
Nada de bom espera os curdos da Síria. Em Moscovo, durante a segunda visita desde que conquistou Damasco e enquanto obrigava os curdos a ceder território, Ahmed Al Sharaa ouviu as felicitações de Vladimir Putin: “Quero felicitá-lo pelo facto de o processo de restauração da integridade territorial da Síria estar a ganhar força”. Alguns dias antes, a Rússia retirara tropas do aeroporto de Qamishli (região curda), no nordeste da Síria, e a diplomacia síria fez saber que interpreta o gesto como uma declaração de não envolvimento russo nos combates entre as forças do governo sírio e as Forças Democráticas da Síria (FDS – aliança de forças curdas e árabes). Por outro lado, a Rússia pretende manter a base naval de Tartous e a base aérea de Hmeimim, sabendo que o actual poder sírio considera prioritário redefinir o estatuto da presença militar russa na Síria e olhava para a presença russa em Qamishli como um reforço da legitimidade da Autonomia curda.
A visita de Al Sharaa a Moscovo foi antecedida por uma conversa com Donald Trump. O presidente norte-americano disse que “teve uma excelente conversa com o muito respeitado presidente sírio, e tudo o que diz respeito à Síria e à região está a correr muito bem, e estamos muito felizes com isso”.

Damasco tem assim a aprovação de Moscovo e de Washington para empurrar os curdos para um cantinho da Síria (os dois mapas na foto traduzem a redução de território controlado pelas FDS) e para retirar aos curdos a Autonomia que conquistaram na sequência da sangrenta guerra contra a organização Estado Islâmico.
Há ainda a Turquia, para quem não há nada melhor do que retirar aos curdos qualquer sonho de Autonomia, no entanto, um comandante do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), Murat Karayilan, já avisou: “devem saber que não pode haver paz com os curdos sobre o túmulo de Rojava (assim designam a região curda da Síria)”. O porta-voz do ramo político do PKK, Zagros Hiwa, também avisou: “a nova estratégia – processo de paz PKK-Turquia – não exclui a urgência de nos defendermos contra ataques genocidas”. A voz mais respeitada entre os curdos, Abdullah Öcalan, fundador do PKK, deixou uma nota: a ofensiva do governo sírio é “uma tentativa de sabotar o processo de paz (com a Turquia)”.
Onde estão os amigos dos curdos?
Mais uma vez, os curdos estão sozinhos depois de terem sido úteis ao Ocidente e à Rússia. Nada de novo na história da região: os curdos têm combatido os déspotas (lembremo-nos de Sadam Hussein e também do Califado que aterrorizou o Iraque e a Síria), são encorajados nesse combate, mas quem os encoraja e quem da luta deles beneficia, rapidamente os esquece e descarta, em nome de interesses para os quais os curdos são considerados um empecilho. Na batalha contra a oEI, estima-se que cerca de 12 000 curdos perderam a vida e têm sido eles a garantir a prisão de muitos milhares de combatentes da oEI, alguns dos quais os respectivos países de origem, europeus, recusam ter de volta.
Por agora, o cessar-fogo que estava em vigor foi prolongado até 11 de Fevereiro. Um dos objetivos é forçar a integração das FDS nas forças militares de Damasco; o outro é permitir a transferência dos presos da oEI, da Síria para o Iraque. Os Estados Unidos pretendem a transferência de cerca de 7 000 presos (distribuídos por várias prisões que estavam sob alçada das forças curdas) e alguns já foram entregues às autoridades iraquianas. Outros, familiares, foram libertados, segundo a Sana, agência de notícias síria, como foi o caso de 126 menores numa prisão da província de Raqa. O caos que a ofensiva síria tem gerado também levou à fuga da prisão de Chaddadi, noticiada pelo Ministério do Interior de Damasco, de 120 membros da oEI, 81 dos quais terão sido capturados.

Segundo os números avançados pelas agências internacionais, familiares dos membros da oEI estão distribuídos por dois campos principais: o de Al-Hol, onde estão 24 000 pessoas (cerca de 15 000 sírios, 3 500 iraquianos e 6 280 estrangeiros, de 42 nacionalidades, entre os quais alguns ocidentais) e o de Roj (mais de 2 000 pessoas, a maioria estrangeiros, alguns ocidentais) ainda, que se saiba, sob controlo curdo. Quanto a combatentes presos depois da derrota da oEI, foram cerca de 12 000, entre eles de 2 500 a 3 000 estrangeiros de mais de 50 países. Um português que combateu pela oEI, Steve Duarte, poderá estar num destes campos.
Kobani outra vez cercada
Nos últimos dias houve combates em redor de Kobani. A cidade acolhe muitos curdos que têm vindo a ser expulsos de outras zonas – desde Alepo – à medida que as tropas sírias avançam. As forças de Damasco já expulsaram também as FDS das províncias de Raqa e Deir Ezzor.
Kobani está cercada há mais de uma semana. Os contactos com o exterior são intermitentes, porque não há electricidade, não há Internet, não há água (está a ser consumida água de furos locais, sem tratamento, com custos elevados para a saúde), não há leite (é já um enorme problema porque deixa crianças sem alimentação), os hospitais estão com falta de medicamentos devido ao cerco e ao elevado número de feridos.
No domingo entraram em Kobani 24 camiões de ajuda humanitária e o governo sírio anunciou que estão abertos dois corredores humanitários: um para Kobani e outro para Hassaké, outra cidade que também acolhe deslocados que fogem do avanço das tropas sírias.
A situação no Curdistão sírio é confusa e nem sempre é fácil perceber que forças combatem os curdos das FDS. Uma fonte em Kobani acusa as forças que cercam a cidade: “Dizem que são forças armadas do regime mas a maioria deles são milícias tribais a que se juntaram antigos membros do ISIS e combatem em nome das tribos”.
Em 2015, os curdos infligiram a primeira derrota à organização Estado islâmico, depois de meses de resistência em Kobani e com a ajuda dos bombardeamentos da coligação internacional.
Entre os últimos meses de 2014 e Janeiro de 2015, os combatentes curdos das YPG (Unidades de Protecção Popular) resistiram ao cerco imposto pela organização Estado Islâmico (oEI) e acabaram por conseguir expulsar os fundamentalistas de algumas zonas e também das imediações da cidade.

Em Março de 2019, Baghouz, junto à fronteira com o Iraque foi a batalha final. As FDS varreram a organização Estado Islâmico de todo o território a oriente do Rio Eufrates, nordeste da Síria. Quando lá estive, uns dias depois, os restos das bandeiras negras ainda esvoaçavam, ficando na memória os tempos de controlo fundamentalista.
Pinhal Novo, 29 de Janeiro de 2026
01h50
jmr
