
Esta terça-feira, em entrevista à Rádio Observador, o candidato à presidência, Gouveia e Melo, não disfarçou a irritação quando foi questionado sobre a maçonaria e no meio das respostas incluiu uma pergunta: «já fizeram essa pergunta a todos os outros (candidatos)?». Não é o primeiro a perguntar se uma qualquer pergunta já foi (ou vai ser) feita aos outros candidatos. É uma forma conhecida de tentar inverter os papéis (quem pergunta e quem responde), de ganhar tempo para pensar a resposta e de, eventualmente, levar a entrevista para outra direcção. Quem o faz, tenta deixar o papel de entrevistado, procura o debate e o confronto com quem o entrevista.
A milhares de quilómetros de distância, outra personagem, o presidente norte-americano, Donald Trump, ao lado do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman (MBS), também se irritou com as perguntas dos jornalistas, no caso com uma repórter da televisão ABC, Mary Bruce. Primeiro, sobre questões relacionadas com o assassínio do jornalista Jamal Khashoggi, relativamente ao qual a própria CIA atribuiu responsabilidades a MBS e por via disso foi considerado um pária pelo anterior presidente norte-americano; depois sobre o caso Epstein (caso de tráfico sexual de menores, do qual, alegadamente, Donald Trump teria conhecimento), quando a repórter perguntou “porquê esperar que o Congresso divulgue os arquivos de Epstein? Por que não fazer isso agora?”. Perante tudo isto, Trump partiu para o insulto: “Acho que você é uma péssima repórter” (…) “Você deveria voltar e aprender a ser repórter. Chega de perguntas da sua parte” (…) “As pessoas já perceberam a sua farsa” (…) “A sua empresa de quinta categoria é uma das culpadas. E vou dizer-lhe uma coisa… Acho que a licença da ABC deveria ser cassada. Porque as suas notícias são falsas e erradas”. Não fazem as perguntas que o presidente gosta? Ficam sem licença!
São dois episódios sem ligação directa entre eles e que para além de dizerem muito sobre os protagonistas dizem muito mais sobre a necessidade do jornalismo que faz perguntas, confrontando os entrevistados com as questões que são relevantes e que ajudam os públicos a conhecer o pensamento dos entrevistados. É para isso que servem as entrevistas e é para isso que serve o jornalismo.
Estamos num tempo em que governantes e outros líderes políticos tentam fugir a esse escrutínio. Não gostam de ser questionados por quem estuda os assuntos e percebe onde está a falha, a incoerência, a mentira descarada ou disfarçada, a meia-verdade ou a semântica habilidosa e enganadora. Esses governantes e líderes políticos preferem as redes sociais, contacto directo com as pessoas, dizendo que, assim, a informação – que lhes interessa – não é distorcida. Entretanto, sempre que podem lançam a dúvida e a desconfiança sobre os jornalistas.
Estamos num tempo em que o jornalismo faz ainda mais sentido. Pode gostar-se mais ou menos de determinado jornalista, ou até não gostar de todo de um ou de outro, mas isso não anula a necessidade do jornalismo.
Como em qualquer profissão, há bons e maus jornalistas e não há forma de fugir a isso, mas não será por termos tido uma má experiência com um médico que passamos a consultar o vizinho do lado (ou um qualquer chat…) quando ficamos doentes.
O problema é que há ataques a jornalistas e ao jornalismo que não têm qualquer justificação (a não ser a irritação e o incómodo provocado pelas perguntas) mas há outras situações em que os jornalistas e o jornalismo se põem a jeito.
Assim, convém evitar a asneira quando se percebe logo à partida que o resultado não pode ser bom, tal como no dia 1 de Novembro, quando a CNN decidiu entrevistar o candidato presidencial André Ventura, no programa “verdade ou consequência”. Em estúdio, o pivô, André Carvalho Ramos, e dois comentadores da CNN, Francisco Rodrigues dos Santos e Pedro Costa. Convém dizer que Francisco Rodrigues dos Santos é um antigo líder do CDS e declarou apoio ao candidato presidencial Gouveia e Melo; Pedro Costa é membro do Secretariado Nacional do PS. Tinha tudo para correr mal e assim foi.
É certo que toda a gente pode entrevistar toda a gente, mas uma entrevista jornalística tem de ser feita por jornalistas e mesmo a presença de André Carvalho Ramos no painel de “entrevistadores” do “verdade ou consequência” não é suficiente para preencher esse requisito. Talvez algum público não perceba a diferença, mas não é difícil reconhecer o conflito de interesses entre quem é comentador mantendo actividade político-partidária e um candidato presidencial. Sabemos como acabou esta “entrevista”: André Ventura a abandonar o estúdio dizendo que foi vítima de um ataque e de uma perseguição.
Aqui chegados, Ventura ganhou da forma que gosta de ganhar: foi vítima, foi notícia e manteve-se como assunto no topo da agenda; a CNN provavelmente também ganhou audiências porque uma boa zaragata dá sempre audiências. Perdeu o jornalismo.
Pinhal Novo, 19 de Novembro de 2025
00h20
jmr
