A mesa das migalhas

Nunca testei o meu QI por métodos científicos, mas tento sempre aprender em todas as circunstâncias e contextos. O esforço não significa obrigatoriamente que o objectivo seja atingido. Aliás, aprender, aprender sempre, é algo que pouco vale quando o conhecimento é cada vez menos valorizado. Este é o tempo em que toda a gente fala de tudo e mais alguma coisa com ares de grande conhecimento. Esquecem que a dúvida é o princípio da sabedoria? Não, eles sabem tudo e, simplesmente, não têm dúvidas. E entre as opiniões que estes últimos apresentam e as que possam fazer o contraponto, optar pelas segundas será, dizem, o caos.
Tudo isto a propósito de lições aprendidas em sítios por onde tenho passado e onde o sofrimento das pessoas tem características diferentes porque tem origem num contexto social de contornos substancialmente diversos daquele que actualmente enfrentamos nesta crise que nos bate à porta.
Não há muito tempo, num momento de desenvolvimento económico, em Ramallah, uma espécie de capital da Cisjordânia, dizia-me um palestiniano: não queremos apenas ter comer na mesa e dormir à noite sem rusgas israelitas que nos interrompam o sono; não, somos seres humanos e queremos todos os nossos direitos. Isto é: querem a liberdade de existir enquanto Estado soberano e a capacidade de decidir o seu próprio futuro. O mesmo palestiniano ainda dizia: não somos animais, não nos basta ter comer e um sítio para dormir. Resumindo: querem ser gente, por inteiro.
Esta síntese, tão simples quanto elucidativa, transportada para os nossos dias e para o nosso sítio coloca-nos uma questão fundamental: queremos ser gente ou apenas queremos ter comer na mesa e um sono tranquilo? Estou certo que há uma fatia grande de nós que quer mesmo ser gente; estou certo que muitos de nós são inteligentes; mas também estou certo que o superficialismo alegadamente pragmático de alguns nos empurra para uma mesa de migalhas e para um sono que não será o dos justos mas o dos submissos, sem bandeira nem valores. Cada um escolhe a sua mesa e a sua cama.
josé manuel rosendo
Pinhal Novo, 9 de Novembro de 2012

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