Não encontrei título para isto…

(Nota prévia: andei à procura de uma fotografia pata ilustrar o texto mas não encontrei)

Hoje, quarta-feira, 15 de Junho de 2016, a rádio pública deixa sair o jornalista Carlos Ramos. Sai porque está saturado, farto, mas a ele caberá, se assim quiser, explicar os motivos da saída.
A mim, cabe-me dizer-lhe obrigado. Temos, cada um, mais ou menos 23 anos de rádio pública. Sempre com um discurso que foge à norma, sempre a pensar o serviço público, sempre com ideias. Ai os bandidos, que andam sempre a dizer mal e prejudicam o sossego da capela.

O Carlos Ramos era uma voz dos noticiários da Antena 3, a sua antena de sempre. Aliás, fizemos parte da equipa de jornalistas que fazia os noticiários da então RDP FM que, depois de um período experimental em 1993, iniciou as emissões regulares no início de 1994 (não me recordo da data exacta). E, já agora, a Antena 3 chamava-se RDP FM porque houve por essa altura uns iluminados que decidiram alterar o nome das várias antenas: a Antena 1 passou a RDP 1 e a nova rádio chamou-se, dentro desta lógica, RDP FM. Felizmente que durou pouco tempo.

Durante 23 anos, eu e o Carlos divergimos muito, mas construímos uma amizade. Discutimos muito, mas convergíamos no objectivo final. Quisemos a utopia para termos a melhor rádio possível.

Passaram muitas administrações e directores disto e daquilo. A rádio pública casou à força com a televisão pública. Assistimos a agressões violentas ao serviço público. Muitos dias, nestes 23 anos, ficámos tristes com as notícias sobre a nossa casa. Muitas vezes sem ninguém a sair a terreiro para defender o serviço público.
O Carlos Ramos defendia o serviço público de rádio (e acho que vai continuar a defender) e quando assim é quem mais perde não é o Carlos, é a rádio de serviço público. Não seria a primeira vez que alguém sai do serviço público para logo a seguir revelar os méritos num qualquer outro sítio. Há sítios onde ninguém esfrega a lamparina e o génio não consegue sair.

Aborrecem-me as redacções silenciosas. Gosto de gargalhadas e “bocas venenosas”. Gosto de “bocas” que agitam. Assustam-me as almas demasiado certinhas e seguidistas. Muitas vezes são almas penadas e mal-intencionadas. Calam-se para não sabermos o que pensam. Não contribuem, não partilham, não criam. O Carlos gostava de rir, gostava de “bocas”, e no meio de tudo isto surgia o ângulo, a abordagem em que ninguém ainda tinha pensado. As nossas conversas eram sempre sobre o trabalho e sobre o jornalismo. Ah… e fumava… e gostava de café.

A rádio pública deixa o Carlos Ramos sair “de mansinho”, mas o Carlos não merece. O Carlos merecia uma palavra por 23 anos de trabalho. Assim deveria ser, mas (parece que) não é. Ainda faltam umas horas.

Se, como escreveu Kapuscinski, “os cínicos não servem para este ofício”, não entendo por que é que a rádio pública deixa sair Carlos Ramos.

Pinhal Novo, 15 de Junho de 2016

josé manuel rosendo

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