Memórias da minha querida Beirute

Edifício Barakat, estilo Otomano, também conhecido por Casa Amarela, ficava na “linha verde” que separava cristãos e muçulmanos, durante a guerra civil libanesa. Hoje, designa-se Beit Beirut (A casa de Beirute), é um Museu e Centro Cultural Urbano que preserva as memórias dessa guerra. Foto: jmr/arquivo, NOV2006

Beirute voltou aos dias de caos e de incerteza: nunca se sabe o que pode cair do céu. As minhas memórias mais recentes da capital libanesa são de Outubro de 2024, quando Israel invadiu o sul do Líbano e bombardeou vastas zonas do país com extrema violência, em particular no sul e na zona de predominância xiita de Beirute, atingindo também muitas outras zonas. Nessa altura, a invasão terrestre começou a 1 de Outubro; quase dois meses depois, 27 de Novembro, chegou o cessar-fogo, que nunca foi um verdadeiro cessar-fogo, com Israel a persistir no ataque ao território libanês e a atingir também a força das Nações Unidas.

Por esses dias, a população libanesa fugiu do Bairro de Dahiya e refugiou-se nas zonas de Beirute consideradas mais seguras. Muitos ficaram na rua, em tendas, ou em instituições que os podiam acolher, valendo-lhes as ONG’s, a solidariedade das famílias e de outros libaneses. O Estado libanês não tinha, e não tem, capacidade e meios, para valer a quem precisava.

Commodore

Em Outubro de 2024, ao contrário de outros tempos, em que era local seguro para jornalistas e quase uma central de informação, o Hotel Commodore, a dois passos da célebre e cosmopolita Rua Hamra, revelou-se uma péssima escolha. Estava cheio de famílias próximas, e mesmo, do Hezbollah, com os controleiros do movimento xiita libanês a vigiarem cada gesto, incluindo a posição das câmaras de televisão, muitas vezes colocadas apressadamente na rua para os directos. As abordagens eram constantes, ora com perguntas aparentemente inocentes para início de conversa, ora de forma mais assertiva e até agressiva.

O Commodore é hoje muito diferente, não tendo conseguido escapar a alguma decadência. Mas o pequeno Hotel Mayflower, que tinha como cliente habitual o grande mestre Robert Fisk, embora mais modesto mantém o charme, ajudado pelo Bar Duke of Wellington, com ambiente britânico, também a dois passos da Rua Hamra, centro intelectual dos anos 60/70, a quem, atrevidamente, alguns apelidavam de Campos Elísios de Beirute. A Rua Hamra perdeu o charme, mas mantém a aura. Junto ao Mayflower havia uma livraria onde Sultan el-Bidawi, o livreiro, perdia o tempo que fosse preciso para ajudar a encontrar o livro pretendido.

No Outono de 2024, na rua do Commodore, as pessoas, os bares e as lojas, construíram um retrato muito próximo do Bairro de Dahiya que, na realidade, não é um bairro, mas sim uma extensa zona com vários bairros, entre a cidade e o aeroporto Rafic Hariri. Para entrar em Dahiya, era preciso passar pela vigilância do Hezbollah. Noutras ocasiões de reportagem em Beirute, qualquer carro desconhecido que entrasse na zona de Dahiya, era imediatamente rodeado de motoretas das sentinelas móveis do Hezbollah, até ser forçado a parar para dizer ao que ia. Ultrapassada essa barreira, seguia-se um centro de imprensa, e o trabalho fazia-se, ou não, consoante a disponibilidade daqueles com quem se quisesse falar e dos locais onde quiséssemos ir.

Bairro de Dahiya, Novembro de 2006. Foto: jmr/arquivo

Desta vez, Outubro de 2024, os bombardeamentos israelitas levaram grande parte da população de Dahiya a refugiar-se nas zonas supostamente mais seguras de Beirute, para onde transferiram também o sistema de vigilância, embora mais precário e com vigilantes muito nervosos devido ao receio de infiltração de agentes israelitas. A desconfiança em relação a desconhecidos e estrangeiros era óbvia. E natural.

