
Foi a 27 de Julho. Um ataque a Majdal Shams, matou 12 crianças entre os 10 e os 16 anos. Esta pequena cidade drusa com cerca de 11 000 habitantes, fica nos Montes Golan, território sírio ocupado por Israel desde 1967. Israel acusou o Hezbollah de ser o responsável pelo ataque; o Hezbollah refutou a acusação. É nisto que estamos, até hoje, sem possibilidade de dizer quem fala verdade, sendo certo que o Hezbollah quando efectua um ataque assume a responsabilidade.
O problema é que este ataque que vitimou as doze crianças drusas não encaixa na lógica política e militar do Hezbollah. O Movimento libanês ataca alvos israelitas, militares ou civis, mas não considera uma aldeia drusa, nos Montes Golã, ilegalmente ocupados e anexados por Israel, como um alvo militar.
Massacre aproveitado para justificar ataque ao Hezbollah
Coloca-se a questão de saber quem disparou o rocket. Ou, se quem o disparou, cometeu algum erro que levou o rocket a atingir o alvo errado.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel apressou-se a dizer que o “massacre” do Hezbollah tinha cruzado todas as “linhas vermelhas” acusando o Movimento xiita libanês de “não ser um exército que combate contra outro exército, mas uma organização terrorista que dispara deliberadamente contra civis”, parecendo esquecer as imagens diárias de milhares de civis mortos por ataques israelitas na Faixa de Gaza.
Daniel Hagari, porta-voz das Forças de Defesa de Israel, disse que foi “o pior ataque contra civis israelitas depois do 7 de Outubro e o gabinete do primeiro-ministro israelita emitiu um comunicado a prometer que o Hezbollah pagaria um preço elevado, que nunca tinha pago até este ataque. Hagari esqueceu o que a AFP lembrou: muitos drusos que vivem na região dos Golan mantêm a nacionalidade síria (apesar da ocupação israelita desde 1967, uma ocupação não reconhecida internacionalmente – com excepção de Donald Trump, em 2019), podem trabalhar e estudar em Israel, mas não têm direito de voto. Israel quer que os drusos sejam cidadãos de Israel, mas um largo número de drusos dos Montes Golan não aceita a nacionalidade israelita.
Netanyahu indesejado
O próprio Netanyahu foi a Majdal Shams prometer que o Hezbollah pagaria severamente o ataque à aldeia drusa. De facto, pouco depois, um ataque israelita nos arredores de Beirute matou o chefe militar do Hezbollah, Fouad Chokr.
Mas nessa visita a Majdal Shams, com que Netanyahu procurou ganhar a simpatia e o apoio dos drusos, as coisas não correram tão bem quanto o primeiro-ministro israelita pretendia. Houve familiares das vítimas que recusaram encontrar Netanyahu e alguns manifestantes drusos, mantidos à distância pela polícia, gritaram “assassino”, “assassino”. Em declarações recolhidas pela AFP houve quem dissesse: “”Nos Golan só queremos paz. Que Netanyahu regresse a casa! Foi por causa dele que a guerra começou!”.
Os próprios líderes drusos de Majdal Shams, que reconheceram a “imensa tragédia”, lembraram que a doutrina drusa, cuja religião tem origem no Islão, “proíbe o assassinato e a vingança sob qualquer forma, proibindo o derramamento de sangue, uma gota que seja, sob o pretexto de vingar os nossos filhos”. Claro que Netanyahu não ouviu, mas há uma declaração oficial da Autoridade Religiosa e Social de Jawlan (designação árabe para os Montes Golan) a dizer isso mesmo: “do nosso ponto de vista monoteísta árabe-islâmico, recusamo-nos a permitir que uma única gota de sangue seja derramada em nome da vingança pelos nossos filhos. A história testemunha que fomos e ainda somos defensores da paz e da harmonia entre os povos e nações, pois a nossa fé proíbe matar e vingar-se em qualquer situação”.
O activista druso Wael Tarabieh do grupo de Direitos Humanos Al-Marsad, sediado em Majdal Shams, diz que os Jawlanis se definem “primeiro como árabes, segundo como sírios e terceiro como moradores das aldeias, com a maioria (exceto aqueles que vivem em Ghajar, que são alauítas) pertencendo aos unitários drusos-muçulmanos (Al-Muwahhidun).
O ataque a esta pequena cidade drusa é o que habitualmente designamos por “uma história mal contada”. Um dia saber-se-á a verdade.

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