As guerras de Erdogan

Recep Tayyip Erdogan, Presidente da Turquia. Foto in https://en.zamanalwsl.net

A Turquia parece que não se cansa de somar conflitos, embora com níveis de intensidade e envolvimento diferentes. Depois do envolvimento na guerra na Síria, dos frequentes bombardeamentos na região curda, no Iraque, da intervenção declarada na guerra na Líbia, o conflito com a Grécia (e Chipre) por causa dos hidrocarbonetos e das fronteiras marítimas no Mediterrâneo, a Turquia também interfere, agora, no conflito no enclave de Nagorno-Karabakh. Evidentemente, ao lado do Azerbaijão, porque para além da pedra-no-sapato que a questão Arménia representa para a Turquia, há a identidade cultural e histórica com o Azerbaijão e ainda essa outra questão à qual a Turquia é hipersensível e que é a perda de território que o enclave representa para Baku. No passado, a Turquia sabe o que é perder território e, daí, o não querer, no presente, nem ouvir falar no Curdistão.

Há quem aponte a Recep Teyyip Erdogan uma tentação de contornos imperiais; outros preferem a justificação tradicional dos inimigos externos necessários para alimentar um espírito nacionalista que favorece Erdogan, já desgastado por tantos anos de poder; outros ainda olham para a intervenção turca em várias frentes como uma forma de marcar uma posição forte a nível regional, quando Irão, Arábia Saudita e até o Egipto, têm o mesmo objectivo. 

O Presidente Erdogan joga em vários tabuleiros e, por vezes, torna-se difícil distinguir, no início de uma determinada jogada estratégica, qual será, de facto, o seu objectivo final. 

Neste momento – e desde há muito – a Turquia mantém bases militares no Curdistão iraquiano e, agora, também no Curdistão sírio; combate o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), na Turquia, e principalmente no Iraque, mas mantém boas relações com o Governo Regional do Curdistão; combate as YPG sírias (Unidades de Protecção Popular), que foram aliadas do ocidente no combate ao Estado Islâmico e também combate o Governo de Bashar Al Assad, mas é aliada de milícias sírias de génese islâmica; a fronteira turco-síria foi uma porta escancarada aos rebeldes que começaram a combater Assad e a tudo o mais que era preciso fazer passar entre os dois países; a Turquia foi também (tal como outros países da região), porta de entrada de petróleo do Estado Islâmico, sendo que de forma nunca oficial e sempre com o argumento de que se tratava de contrabando – aliás, a fronteira turco-iraquiana sempre foi ponto de passagem de petróleo de contrabando; na Líbia, a Turquia aliou-se ao governo de Tripoli (apoiado pela ONU), enviando milícias que tinha na Síria, para combater um outro governo líbio instalado no leste e que tem no Marechal Khalifa Haftar o líder de guerra – um posicionamento que lhe permitiu um acordo com o governo de Tripoli para uma zona económica exclusiva que vai da costa sul da Turquia até à costa da Líbia. Este acordo choca com um outro, assinado entre a Grécia e o Egipto. Aqui chegados, percebemos mais facilmente o que está em jogo no Mediterrâneo oriental.

Em termos geográficos, se a Turquia não quer, ou não pode, expandir influência e poder para ocidente – a União Europeia diz que as conversas com Ancara para uma adesão à União Europeia, estão em “ponto-morto” – para oriente também não o pode fazer, porque aí encontra o poder da Federação Russa e, já se viu, desde o que aconteceu na Geórgia e na Ucrânia, Moscovo não está para brincadeiras e não vai permitir veleidades na sua vizinhança próxima. Mesmo agora, no conflito de Nagorno-Karabakh, foi em Moscovo que Azerbaijão e Arménia negociaram o recente (e já violado) cessar-fogo. Vladimir Putin já mostrou quem manda naquela região. Assim sendo, resta à Turquia tentar retomar para a sua esfera de influência: a região do antigo Império Otomano. 

É certo que passou um século desde que Istambul deixou de controlar meio-mundo e também é certo que, entretanto, outros poderes disputam o domínio da região, mas será aí que Erdogan terá terreno para fazer caminho. Aliás, desde a chamada Primavera Árabe que a Turquia não tem feito outra coisa. E outra coisa que nunca deixou de fazer foi a de ser um problema para a NATO, aliança de que é um dos mais poderosos membros: o actual conflito com a Grécia – também membro da NATO, à qual ambos os países aderiram em 1952 – é apenas o exemplo mais recente.

Num Médio Oriente em que a presença dos Estados Unidos é cada vez mais reduzida e em que outros actores tentam conquistar terreno, a tarefa da Turquia não vai ser fácil: o Irão, atacado em várias frentes, tenta solidificar influência em Bagdad, dá sinais de não facilitar uma solução “ocidental” no Líbano e mantém-se firme no apoio a Assad, na Síria, para além de estar a dar cabo dos nervos a Riad e ao “ocidente”, no Iémen; a Arábia Saudita, rendida aos ditames de Washington – assim obriga o affaire Kashoghi – e a fazer asneiras sucessivas na guerra no Iémen, tenta manter o status quo e faz tudo o que possa prejudicar o Irão; o Egipto, está mais preocupado com a Líbia, com o Sinai e também com a situação interna – apesar da “mão-de-ferro” continuam a surgir manifestações contra o regime. Aliás, em relação ao Egipto, o SIPRI, Instituto de Investigação sueco que analisa, entre outras coisas, a compra/venda de armas em todo o mundo, torce o nariz perante os dados de 2019, ao ver o Egipto surgir em nono lugar entre os catorze países do Médio Oriente e Norte de África (MENA), sendo que o Egipto tem o segundo maior efectivo militar no conjunto destes países. Em termos de despesa militar em 2019, a Turquia surge em terceiro lugar, apenas ultrapassada por Arábia Saudita e Israel.

A mesma Turquia, membro da NATO, que compra o sistema de defesa de mísseis S-400 à Rússia, e que por causa disso é afastada do programa dos caças norte-americanos F-35, é a mesma Turquia que na Líbia e na Síria está em campo oposto à Rússia.

Para além das questões consideradas de interesse nacional e que motivam a estratégia de cada país, vejamos os líderes que disputam a influência regional ou estão envolvidos nos conflitos: Erdogan (Turquia); Al Sissi (Egipto); Vladimir Putin (Rússia); Mohammad Bin Salman (Arábia Saudita) e Ali Khamenei (Irão). Presumo que em nenhum destes países possamos dizer que existe uma verdadeira democracia e, por muito que não queiramos, é com estes dados que a situação tem de ser analisada.

Com tudo o que acima é referido, convém sublinhar que na tradicional anarquia das Relações Internacionais, não há bons nem maus e a Turquia faz o que todos os países fazem quando consideram que isso é importante para a sua defesa e segurança, assim tenham oportunidade e meios: tenta conquistar poder e influência, seja através das armas ou através de alianças momentâneas que lhe garantam presença e uma palavra a dizer quando se tomam as grandes decisões. Falta saber se a Turquia terá os meios, os aliados, e o fôlego, para vencer em tantas frentes de batalha. Mas que de há muito é um caso de estudo na política internacional, disso parece que ninguém tem dúvidas.

Pinhal Novo, 13 de Outubro de 2020
José Manuel Rosendo 

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