O mundo sem Tony Blair seria um lugar melhor?

Os argumentos do antigo primeiro-ministro britânico caíram por terra e Tony Blair foi “arrasado” por um relatório sobre a guerra no Iraque. Muito já se sabia, mas agora ficou tudo sitematizado. É revelado um quase “juramento de sangue” que faz de Blair e Bush irmãos gémeos na distribuição de responsabilidade pelo que aconteceu (e está a acontecer…) no Iraque. E o que é que faz a sempre tão badalada “Comunidade Internacional”? Ou será que aquilo a que sempre chamamos de “Comunidade Internacional” é precisamente quem tem a maior responsabilidade na situação do Iraque?
“For all of this, I express more sorrow, regret and apology than you will ever know.” (Por tudo isto, exprimo tristeza, arrependimento e peço desculpas, mais do que alguma vez possam imaginar). Foi esta a reacção de Tony Blair ao “Relatório Chilcot”, o documento divulgado hoje, que demorou sete anos a elaborar e apresenta conclusões sobre a decisão do ex-líder do governo britânico em alinhar com George W Bush na invasão do Iraque em 2003.
Não tendo lido o relatório (cerca de 2 milhões e 600 mil palavras), mas atendendo ao que disse o seu principal responsável, a resposta de Tony Blair e o que está a ser divulgado por fontes de informação que tiveram acesso ao documento, o mínimo que se pode dizer é que o Relatório é demolidor, tanto quanto pode ser um documento deste género em terras de Sua Majestade e em relação a um súbdito.
Desde logo, o relatório diz que, oito meses antes da invasão, Tony Blair prometeu alinhar com George W Bush “aconteça o que acontecer” (“Quoi qu’il arrive”, escrevem os franceses; “Whatever”, escrevem os britânicos) e depois enumera e contextualiza os passos da atribulada caminhada até Bagdad:
– Tony Blair, depois da promessa feita, não mais insistiu com Bush para saber dos planos norte-americanos e envolveu-se numa campanha diplomática contra Saddam Husseín;
– A guerra não foi o último recurso, as opções pacíficas para o desarmamento não foram esgotadas e não havia qualquer ameaça iminente da parte de Saddam;
– As armas de destruição maciça não existiam. As informações eram deficientes. O relatório é cuidadoso nesta matéria (informações) e não formula uma conclusão absoluta. Deixa dúvidas relativamente à forma como as informações foram inseridas no dossiê fornecido a Tony Blair mas sublinha que não foram suficientemente verificadas;
– Quanto à preparação da guerra, não podia ter sido pior: as consequências da invasão foram subestimadas; os recursos eram inapropriados; o governo britânico não considerou a dimensão da tarefa de estabilização do Iraque após a invasão;
– quanto às consequências do afastamento de Saddam Husseín “foram claramente identificadas antes da invasão” mas substimadas pelas chefias militares e políticas;
– 45.000 militares britânicos estiveram envolvidos na guerra e 179 morreram entre 2003 e 2009.
Em resposta a tudo isto, Tony Blair… não responde. Diz algumas coisas que não são respostas porque são argumentos que qualquer governante pode usar em todas as ocasiões: diz que não mentiu, que agiu de boa-fé e em defesa dos interesses do Reino Unido. Pede desculpa, diz que sente pena e tristeza. Acrescenta Blair que o Mundo é um lugar melhor sem Saddam Husseín e que não foi a invasão do Iraque que está na origem da actual vaga de terrorismo. Com tudo o que hoje está confirmado, e que em 2003 era colcoado em dúvida, é legítimo perguntar se um mundo sem Tony Blair não seria um lugar mais seguro.
Ler ou ouvir os argumentos de Blair é algo que nos transporta para o campo do absurdo.
O paradoxo de tudo isto é que Tony Blair (o homem da chamada “Terceira Via” que contaminou os socialistas com o pensamento neoliberal…)  foi o único primeiro-ministro britânico a vencer três eleições.
Pinhal Novo, 6 de Julho de 2016
josé manuel rosendo

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