
Foto: jmr/arquivo
Este último dia de Janeiro foi um dia terrível na Faixa de Gaza: pelo menos 32 pessoas morreram, vítimas de ataques israelitas, segundo a Defesa Civil de Gaza. Um posto de polícia, um apartamento e tendas, foram os alvos escolhidos. Em Khan Younes, Israel atacou uma tenda e matou uma família de sete pessoas, entre elas uma criança. O exército israelita, argumenta em comunicado que respondeu a violações do cessar-fogo, acrescentando que, na véspera, oito combatentes palestinianos saíram de um túnel em Rafah. Foi essa a violação de cessar-fogo. Israel diz que os ataques de sábado mataram quatro comandantes e membros do Hamas e da Jihad Islâmica, e atingiram também depósitos e locais de produção de armas. Um responsável do gabinete político do Hamas rejeitou estas acusações e diz que os ataques israelitas são um crime cometido por um inimigo que não respeita acordos nem compromissos.
O cessar-fogo que entrou em vigor a 10 de Outubro, não tem evitado que Israel continue a atacar a parte da Faixa de Gaza para onde os palestinianos foram empurrados, sempre com o argumento de que há violações ou que responde a ameaças para as forças que mantém a ocupar o território.
Desde a entrada em vigor do cessar-fogo, o Ministério da Saúde de Gaza diz que os ataques israelitas já mataram 509 pessoas; o exército israelita diz que morreram 4 militares no mesmo período. Se isto é um cessar-fogo… o que será uma guerra?
O filtro de Rafah
Israel anunciou que vai reabrir, dia 1 de Fevereiro, a fronteira de Rafah, entre a Faixa de Gaza e o Egipto. Mas se o cessar-fogo só existe no papel, a reabertura da fronteira também parece ser apenas uma formalidade para satisfazer algumas exigências internacionais, ficando sob um apertadíssimo controlo israelita.

O Cogat (organismo do ministério da defesa israelita que supervisiona os assuntos civis nos territórios palestinianos ocupados) diz que será uma abertura nos dois sentidos com um movimento limitado de pessoas. As condições impostas são draconianas: os palestinianos vão precisar de uma autorização prévia das autoridades israelitas para entrar e sair da Faixa de Gaza, em coordenação com o Egipto e sob a supervisão da Missão da União Europeia em Rafah; só poderão regressar a Gaza os palestinianos residentes no Egipto que tenham deixado o território durante a guerra; além do procedimento inicial e triagem feita pela missão da União Europeia, haverá um outro momento em que os palestinianos vão ficar sujeitos ao livre arbítrio israelita num corredor específico sob controlo do exército. Estes pormenores foram revelados pelo Cogat às agências internacionais de notícias.
Esta reabertura da fronteira de Rafah, deverá também permitir que os membros do Comité Nacional para a Administração de Gaza (CNAG) entrem no território. Ali Shaath, que foi vice-ministro do Planeamento da Autoridade Palestiniana, será o líder do grupo de 15 técnicos que vai gerir o território durante um período de transição, sob a alçada do tal Conselho de Paz presidido por Donald Trump.
A Riviera e a Nova Gaza
O cessar-fogo teve o efeito perverso de afastar as atenções do mundo. Com o suposto calar das armas (pelo menos no papel assinado) a consciência de alguns actores internacionais sentiu-se confortada, mas nada no território palestiniano mudou assim tanto. Outras preocupações, como a questão da Gronelândia, a guerra na Ucrânia ou a situação na Venezuela, deixaram a questão palestiniana (de novo) adormecida. Donald Trump anuncia agora uma “Nova Gaza” querendo com isso limpar a imagem afectada pela ideia da “Riviera do Médio Oriente”, sendo que não há qualquer diferença entre elas. O “Conselho de Paz” para Gaza, do qual Trump será o presidente eterno e para o qual, quem quiser participar, terá de pagar uma “jóia de inscrição”, só pode ser considerado uma vergonha para o Mundo. Os palestinianos continuam a ser ignorados relativamente ao seu próprio futuro, enfrentando decisões tomadas em Washington por um homem que foi a Davos definir-se como uma espécie de cérebro/mentor de negócios imobiliários: “o importante é a localização. (Referindo-se a Gaza acrescentou) “Vejam esta localização em frente ao mar. Vejam este belo terreno. O que ele poderia ser para tantas pessoas.” É desta forma ignóbil que o presidente dos Estados Unidos olha o Mundo, Gaza e o futuro de dois milhões de pessoas. Quem o acompanhar neste “empreendimento imobiliário” nunca mais terá o respeito de gente decente. Gaza só deverá ser uma “Nova Gaza” ou uma “Riviera” se for essa a decisão do povo palestiniano.
Desde Outubro do ano passado, e enquanto não entra em vigor uma segunda fase do cessar-fogo, o que se sabe é que a ajuda humanitária que tem entrado no território conseguiu acabar com a fome, mas os palestinianos continuam a viver em condições terríveis, agravadas com a chuva e o frio, abrigados em milhares de tendas ineficazes para enfrentar os rigores do Inverno. Continuam sem acesso a mínimos de cuidados médicos e de educação para as crianças. Não é vida.
Pinhal Novo, 01 de Fevereiro de 2026
02h00
jmr
