Menos cinco para contar o genocídio na Faixa de Gaza

Anas al-Sharif e Mohammed Qreiqeh, dois dos jornalistas da Al Jazeera que Israel assassinou em Gaza 10AGO2025. Foto retirada do X da Missão da Palestina na ONU

Cinco. Israel assassinou cinco jornalistas da Al Jazeera. Têm nome: Anas al-Sharif, Mohammed Qreiqeh, Ibrahim Zaher, Mohammed Noufal e Moamen Aliwa. Estavam numa tenda de jornalistas junto à entrada do Hospital Al-Shifa, na cidade de Gaza. A tenda foi alvejada directamente, não foi um dano colateral. Israel já assumiu o ataque e diz que um dos jornalistas, Anas al-Sharif, era um “terrorista”, membro do Hamas, líder de uma célula responsável por lançamento de rockets contra civis e militares Israelitas, e diz que libertou documentos que provam essa ligação. Não provam coisa nenhuma. Entre outras coisas Israel diz que encontrou listas de contactos do Hamas. Qual é o jornalista que não tem contactos com movimentos rebeldes? (e não venham com a conversa de que o Hamas é terrorista e por isso é proibido falar com eles, porque não é assim que se exerce o ofício).

Israel ameaçou várias vezes matar Anas al-Sharif, e matou! O Comité para a Protecção dos Jornalistas tinha manifestado séria preocupação com a segurança de Anas al-Sharif considerando que estava a ser alvo de uma campanha de difamação israelita. O jornalista recebia ameaças via telefone dizendo-lhe para deixar de noticiar a guerra e sair do norte do território. Em julho, a Al Jazeera tinha denunciado os “esforços incansáveis” do exército israelita para uma “campanha contínua de incitamento contra correspondentes e jornalistas da Al Jazeera na Faixa de Gaza” considerando que era “uma tentativa perigosa de justificar a perseguição dos seus jornalistas no terreno”. Convenhamos que se Israel quisesse matar Anas al-Sharif por ser “terrorista” não tinha feito ameaças relacionadas com a cobertura jornalística.

A preocupação das Nações Unidas relativamente às ameças sofridas por Anas al-Sharif.

Anas al-Sharif, 28 anos, era uma das caras mais conhecidas e respeitadas da Al Jazeera árabe que fazia a cobertura da guerra desde 7 de Outubro de 2023. Licenciou-se em jornalismo na Universidade de Al-Aqsa, em Gaza, e recebeu em 2018 o prémio para melhor jornalista jovem palestiniano, pelas reportagens feitas na Faixa de Gaza. Anas vivia no campo de refugiados de Jabalia, de onde a família foi retirada para um abrigo numa escola da UNRWA, em Dezembro de 2023, mas o pai, de 90 anos, ficou para trás e morreu devido a um ataque israelita que atingiu a casa da família. Anas tinha a mãe a seu cargo, era casado e tinha dois filhos. Alguns minutos antes de ser assassinado, Anas al-Sharif noticiou, através do X, ataques intensos nas zonas leste e sul da cidade de Gaza. Ainda na rede X foi publicado um texto que será o seu “testamento” https://x.com/AnasAlSharif0/status/1954670507128914219

Fotografia retirada do X de Anas al-Sharif

Carimba-se de terrorista e mata-se

A estratégia israelita é simples: carimbar de “terroristas” todos os que são alvo de um ataque israelita, mesmo que seja a Cruz Vermelha, qualquer ONG, as agências da ONU, Hospitais, Escolas, Mesquitas, jornalistas… todos são marcados com esse “carimbo” que justifica todos os ataques e todas as mortes. Não há comunicado do exército israelita que não tenha sempre o mesmo parágrafo: “antes do ataque foram tomadas medidas para mitigar danos a civis, incluindo o uso de munições de precisão, vigilância aérea e informação adicional”: Todos conhecemos o resultado de ataques tão cuidadosos. O problema de Israel é que este tipo de comunicação já não funciona e a sua credibilidade é zero.

Tal como já não resulta Israel repetir à exaustão, através de todos os canais e seguidores acríticos, que não há fome em Gaza. Se tudo o que sai de Gaza é propaganda do Hamas, como dizem alguns desses seguidores acríticos, então que Israel deixe entrar a imprensa internacional. Não deixa. E para além disso, vai matando os jornalistas que estavam em Gaza quando começou esta fase da guerra. Já são mais de 200. Perdi a conta.

Jornalismo controlado

Agora, que Benjamin Netanyahu anunciou a intensificação dos ataques e a intenção de controlar a cidade de Gaza, matar mais uns jornalistas palestinianos significa que há ainda menos jornalistas para contar o que Israel vai fazer. Matar jornalistas é matar os olhos que nos contam o que está a acontecer em Gaza.

Netanyahu disse este domingo (10 de Agosto) que vai autorizar a entrada de mais jornalistas internacionais integrados e sob controlo do exército israelita, alegadamente para garantir a segurança dos jornalistas. Netanyahu deve saber que os jornalistas não precisam de ser protegidos desta forma. Os jornalistas sabem e têm o direito de decidir quando e como correr riscos. Aliás, Netanyahu também deve saber que há muito tempo que os jornalistas que entravam na Faixa de Gaza tinham de assinar um documento em que ilibavam o exército israelita de qualquer responsabilidade se alguma coisa lhes acontecesse enquanto estivessem no território palestiniano. Os jornalistas que há poucos dias assinaram a petição (Freedom To Report.org Initiative) recusam esta “oferta” de Netanyahu e “exigem um acesso livre (à Faixa de Gaza), independente e sem restrições de acordo com as nossas próprias avaliações de segurança.”

Netanyahu diz que não quer Gaza, mas quer

Benjamin Netanyahu diz que não quer controlar Gaza, mas também não quer o Hamas ou a Autoridade Palestiniana a controlar o território. Afinal, todos percebemos o que Netanyahu quer: avançar no terreno até criar as condições para poder dizer que a única solução é Israel ficar em Gaza. A extrema-direita israelita, aliada de Netanyahu no governo, quer o mesmo: árabes fora de Gaza, território anexado por Israel. Os alertas surgem de todos os lados, perante a possibilidade de uma carnificina ainda maior do que aquela que já se verifica em Gaza, mas a União Europeia (dos Estados Unidos não vale a pena falar…) continua com palavrinhas mansas em relação ao governo israelita e não consegue decidir nada que seja, de facto, problemático para o governo de Netanyahu. Ursula von der Leyen, António Costa e Roberta Metsola continuam a envergonhar a Europa e a fazer tábua-rasa dos valores que dizem defender. Que nos digam, de uma vez por todas, o motivo da inação, mas deixem de nos enganar porque sentimos uma enorme vergonha da cumplicidade europeia em relação ao que está a ser feito ao povo palestiniano. Política sem ética e sem valores, não vale a pena.

Marwan Bishara, analista político da Al Jazeera, reagiu ao ataque que matou os cinco jornalistas da estação considerando que Netanyahu é um psicopata. Não concordo. Benjamin Netanyahu e os colonos israelitas fanáticos têm um objetivo bem definido: varrer os palestinianos de Gaza, seja a tiro, à bomba ou com uma retroescavadora. Talvez os líderes europeus tenham esperança de passar umas férias na Riviera palestiniana.

Pinhal Novo, 11 de Agosto de 2025

03h00

jmr

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