O carácter da Direita

Confesso que o confronto Seguro-Ventura é o que eu mais queria para a segunda volta das Presidenciais. E digo isto não por qualquer tipo de preferência política por estes dois candidatos – não é isso que está aqui em causa – mas porque vai definir o carácter da Direita portuguesa: quando estão em causa questões tão importantes para Portugal (escolher entre um candidato da extrema-direita xenófoba e populista e um outro verdadeiramente democrata), em quem vai votar a Direita? Vai a Direita defender a Liberdade, a democracia e a Constituição, ou vai preferir dar o voto a um candidato que quer virar o país do avesso, desprezando todo o caminho (imperfeito, é certo…) democrático que foi feito desde o 25 de Abril de 1974? Como alguém já disse, contrariando André Ventura, os últimos 50 anos foram os melhores que Portugal já teve.

Sabendo que a transferência de votos não é automática nem directa, se os votos da Direita em Marques Mendes e Cotrim de Figueiredo se transferirem para Ventura, o candidato da extrema-direita será o próximo Presidente da República. Não é líquido que assim seja.

Para António José Seguro vencer a segunda volta, terá de ir conquistar votos à Direita. É isso que dizem os 31,1% que obteve na primeira volta, se considerarmos (para somar) as votações dos outros candidatos à esquerda.

O exemplo francês

Aqui chegados, lembro o exemplo francês, onde, nas últimas legislativas antecipadas, o campo Macronista e a Nova Frente de Unidade Popular (forças de Esquerda), firmaram um acordo para travar a extrema-direita de Marine Le Pen. Conseguiram!

Também na reeleição presidencial (2022), Macron contou com os votos da Esquerda para derrotar Marine Le Pen. A Esquerda votou Macron e o próprio reconheceu que venceu com votos de quem não gostava dele prometendo ter isso em conta durante o mandato. No dia seguinte já não se lembrava da promessa.

Mas nestes dois casos foi possível travar a extrema-direita. Nas referidas legislativas antecipadas, por conveniência de Macron e da Esquerda, com cedências de ambas as partes; nas presidenciais porque a Esquerda não hesitou em votar no candidato que era a única opção para travar a extrema-direita.

Mas há uma pergunta para a qual não temos resposta: se fosse a Direita a ter de optar, numa segunda volta das presidenciais, entre um candidato de Esquerda e a candidata Marine Le Pen, em quem votaria a Direita?

É essa pergunta (mesmo numa realidade diferente e com contexto muito próprio) que se coloca agora para a segunda volta entre António José Seguro e André Ventura. Em quem vai votar a Direita? Vai tapar a fotografia no boletim de voto e votar em Seguro, defendendo a democracia e travando a extrema-direita? Ou vai revelar aquele ódio primário – sim, ódio – a tudo o que tenha um ligeiro cheiro a Esquerda e vai votar Ventura, independentemente das consequências para Portugal?

Sinais

Que Marques Mendes se tenha dispensado de declarar preferência por um dos candidatos que passam à segunda volta já é difícil de entender; que Luís Montenegro, enquanto líder do PSD, tenha feito o mesmo, é incompreensível. O Almirante não faz parte desta história (equivocou-se), mas João Cotrim de Figueiredo também se escusou a tomar uma posição relativamente à segunda volta das presidenciais. Afinal, talvez não existam assim tantas diferenças entre eles e Ventura que até disse aos líderes da Direita que “a Direita venceu as eleições e só perderemos por egoísmo do PSD da iniciativa liberal”. Está feito o convite. Depois das primeiras reacções a quente, aguarda-se a resposta.

É muito estranho que alguns responsáveis políticos tentem passar “entre os pingos da chuva” e não tomem posição perante escolhas tão fracturantes e decisivas. Poucas vezes (alguma vez?) em Portugal uma eleição significou uma pergunta e uma opção tão simples e, ao mesmo tempo, tão importante: devemos votar num democrata – concordando ou não com o que preconiza para o país – ou devemos votar em alguém que está nos antípodas do debate democrático, tem todos os tiques dos piores autocratas, despreza qualquer dever institucional do Presidente da República, pretende transformar o sistema – sabe-se lá como – e mantém um registo de comunicação que privilegia a boçalidade, a ofensa, destratando quem se lhe atravessa no combate político (basta ver o que se passa no Parlamento)?

André Ventura diz querer liderar a Direita. Já lidera, por omissão das lideranças tradicionais. De tanto lhe imitarem a retórica, embora de forma envergonhada e com embrulho mais vistoso, ele tirou-lhes a cadeira. E não será propriamente uma surpresa se o passarem a venerar.

Dia 8 de Fevereiro vai ser um dia extremamente importante para a democracia em Portugal e ninguém deve fugir à responsabilidade de defender, com o voto, um país onde se respire livremente.

Estamos para ver qual é o carácter da Direita portuguesa.

Pinhal Novo, 19 de Janeiro de 2026

02h00

jmr

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