Gaza, mais de 30 mil mortos depois

Campo de refugiados de Jabalya, Faixa de Gaza, Outubro de 2004. Há quase 20 anos, os bombardeamentos já eram frequentes e a destruição bem visível. Foto: jmr/arquivo

7 de Outubro de 2023, sábado. Acordei tarde, o despertador tinha ficado desactivado, dormi descansado e nem ouvi os alertas que o telemóvel acumulou. Mas logo durante o primeiro café e o primeiro cigarro do dia, só havia uma notícia a fazer o pleno do espaço informativo: o ataque do Hama. Confesso que demorei um pouco a perceber o que estava a acontecer. Ninguém esperava, nem Israel (ao que parece…), que o Hamas ousasse desencadear um ataque com esta dimensão. Dou comigo a pensar que ninguém me telefonou da redacção.

Estive na Faixa de Gaza pela primeira vez em Outubro de 2004; voltei quando o então primeiro-ministro israelita Ariel Sharon decidiu (2005) retirar os colonatos e entregar Gaza aos palestinianos; fui de novo a Gaza várias vezes, para as eleições, depois durante o confronto Hamas-Fatah e na guerra 2008/2009. A última vez tinha sido em 2017. Tenho algum conhecimento do terreno, dos protagonistas e do que está em jogo. Mas ainda assim a surpresa foi enorme. O Hamas nunca tinha tentado nada parecido. Israel tinha a aura de um exército e agências de segurança infalíveis.

Voltando ao dia 7 de Outubro, fiquei colado à televisão e ao computador. As imagens não enganam: as milícias do Hamas e muitos civis misturados estavam nos kibutz, mortos estendidos no chão, grupos de pessoas fugindo em pânico, casas destruídas, pelo menos um tanque israelita nas mãos do Hamas, reféns a serem levados para Gaza, buldózeres a rasgarem a rede que cerca Gaza. Mas o que é que aconteceu?

O telefone tocou

No dia seguinte a agenda registava uma viagem de Paris para Toulouse, onde jogavam Portugal e as Ilhas Fiji, para o Mundial de Rugby. Os arredores da capital francesa estavam banhados pelo sol e um almoço “fora”, em família, vinha a calhar. Assim foi, mas o telefone tocou. Queres ir? Quero! Foi o tempo de fazer o saco e esperar que encontrassem o voo que haveria de me levar a Telavive, via Belgrado. Depois, Jerusalém, a base de sempre.

Nem sei porque vos conto tudo isto, porque o que vos quero mesmo dizer é que ninguém consegue imaginar – só quem lá está – o que têm sido os últimos cinco meses numa Faixa de Gaza quase demolida. Os números são terríveis: 30 717 Palestinianos mortos; 72 156 feridos; número desconhecido de vítimas sob os escombros; na Cisjordânia 415 palestinianos mortos e mais de 4 600 feridos; em Israel, o ataque do Hamas provocou 1 160 mortos (AFP); 246 militares israelitas morreram em Gaza, desde 7 de Outubro; cerca de 130 reféns israelitas estão nas mãos dos grupos palestinianos em Gaza; mais de 9 000 palestinianos estão nas prisões israelitas. À hora a que escrevo ainda não há acordo de cessar-fogo.

Por falar em “terrorismo”

Os números são dramáticos e de pouco servirá o argumento de que valorizamos sempre mais o que acontece no nosso tempo em detrimento de outros momentos mais longínquos e por vezes mais violentos, mas, de facto, este conflito tem mais de um século e são frequentes os momentos de grande violência, guerra e atentados. Ter consciência disso ajuda a olhar de uma forma menos apaixonada (e incompleta) para o que aconteceu a 7 de Outubro.

Tem havido “terrorismo” dos dois lados. Na década de 40 do século passado a organização israelita Lehi (Combatentes para a Liberdade de Israel) assassinou, no Cairo, o ministro Lorde Moyne, representante das autoridades britânicas. As forças israelitas combatiam o Mandato Britânico na Palestina e os representantes britânicos eram um alvo. Os dois homens que mataram Lorde Moyne foram julgados no Egipto e acabaram condenados à forca, tendo os corpos sido trocados por prisioneiros árabes e sepultados como heróis nacionais em Jerusalém.

Na mesma década de 40, ainda sob Mandato britânico, a imigração judaica era travada por Londres – entravam na Palestina muito menos judeus do que era o objetivo das organizações judaicas – e isso deu origem ao Movimento de Revolta Hebraica que juntava o já referido Lehi, o Irgun (Organização Militar Nacional) e a Haganah (Defesa) que desenvolveu acções contra os britânicos (por exemplo, o rapto de oficiais britânicos). A reposta foi violenta: 2 700 pessoas foram presas, houve rusgas em quase 30 kibutzim e foi apreendida grande quantidade de armas. Os britânicos queriam acabar com a Haganah e com a Agência Judaica. Como resposta a esta repressão britânica, o Irgun dinamitou o quartel-general das forças britânicas na Palestina, o Hotel King David em Jerusalém. Morreram 91 pessoas (britânicos, judeus e árabes) e dezenas ficaram feridas.

Lembrei-me destes acontecimentos, não para desculpar o que aconteceu a 7 de Outubro – é melhor dizer já, antes que surjam insinuações deturpadoras – mas para se perceber que em termos de “terrorismo” a história diz-nos que, muitas vezes, os “terroristas” de hoje são os líderes políticos de amanhã, devidamente reconhecidos. E também para fazer notar que o sentimento de ocupação israelita vivido pelos palestinianos, desde há várias décadas, pode, com as devidas distâncias, comparar-se ao que sentiam os judeus quando queriam fundar o Estado de Israel e a Palestina vivia sob Mandato britânico. E nesse tempo as coisas não foram nada bonitas.

O que seria mesmo bom é que o cessar-fogo chegasse rapidamente e que o derramamento de sangue terminasse.

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