Líbia: uma centena de candidatos às presidenciais

Misrata, Líbia, onde estão sediadas as milícias que mais combateram as forças de Mohammar Kadhafi, no início da revolta em 2011 e de onde é natural o Primeiro-ministro do actual governo interino. Foto: arquivo jmr, setembro de 2011.

A situação política na Líbia tem tudo para descarrilar. Depois de alguns meses em que houve uma ilusão de paz – ou uma interrupção da guerra – os sinais dos últimos dias indicam que muito provavelmente ainda não vai ser agora que será fumado o cachimbo da paz. Desde logo porque ainda não há qualquer sinal de entendimento sobre a lei que regula as eleições (nem todas as facções e protagonistas aceitam a lei aprovada pelo Parlamento de Tobruk), não se sabe que poderes vão ter os eleitos e que tipo de sistema vai vigorar (presidencial, parlamentar, semi qualquer coisa…) e por fim há quase uma centena de pessoas que pretendem ser eleitas para as mais altas funções do Estado. Como se tudo isto não chegasse, demitiu-se o emissário das Nações Unidas para a Líbia. A Líbia volta a caminhar para uma “tempestade perfeita”.

É arriscado afirmar que é inédito, mas 98 pessoas (96 homens e duas mulheres) a formalizarem uma candidatura a eleições presidenciais é algo de que não tenho memória (eventualmente por ignorância). Deve ser um recorde de candidatos a uma eleição presidencial. Os dossiês ainda vão ser analisados pela Comissão Eleitoral e depois se saberá quantos vão apresentar-se a votos.

Motivações

Este número de candidatos revela desde logo como o país está dividido. E não é uma divisão entre meia-dúzia de visões ou propostas em relação ao futuro da Líbia, é uma divisão que retrata um Estado falhado em que as pessoas se agruparam em redor de senhores da guerra, que controlam milícias e tribos que repartem entre elas o território e as respectivas riquezas. Cada um procura marcar terreno e os resultados eleitorais podem fornecer argumentos para o futuro. Para além disso, com um número tão elevado de candidaturas, é impossível saber se as candidaturas resultam de uma vontade genuína de ser Presidente – é um direito legítimo de qualquer cidadão líbio – ou se são candidaturas apenas com o objetivo de desestabilizar ainda mais o país, ou ainda se são manobras orquestradas por interesses estrangeiros presentes na Líbia, é difícil de avaliar.

Candidatos

Entre os nomes mais conhecidos que se querem apresentar a votos está Saif Al-Islam (um dos filhos de Mohammar Kadhafi), o marechal Khalifa Haftar (homem forte da região Este da Líbia), Aguila Saleh (Presidente do Parlamento), Fathi Bachaagha (antigo Ministro do Interior) e Abdel Hamid Dbeibah, actual Primeiro-ministro, empresário considerado próximo da Turquia. O actual Primeiro-ministro apresentou a candidatura, mas a lei (a tal que não é aceite por todos os protagonistas) obriga a que todos os candidatos que ocupem funções públicas suspendam funções três meses antes das eleições. Isso não aconteceu com Abdel Hamid Dbeibah (esteve na conferência de Paris a 12 de Novembro) e, sendo um forte candidato, pode fazer descarrilar o processo eleitoral se os outros candidatos se sentirem prejudicados.

As duas mulheres candidatas são Laila Ben Khalifa, fundadora e líder do partido político “Movimento Nacional” e Hounayda Al-Mahdi, investigadora na área das ciências sociais.

Estão inscritos para votar 2.83 milhões de líbios.

Demissão de emissário da ONU

É neste cenário de incerteza que é conhecida a demissão do emissário da ONU para a Líbia. Depois de quase um ano até o Conselho de Segurança aprovar em Janeiro o nome de Jan Kubis (proposto por António Guterres), é o próprio emissário que se demite. Conseguiu aguentar um frágil cessar-fogo, sempre a ameaçar derrapar, e conseguiu que fossem marcadas as eleições mas acabou por “bater com a porta” e, por agora, sem que se conheçam os motivos. Nos corredores diplomáticos fala-se que não sentia apoio suficiente. Jan Kubis é um diplomata experiente que esteve anteriormente no Líbano, Iraque e Afeganistão, e foi secretário-geral da OSCE. Uma divisão no Conselho de Segurança da ONU sobre a relocalização do posto de emissário especial (de Genebra para Tripoli), à qual Jan Kubis se opunha, poderá ter contribuído para a decisão. A divisão no Conselho de Segurança é aliás uma extensão da situação no terreno relativamente à qual as grandes potências fazem leituras diferentes. Falta saber quem irá agora ser indicado pelo secretário-geral, António Guterres, para liderar um processo em que a ONU tem um papel fundamental e que ainda muito recentemente recebeu forte elogios.

Ler também: https://meumundominhaaldeia.com/2021/11/21/libia-sera-desta-parece-que-nao/

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