A quem serve continuar a guerra na Ucrânia?

Mykolaev, edifício da administração regional, 1 de Abril de 2022. Foto: jmr/arquivo

Há precisamente quatro anos, os primeiros veículos militares da Federação Russa, cruzaram a fronteira com a Ucrânia e deram início ao que Vladimir Putin designou “operação militar especial”. A 7 de Fevereiro, duas semanas antes de dar início à invasão, Putin recebeu Emmanuel Macron, em Moscovo, numa reunião que demorou cerca de cinco horas e que ficou célebre (também) pela enorme mesa branca que deixava os dois presidentes a vários metros de distância. Macron saiu a dizer ter conseguido de Putin a promessa de que não seria por vontade ou acções da Rússia que a tensão passaria a um conflito activo. O Kremlin negou que tivessem sido feitas promessas. Macron estava a dois meses da reeleição e à falta de melhor tentava a cartada de ser o fazedor da paz na Europa. Falhou!

Depois disso sabemos o que aconteceu. Quatro anos depois, a Ucrânia está sem apoio dos Estados Unidos e precisa das capitais europeias para obter o apoio que evite a rendição.

Nas “contas” da guerra, um relatório elaborado por Ucrânia/Banco Mundial/União Europeia/Nações Unidas, estima a reconstrução da Ucrânia em 500 mil milhões de Euros; o preço em vidas humanas está por fazer, mas o presidente Zelensky admitiu recentemente a morte de 55 000 militares, sendo que o Centro norte-americano para a Estratégia e Estudos Internacionais estima entre 100 000 e 140 000 militares ucranianos mortos desde 2022. Do lado da Federação Russa, o mesmo Centro admite 325 000 militares mortos. Não há dados concretos e oficiais quanto a vítimas mortais ucranianas e russas e as estimativas apontam ainda para números assustadores de feridos e desaparecidos de ambos os lados. Há ainda os mercenários (voluntários, como lhes chamam…) que, depois de mortos no campo de batalha, muito provavelmente nem um número conseguirão ser.

Quanto a vítimas civis, a Missão de Monitorização de Direitos Humanos da ONU refere que 2025 foi o ano mais mortal: mais de 2 500 mortos e mais de 12 000 feridos, do lado ucraniano.

A ONU refere que quase 25% da população ucraniana (são 40 milhões de habitantes) saiu do país ou foi forçada a deixar o local onde residia.

Impasse no terreno

Perante o desastre, os vários ciclos de negociações não têm produzido resultados. Já se percebeu há muito tempo que a Ucrânia não consegue reconquistar território e que a Rússia não vai ceder. Os avanços e recuos, de russos e ucranianos, são mínimos e temporários. Os dois lados da guerra parecem apostar no cansaço e na fadiga do inimigo, mas as sanções (A União Europeia vai já no vigésimo pacote…) não conseguiram enfraquecer a Rússia e do lado ucraniano a Europa tapou o buraco deixado pelos Estados Unidos, mantendo um apoio que evita a rendição ucraniana.

A Rússia ocupa cerca de 20% do território da Ucrânia, mas já controlava cerca de um terço destes 20% antes de Fevereiro de 2022. Esta ocupação não abrange a totalidade das províncias do Donbass, Donetsk e de Lugansk, e é precisamente a totalidade dessas províncias que Moscovo pretende e que Kiev não quer abrir mão. Aliás, a Rússia ocupa também partes consideráveis nas regiões de Kherson, Zaporijjia, Soumy, Kharkiv e Dnipropetrvsk. Vladimir Putin, dificilmente aceitará sair dos territórios ocupados.

Essa é, aliás, a questão central, não apenas desde 2022, mas desde 2014, ano em que a Rússia anexou a Crimeia: território!

As divisões europeias

O quarto aniversário do início da invasão russa reúne em Kiev vários dirigentes europeus, num momento em que a Hungria está a bloquear o vigésimo pacote de sanções contra a Rússia e, juntamente com a Eslováquia, pretende continuar a receber petróleo russo, o que Kiev quer contrariar. O oleoduto Druzhba, transporta petróleo russo passando pela Ucrânia, servindo a Eslováquia e a Hungria. A Ucrânia diz que o oleoduto foi atingido por um ataque russo, em Janeiro de 2026; a Hungria diz que só aprova as sanções europeias se receber petróleo através do Druzhba; a Eslováquia diz que corta o fornecimento de electricidade à Ucrânia se ficar sem o petróleo russo. Assim está a União Europeia.

Putin não se desvia do rumo

O presidente russo não cede quanto aos objectivos da guerra que desencadeou. Parece ter sempre uma nova carta para colocar em cima da mesa e, desta vez, depois de o Tratado de desarmamento New Start ter terminado, Putin estabelece a “prioridade absoluta” de desenvolver as forças nucleares e de reforçar as forças que combatem na Ucrânia. Putin não vai ceder porque a questão do território é a única que lhe vai permitir dizer que ganhou a guerra, mesmo ficando longe dos objectivos maximalistas: não “desnazificou” a Ucrânia e não fez cair o regime liderado por Zelensky, embora pareça ter conseguido evitar a entrada da Ucrânia na NATO.

Quanto a Volodymyr Zelensky, afirma que a Ucrânia não perde a guerra, mas admite que “a questão é saber se vamos vencer”. O presidente ucraniano diz que ouve o mesmo pedido vindo de Washington e de Moscovo: para a guerra terminar amanhã, temos de sair do Donbass. Ou seja, estão a dizer-lhe que não vai “vencer a guerra”.

Dificilmente haverá outra solução.

Pinhal Novo, 24 de Fevereiro de 2026

01h50

jmr

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