Parece que os Curdos não se deixaram enganar…

Combatentes curdos iranianos, campo Yarmook (Curdistão iraquiano) durante a guerra contra a organização Estado Islâmico, Novembro de 2016. Foto: jmr/arquivo

Já lá vão três semanas de guerra contra o Irão. O presidente norte-americano, Donald Trump, disse que gostaria de ver os curdos iranianos alinharem na ofensiva contra o regime iraniano, e surgiram informações, entretanto desmentidas, de que a CIA estaria a armar e a preparar os grupos curdos iranianos, que estão no Iraque, mas os curdos não mexeram uma bota. Aliás, só mesmo na cabeça de Donald Trump, uma milícia de poucos milhares de homens e mulheres (não se sabe ao certo quantos são), como é o caso dos curdos iranianos, poderia representar um aliado de peso para enfrentar forças militares e paramilitares iranianas com uma sólida estrutura organizacional e que se preparou longamente para esta guerra. O próprio Governo Regional do Curdistão iraquiano, onde estes grupos iranianos estão refugiados, recusou que o seu território possa ser utilizado para lançar ataques ao Irão.

São conhecidas as declarações de líderes curdos iranianos que admitem ter uma oportunidade nesta guerra, mas até agora impôs-se o pragmatismo. Alguns destes dirigentes curdos sonham com uma zona de exclusão aérea, como foi feito no Iraque em 1991, depois da Guerra do Golfo, precisamente para proteger os curdos do governo de Saddam Hussein. Para além disso, está fresca na memória a situação na Síria, onde os Estados Unidos permitiram às forças governamentais desencadear uma ofensiva que reverteu as conquistas territoriais e de autonomia dos curdos.

Os curdos iranianos não obtiveram qualquer garantia de Donald Trump para o futuro da comunidade perante a eventual queda do regime iraniano e, por outro lado, a entrada dos curdos nesta guerra, poderia levar a um reforço do nacionalismo persa se tivermos em conta que o próprio círculo de Reza Pahlavi (filho do antigo Xá) considera os curdos como uma força separatista.

Ainda antes do ataque ao Irão, vários partidos curdos iranianos formaram uma Aliança para fortalecer a unidade e enfrentar a guerra que já tinham como certa. Anunciaram então que o objectivo é desenvolver a coordenação política e de acção no terreno, organizar uma luta conjunta pela democracia, justiça e direitos nacionais do povo curdo no Irão e no Curdistão Oriental (Rojhelat).

Aliança de partidos curdos iranianos formalizada antes do ataque ao Irão.

Os curdos perceberam, a tempo, que esta guerra não é deles e, até agora, conseguiram evitar ser arrastados pela ilusão de que podem tirar algum benefício para a causa da autonomia curda. Não se sabe como a guerra vai terminar, mas os curdos perceberam que este não é o momento deles.

Por enquanto, tentam escapar aos bombardeamentos iranianos e também das milícias iraquianas pró-Irão que têm fustigado o Curdistão iraquiano. A capital, Erbil, mas também a região de Sulaymaniyah e toda a zona dos dois lados da fronteira irano-iraquiana, têm sido fortemente atingidas. O foco não tem estado no Iraque, mas o país pode partir-se com o evoluir desta guerra e está particularmente frágil com o impasse na formação de um governo (as eleições foram a 11 de Novembro de 2025). O processo está parado depois de Donald Trump, ter rejeitado a nomeação do antigo primeiro-ministro Nouri al-Maliki. Para além deste impasse, o país divide-se entre as milícias xiitas pró-Irão (que têm sido atacadas e acusam as forças “israelo-americanas”), as forças militares institucionais que têm a obrigação de defender, por exemplo a embaixada norte-americana (que tem sido atacada) e os curdos (que albergam forças curdas iranianas que têm sido atacadas), que denunciam ataques de drones a instalações militares dos peshmerga. Longe vai o tempo em que curdos, xiitas iraquianos e norte-americanos combateram, com o mesmo objectivo: derrotar a organização Estado Islâmico.

Pinhal Novo, 21 de Março de 2026

01h30

jmr

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