Livros

Pouco mais de um ano depois, Beirute está outra vez no topo das notícias, como grande parte do Médio Oriente. Para além desse regresso ao topo da actualidade, as memórias de Beirute e do Líbano ganharam força devido à leitura d’“Os Desorientados”, de Amin Maalouf, escritor libano-francês que alguns libaneses consideram um aculturado que não os representa, porque deixou o Líbano ainda na juventude e já vai nos 77 anos. Vive em Paris. Percebo a crítica, mas gosto da escrita de Maalouf. “Os Desorientados” aborda precisamente a história de um grupo de amigos que emigraram devido a outra guerra, a guerra civil libanesa (1975-1990). A distância afastou-os e passados muitos anos retomaram o contacto devido à morte de um deles. As vidas diferentes entre eles, entre os que partiram, os que ficaram, e as cicatrizes que essa escolha deixou, ajudam a perceber as marcas profundas que ficam das guerras, mesmo depois do calar das armas.

Quem nasceu no início dos anos 60 do Séc. XX, entrou na adolescência, passou a juventude e entrou na idade adulta a ouvir os relatos que chegavam de Beirute. Era uma guerra que parecia não ter fim. Essa memória da adolescência criou em mim um fascínio por Beirute! Um fascínio sem grande explicação, porque nada me ligava à cidade ou ao país, mas todas aquelas imagens dos combates e da destruição, do sofrimento, eram também – mesmo sem saber quem tinha razão – imagens de resistência, de luta por uma causa, fosse ela qual fosse.

Algum conhecimento permite, agora, uma leitura diferente, e a idade adulta ajudou a outra descodificação desses acontecimentos. Mas esse fascínio ficou, e sedimentou-se com as reportagens que me levaram até Beirute. Muitas marcas desse tempo ainda estão à vista na cidade, apesar da reconstrução e de outras marcas que ficaram das outras guerras e confrontos que se seguiram à guerra civil.

Outro hotel, o Holiday Inn, é, ainda hoje, um símbolo da guerra civil, palco de lutas fraticidas entre milícias cristãs e palestinianas. Os seus 26 andares eram fundamentais para controlar grande parte de Beirute.

Gosto de passear por Beirute. As casas antigas, muitas a ser recuperadas com a traça original, depois da explosão no porto de Beirute em Agosto de 2020, são uma forte característica da cidade. Gosto do pequeno caos do trânsito, das lojas com horário indefinido, dos restaurantes que não fecham a cozinha fora das horas tradicionais das refeições, das pequenas lojas dos artesãos, dos estúdios dos pintores, da mescla de culturas e origens, do arrazoado das línguas faladas em locais mais frequentados, do chamamento dos muezins, dos pequenos hotéis que nos fazem sentir em casa,

Para além do livro que já referi – e que recomendo – em 2025 foi publicado outro excelente livro, Beyrouth, 13 avril 1975, de Marwan Chahine que tenta encontrar o momento (quem disparou a primeira bala?) e os protagonistas desse dia que é referido como o do início da guerra civil. Ao longo de mais de 500 páginas, ficamos a perceber que a incansável busca de Marwan esbarra em memórias à medida de cada um. Tanto assim que o autor acaba por concluir que, tendo ido à procura de memórias de guerra, acabou a encontrar uma guerra de memórias da qual é impossível tirar uma conclusão.

Amizade

Mas, para além de tudo isto, tenho em Beirute um dos meus melhores amigos e camaradas. Gosto da palavra “camarada” e faço questão de não a banalizar. Conhecemo-nos por acaso, por necessidade de trabalho, quando Beirute, em 2006, estava a ser bombardeada por Israel. Quase 20 anos depois, e depois de termos calcorreado outras guerras, em Outubro de 2024 voltámos a deambular por Beirute no mesmo velho carro, sempre de janelas abertas, de modo a sair o fumo dos meus cigarros e o dos insuportáveis Toscano dele. Não digo o nome dele porque é melhor assim.

Espero que Beirute se livre depressa desta guerra e espero, um dia, poder voltar a Beirute, à minha querida Beirute, em tempo de paz, para poder abraçá-la sem a pressa que o trabalho impõe, vaguear pelas ruas e deliciar-me no pequeno e modesto Le Chef, com verdadeira comida libanesa, servida com simplicidade numa mesa forrada com toalha de plástico.

Pinhal Novo, 10 de Março de 2026

01h30

jmr

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