O Iraque à procura do futuro

O decreto do Presidente do Iraque, Barham Salih, de 30 de Dezembro de 2021, a convocar a primeira reunião do parlamento eleito para o dia 9 de Janeiro. Fonte: Presidência iraquiana.

Domingo, 9 de Janeiro, o Parlamento do Iraque que resulta das eleições de 10 de Outubro reúne-se pela primeira vez. O bloco sunita vai indicar Mohammed al-Halbousi para mais um mandato como presidente do parlamento. Se o acordo em vigor for respeitado – Presidente da República curdo, Primeiro-ministro xiita e presidente do parlamento sunita – Halbousi será eleito, mas nada está garantido tendo em conta a complexa situação política. De seguida, o Presidente da República também terá de ser eleito para então nomear um Primeiro-ministro do partido mais representado (o bloco xiita de Moqtada Al Sadr), que terá de formar um governo no prazo de 30 dias.

Como sempre tem sido desde as primeiras eleições pós-invasão de 2003, nenhum partido político conseguiu a maioria absoluta. Tudo tem de ser (longamente) negociado, e tudo negociado em simultâneo.

Desde que os resultados das eleições foram conhecidos, as forças políticas têm mantido um sem-número de reuniões e todo o tipo de rumores e boatos tem circulado, “anunciando” até as alianças mais improváveis. Certo é que o cenário apresenta-se muito complicado com os nacionalistas xiitas de Moqtada Al Sadr a quererem impor um Primeiro-ministro. O problema é que Moqtada Al Sadr (que faz lembrar o presidente francês Emmanuel Macron, embora num diferente contexto, quando disse “ni à gauche ni à droit” – nem à esquerda nem à direita) afirma “Nem Oriente nem Ocidente”, querendo com isto dizer que pretende um Iraque independente, afastado da influência de países ocidentais e da “mão” do Irão na política iraquiana.

As eleições, a “rua” e o poder das milícias

Se o resultado eleitoral – o maior partido com 73 deputados em 329 – permite ao líder nacionalista fazer a exigência de ter um Primeiro-ministro, no terreno não é assim tão fácil. As Forças de Mobilização Popular, constituídas por milícias pró-Irão, sofreram uma estrondosa derrota eleitoral mas dominam grande parte das instituições e das forças militares, tendo conseguido uma forte implantação no país na sequência da luta contra o Estado Islâmico (ISIS). Os protestos que lideraram contestando os resultados eleitorais são a prova de que não vão aceitar uma solução política que se desvie do objetivo iraniano de influenciar a política interna iraquiana.

A incerteza política relativamente às soluções que forem desenhadas no parlamento eleito, cruzam-se também com a “rua iraquiana” que deu fortes sinais de ter encerrado um longo período de submissão às decisões do poder instalado em Bagdad. Os protestos que, durante muitos meses, antecederam as eleições de Outubro, custaram a vida a centenas de iraquianos, conseguiram poucos ou nenhuns resultados concretos, mas ainda assim houve uma mudança do sistema eleitoral e alguns candidatos independentes foram eleitos. Se o Iraque não conseguir encontrar um governo que dê resposta aos problemas concretos das pessoas, poderá ser um governo com os dias contados.

A juntar a tudo isto e apesar de não serem notícia com destaque no ocidente, os episódios de violência continuam. Desde os ataques de células do ISIS a ataques com origem étnica e tribal, ou até familiar, o Iraque continua a viver dias muito violentos.

Tempo de fazer escolhas

Falta saber como será possível conciliar os interesses dos cidadãos iraquianos – emprego, serviços públicos, redução da pobreza – com os interesses do Irão e da classe política iraquiana, cuja aura de corrupção torna difícil acreditar numa eventual regeneração.

É este o desafio maior que o Iraque enfrenta: um governo que sirva os interesses do povo iraquiano (apenas 44% votaram nas eleições de Outubro), enfrentando em simultâneo agentes, internos e externos, cujos objetivos são completamente alheios e indiferentes às necessidades de um povo que depois de ter sofrido às mãos de Saddam Hussein, sofre agora às mãos de governantes incapazes.

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