Mahmoud, desculpa! O mundo não tem perdão…

Mahmoud Ajjour, 9 anos, foi ferido num ataque israelita em Gaza, em Março de 2024. Perdeu os dois braços. Foto de Samour Abu Elouf, venceu o World Press Photo 2025.

É um arrepio, uma dor imensa, olhar para a fotografia deste menino, Mahmoud Ajjour, 9 anos, ferido e mutilado em Gaza, vítima de um ataque israelita em Março de 2024. A fotografia de Mahmoud fez a primeira página do New York Times (NYT) na edição de 25 de Novembro de 2024. “Sobrevivendo a Gaza” é o título do artigo em que o jornal relata as entrevistas com Mahmoud e outras crianças entretanto enviadas para o Qatar onde recebem tratamento médico e em relação às quais o NYT escreve: “Estão vivos – mesmo que alguns não tenham a certeza se ainda querem estar (vivos)”.

Há uma tendência de algum jornalismo fácil para explorar as emoções através do sofrimento das crianças em locais de guerra. Qualquer ser humano é sensível a esse tipo de sofrimento, mais do que quando se trata de um adulto. Sendo que o sofrimento, de crianças ou adultos, deve ser mostrado – porque no fim de contas é o sofrimento das pessoas que nos deve questionar – não gosto do jornalismo fácil que explora as emoções de forma obscena. Não é o caso desta fotografia e confesso que senti uma urgência enorme em dizer ou escrever alguma coisa enquanto estava a olhar para a fotografia de Mahmoud.

Primeira página do New York Times, 25 de Novembro de 2024.

Precisamos de tempo para olhar e interiorizar todas as mensagens que Samar Abu Elouf, freelancer que trabalha em Gaza para o NYT desde 2021, conseguiu registar nesta imagem.

Há toda uma dignidade na postura de Mahmoud; a cabeça levantada, numa atitude de resistência, enquanto transparece uma espécie de pudor em olhar para a câmara quase que a dizer “preferia não ser fotografado, mas é importante que me vejam”; o olhar triste; dois braços amputados. É impossível saber o que passa pela cabeça de um menino de 9 anos, sem os dois braços, certamente com vontade de brincar com os meninos da mesma idade. A fotografia transmite-nos o silêncio de Mahmoud. Provavelmente um silêncio de revolta mas também de interrogação quanto ao futuro. Afinal, conta o NYT, Mahmoud é agora um menino que tem de pedir à mãe para lhe coçar o nariz. Um comunicado da World Press Photo refere que o sonho de Mahmoud é receber próteses e viver a vida como qualquer criança. Não é abusivo pensar que Mahmoud não quereria ser o herói nem ter o protagonismo que agora lhe é dado com o prémio atribuído a esta fotografia.

A directora executiva da World Press Photo, Joumana El Zein Khoury, sintetiza o poder desta imagem: “É uma fotografia silenciosa, mas que fala alto. Conta a história de um rapaz, mas também de uma guerra ainda mais vasta que terá um impacto nas gerações futuras”.

Tudo isto nos interpela. Em Dezembro de 2024, as Nações Unidas diziam que a Faixa de Gaza tinha o maior número de crianças amputadas “per capita”. Há muitos e muitas “Mahmoud” em Gaza. Esta fase da guerra começou a 7 de Outubro de 2023, desencadeada após o ataque do Hamas a território de Israel, e não há nenhum sinal de que vá terminar.

O mundo assiste, e se há mundo em relação ao qual o silêncio e até o incentivo a esta guerra não nos surpreende, há outro mundo – a Europa – que não se cansa de apregoar valores, mas que teima em não ter uma acção digna e equivalente aos valores que apregoa. A União Europeia, após 18 meses de massacre israelita na Faixa de Gaza, nada fez para parar o governo de Israel. Nada!!! Nem uma sanção, nem uma medida, nem a suspensão da parceria económica com Israel. Para suprema vergonha o governo húngaro recebeu Benjamin Netanyahu apesar do mandado de captura emitido pelo TPI contra o primeiro-ministro israelita. O que fez a União Europeia? Nada!

Portugal? Bem, os sucessivos governos portugueses têm recusado reconhecer o Estado da Palestina. Está tudo dito.

Todos eles devem sentir (sentirão mesmo?) vergonha quando olharem para a fotografia de Mahmoud Ajjour. Ursula von der Leyen, Roberta Metsola, António Costa, Luís Montenegro, deviam ser condenados a ter uma moldura com a fotografia de Mahmoud Ajjour em cima da secretária.

Não sei se Mahmoud nos irá desculpar, mesmo sabendo que muitos de nós fazem o que podem – e podemos pouco – para parar o massacre em Gaza. Mas temos de lhe pedir desculpa.

Também sei que Mahmoud terá toda a razão do mundo em não desculpar os que podem mais e nada fazem. Por cobardia, conveniência ou medo, e alguns até porque acreditam que Israel está a fazer o que deve ser feito, estão calados. Não têm perdão.

Samar Abu Elouf, prémio World Press Photo 2025. Créditos: twitter de Samar

A Samar Abu Elouf, uma palavra de agradecimento, pela coragem de fotografar e, com essa fotografia poderosa, confrontar-nos com a nossa consciência.

Samar agradeceu na sua página de Facebook: “É muito difícil para mim dizer que a foto ganhou o prémio World Press Photo of the Year, por causa da natureza dolorosa da própria imagem, da situação na cidade de Gaza e dos ferimentos que o meu amigo, o fotógrafo Ehab El-Bourdiny, sofreu. Obrigado aos editores de fotos do The New York Times e obrigado ao World Press Photo.”

Pinhal Novo, 17 de Abril de 2025

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