Que guerra está a ser vista em Israel?

Faixa de Gaza, Campo da Praia, 9 de Outubro. Foto: AP

Não sei se haverá jornalistas na Faixa de Gaza para além dos que já lá estavam quando começou a guerra. Do que tenho visto – e admito que muita coisa me possa escapar – são todos correspondentes locais que trabalham para cadeias internacionais de televisão, e para órgãos de informação palestinianos. Todos lhe devemos um enorme reconhecimento. Muitos pagaram com a vida. A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) diz que é a guerra em que já morreram mais jornalistas, pelo menos desde 1990, ano em que a FIJ começou a recolher dados.

Gaza, 10 de Outubro, tributo ao jornalista palestiniano Mohammed Soboh. Foto REUTERS publicada pelo El País

Mas apesar das imagens e das informações que esses jornalistas nos fazem chegar, e que em todo o mundo podem ser conhecidas através de várias cadeias internacionais de televisão, a tragédia que Gaza está a viver parece que não estar a ser vista por uma parte significativa dos israelitas. Sem dúvida que essa tragédia tem a expressão principal no número de vítimas, mas os números, ao fim de algum tempo, mesmo quando se trata de vidas humanas, perdem peso no retrato abrangente da tragédia. É todo o sofrimento dos sobreviventes e a destruição de Gaza que está em causa, transformando o território em “terra queimada” onde será impossível viver. Habitações, estradas, empresas, saneamento básico, distribuição de água, hospitais, escolas, mesquitas, terrenos agrícolas, tudo está a ser varrido. O Centro de Satélites da ONU diz que 35% das zonas agrícolas no norte da Faixa de Gaza foram destruídas pela guerra.

A Coordenadora da ONU para os Territórios Palestinianos lembra que metade da população de Gaza está agora concentrada em Rafah, junto à fronteira com o Egipto. Lynn Hastings, refere um dado muito simples e revelador: “Uma casa de banho disponível para centenas de pessoas permite imaginar como serão as condições de saneamento”.

Esta responsável da ONU refere também as doenças infecciosas que estão a surgir estimando-se que existam já 360.000 casos (meningite, icterícia, varicela, infecções respiratórias), não falando nos casos de diarreia, que é, a nível mundial, a principal causa de morte entre crianças com menos de cinco anos de idade em situações semelhantes de falta de condições e tratamento. A UNICEF alerta para a impossibilidade de cumprir o plano de vacinação das crianças.

O Programa Alimentar Mundial aproveitou a pausa nos combates para recolher informação: 97% dos agregados familiares no norte e 83% no sul, têm consumo alimentar inadequado. Entre um terço e metade dos agregados familiares sofreram níveis graves de fome.

1,9 milhões de pessoas perderam a casa ou foram obrigadas a fugir. O inverno está a chegar.

Estes são apenas alguns dados concretos do drama que se vive na Faixa de Gaza, mas parece que não é esta a guerra que muitos israelitas estão a ver.

Israelitas não conhecem tudo o que acontece em Gaza

Anat Saragusti, repórter (fotógrafa) de guerra israelita, diz ao jornal israelita Haaretz que os principais meios de comunicação do país mal mostram imagens do que está a acontecer em Gaza e não informam regularmente sobre a terrível situação no território: “O facto de o público israelita não ver as imagens de Gaza significa que os jornalistas não estão a fazer o seu trabalho” (…) “Eles têm que mostrar as imagens. Os israelitas que falam hebraico e assistem aos noticiários da televisão não estão expostos ao que está a acontecer em Gaza. Não vemos as atrocidades, os escombros, a destruição e a crise humanitária. O mundo vê algo completamente diferente”.

O Haaretz escreve que esta atitude dos principais meios de comunicação pode revelar o medo que os israelitas sentem de que o mundo não entenda a dor provocada pelo ataque do Hamas e que apenas simpatize com os palestinianos, mas Saragusti diz que não é assim: “o mundo viu o massacre de 7 de outubro. Os Jornalistas vieram a Israel, viram os corpos, os restos mortais dos que participavam na festa, a destruição nos kibutzim”.

Mas se esta atitude de não mostrar o que está a acontecer em Gaza pode ajudar a afastar qualquer possibilidade de simpatia pelos palestinianos e pode fazer com que a decisão de continuar a guerra tenha mais apoio interno, também existe o reverso da medalha e os israelitas podem não entender o sentimento crescente a nível internacional contra a guerra: “as pessoas, fora de Israel, estão a ver uma imagem completamente diferente da realidade (mostrada em Israel). Se não virmos o que eles estão a ver, não seremos capazes de compreender o sentimento crescente contra nós. A maioria das pessoas sabe o que aconteceu, eles sabem que houve um massacre, eles entendem que Israel passou por algo devastador. O facto de nós, israelitas, estarmos a viver numa dimensão completamente diferente não funciona a nosso favor. Precisamos de lidar com isso”.

Convém dizer que já houve pelo menos um ministro do actual governo de Israel que tentou calar o Haaretz, mas o jornal não se deixou intimidar e a própria direcção respondeu ao ministro: se o governo quer calar o Haaretz, então chegou o momento de todos lerem o Haaretz.

Beirute

A questão de saber como se mostra a guerra transporta-me para Beirute, em 2006, quando Israel bombardeava a capital libanesa e todo o sul do país. Num desses dias, muitos libaneses juntaram-se no local onde fazíamos os directos para as televisões (eram locais onde havia sinal de satélite porque não era possível de outra maneira) para nos fazerem uma pergunta muito simples: “que guerra é que vocês estão a mostrar?”. A pergunta tinha associada a percepção de que os jornalistas não estavam a mostrar a verdadeira dimensão da destruição provocada pelas bombas israelitas, porque se o fizessem – acreditavam esses libaneses que nos fizeram a pergunta – a guerra já teria terminado, porque o mundo não aceitaria que pudesse continuar. A guerra em Gaza mostra-nos agora que o mundo não funciona como os libaneses pensavam nesse verão de 2006. A destruição em Gaza está bem à vista, mas o mundo – quem manda – não se importa.

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