrou-se desesperadamente à ideia de Donal Trump.
