
O Médio Oriente já atravessou muitos momentos críticos e guerras que pareceram não ter fim, mas este é um momento que parece mais crítico do que todos os anteriores.
Ao atacar Teerão e matar o líder político do Hamas, Israel cometeu uma provocação que obriga o Irão a responder, sob pena de perder a face e de nunca mais ser levado a sério por muitas ameaças que faça e por muita retórica que utilize contra Israel. No ataque, segundo o jornal New York Times, foram utilizados explosivos colocados algumas semanas antes no local onde Ismail Haniyeh dormia habitualmente quando estava em Teerão, um local da responsabilidade dos Guardas da Revolução, utilizado para albergar dignitários estrangeiros. Esta versão parece fazer algum sentido e a resposta do porta-voz do exército israelita alimenta essa possibilidade embora nunca assuma a autoria do ataque. Questionado sobre a notícia do New York Times, Daniel Hagari disse que na noite em que Ismail Haniyeh morreu, “os nossos aviões (israelitas) não voaram em nenhuma zona do Médio Oriente, excepto no Líbano”.
Isto significa que o Irão foi atacado em instalações teoricamente seguras ficando assim evidente uma enorme falha de segurança interna; por outro lado, o alvo foi um convidado que o Irão tinha a responsabilidade de manter em segurança. Haniyeh foi assassinado poucas horas depois de assistir à investidura do novo Presidente do Irão. Perante isto, é do interesse do Irão não demonstrar fraqueza e também recuperar a capacidade de dissuasão. É a reputação da República Islâmica que está em causa e as autoridades iranianas estão confrontadas com uma decisão difícil, da qual conhecem as potenciais consequências se decidirem atacar Israel, sendo que toda a região pode mergulhar numa guerra de proporções nunca vistas. Desta vez, não há dúvidas de que foi Israel a provocar a eventual escalada.
Matar o interlocutor
Ao matar o homem com quem estava a negociar um cessar-fogo na Faixa de Gaza, Israel acaba por dizer que as negociações têm sido um embuste e que quem vier substituir aquele que foi agora assassinado arrisca-se a ter o mesmo fim. Aliás, parece haver uma conjugação de acontecimentos que traduzem uma vontade de Israel para fazer escalar o conflito: com um intervalo de poucas horas, para além do assassinato de Ismail Haniyeh, Israel matou o comandante militar do Hezbollah. Não há muito tempo, atacou o porto iemenita de Houdeidah e a embaixada iraniana em Damasco. A lista de ataques em território iraniano é longa. Um dia poderá haver uma resposta séria e esse dia poderá não estar longe uma vez que Israel não se cansa de esticar a corda.
Qual será a resposta do Irão?
A 13 de Abril, o ataque iraniano que serviu de resposta ao ataque israelita à embaixada iraniana em Damasco, foi visto como uma reacção contida que permitiu ao Irão salvar a face, mas que não passou disso mesmo. Desta vez poderá ser diferente. E pior. Ainda não se sabe quando nem como poderá ser, mas as palavras do líder iraniano, Ali Khamenei (promete uma “punição severa”), e do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah (“o inimigo deve esperar uma resposta inevitável da nossa parte” porque “Israel não sabe as linhas vermelhas que ultrapassou”), não deixam dúvidas de que algo irá acontecer. A resposta do Irão e dos movimentos proxys poderá não ser uma resposta em força e no imediato, mas a bandeira vermelha foi içada na mesquita de Jamkaran, na cidade xiita de Qom, centro religioso iraniano. Uma das leituras possíveis deste içar da bandeira é de que a vingança está para chegar. Sendo uma bandeira que pode ser utilizada em diferentes ocasiões, nomeadamente no primeiro mês do calendário islâmico – o mês do luto – e que significa o sangue dos mártires, a última vez que esta bandeira foi içada na cúpula de uma mesquita em Qom foi após o assassinato do general Qassem Soleimani, no Iraque, em Janeiro de 2020. Dessa vez, o Irão respondeu com ataques a bases norte-americanas no Iraque.
Muitos analistas consideram que o Irão não pretende uma guerra total porque isso arrastaria os Estados Unidos. Por outro lado, também há quem considere que o chamado “Eixo da Resistência” pode coordenar-se de modo a que os ataques a Israel sejam desencadeados em simultâneo a partir do Irão, Líbano (Hezbollah), Iraque (Brigadas de Mobilização Popular), Iémen (Houthis) e ainda do Hamas e da Jihad Islâmica (esta sexta-feira, 2 de agosto, foram disparadas duas dezenas de rockets da Faixa de Gaza, algo que não acontecia há várias semanas). Aparentemente não faz sentido repetir o modus operandi de 13 de Abril; por outro lado, terá de ser algo suficientemente poderoso para recuperar o poder de dissuasão em relação a Israel.
Após 10 meses de guerra as forças israelitas (e a população) acusam desgaste e há uma maior capacidade do Irão e dos seus aliados para manterem uma guerra de longa duração obrigando Israel a estar empenhado em várias frentes.
Israel está em alerta máximo e por muito que Benjamin Netanyahu bata com as mãos no peito e diga que Israel está preparado para todos os cenários, não é líquido que assim seja e o apoio ocidental está a perder margem de manobra, com a opinião pública de muitos países a manifestar-se contra a carnificina na Faixa de Gaza e contra o apoio a Israel. É evidente que Israel pode sempre contar com o “amigo americano”, mas até nos Estados Unidos – com eleições à vista – esse apoio pode vacilar.
Para já, o Secretário da Defesa dos Estados Unidos mandou reforçar a presença militar na região com mais navios de guerra e aviões de combate.
Habitualmente bem informadas, várias companhias aéreas cancelaram voos para Telavive e Beirute e muitos países apelam aos seus cidadãos para deixarem a região logo que possam.
Não demoraremos muito a saber qual vai ser a decisão do Irão.

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